ARTIGOS

Guerra na África Italiana17/06/2014
por Felix Steiner  

Mussolini determinara ao Duque D´Aosta, vice-rei da Etiópia e comandante-em-chefe da região, que permanecesse na defensiva, mas o duque discordou. Considerava ele, e com razão, que a vizinha Somalilândia poderia ser um excelente ponto de partida para o inimigo invadir as colônias italianas. Estas, rodeadas de possessões inglesas por todos os lados, encontrava-se perigosamente ameaçada.

Ao norte e a oeste, pelo Sudão, ao sul, pelo Quênia, a leste, pela Somalilândia. Em conseqüência, a ocupação desta última não apenas eliminaria a mais viável rota de invasão britânica, como também ameaçaria fortemente a navegação inimiga no Mar Vermelho. Além disso, a África Oriental Italiana encontrava-se praticamente isolada da Metrópole, sem possibilidades de receber reforços apreciáveis. Ora, o tempo trabalhava a favor dos ingleses. Era necessário que os italianos tomassem a iniciativa.


COMEÇA A BATALHA

Em 3 de agosto de 1940, 26 batalhões italianos e 10 brigadas coloniais, apoiados por 4 baterias de campanha e por alguns tanques leves, transpuseram a fronteira da Somalilândia. Os defensores contavam unicamente com 4 batalhões (dois hindus e dois africanos), além de 1 bateria de obuses e um pequeno corpo de Meharistas*. O General Wavell, comandante supremo britânico no Oriente Médio e na África Setentrional e Oriental, só pode destacar para a Somalilândia, a título de reforço, um batalhão escocês. As forças à sua disposição eram insuficientes para garantir a imensa região sob seu comando, sendo necessário concentrá-las nos setores mais vitais: A fronteira da Líbia, o Canal de Suez e o Golfo Pérsico, de onde ela retirava quase todo o petróleo necessário.

As tropas italianas, ao invadirem a Somalilândia, dividiram-se em duas colunas. Uma delas, infletindo para o norte, atingiu, em dois dias de marchas forçadas, os limites da pequena Somália Francesa. Foi alcançado o primeiro objetivo estratégico do Duque: impedir que a reduzida guarnição francesa daquela colônia viesse colaborar com os ingleses. O grosso de suas forças avançou na direção de Bérbera, capital da Somalilândia, mas encontrou forte resistência na passagem de Tug Argan, onde a estrada era dominada por algumas colinas, todas muito bem defendidas. Aliás, Tug Argan era o único local onde seria possível aos britânicos estabelecer uma razoável posição defensiva, tendo em vista a grande superioridade numérica dos italianos. Ultrapassado aquele obstáculo, a estrada para Bérbera estaria completamente aberta aos invasores.

Durante cinco dias de encarniçados combates, os atacantes lançaram-se ao assalto das colinas, sendo repelidos várias vezes, com fortes perdas. Aos poucos, porém, os britânicos foram forçados a ceder algumas posições, enquanto outras ainda continuavam a resistir, embora ameaçadas de cerco. Os defensores não tinham reservas, devendo fatalmente sucumbir ao peso numérico italiano. O comandante da Somalilândia telegrafou então para Wavell, dando conta da situação. Do Cairo veio à resposta: evacuação da colônia. Enquanto o batalhão escocês sustentava um vigoroso combate de retaguarda, a fim de fixar os italianos, as demais unidades evacuaram Berbera, por via marítima. A retirada completou-se em 18 de agosto, sendo a capital ocupada pelos italianos no dia seguinte. Mesmo com grande deficiência de artilharia, os britânicos infringiram mais de 2.000 baixas ao inimigo. Deve-se observar, a propósito, que as tropas nativas a serviço da Itália eram geralmente de fidelidade duvidosa, além de estarem pessimamente armadas. Esse fato explica a preocupação de d´Aosta, que tinha sob seu comando 200.000 soldados africanos e apenas 90.000 italianos.

Ele fez tudo na medida do possível, mas, faltava-lhe meios para realizar qualquer ofensiva de envergadura contra o Sudão ou Quênia. Assim sendo, os italianos limitara-se, nestes setores, a ocupar as vilas fronteiriças de Kassala, no Sudão e de Moyale no Quênia, eliminando assim duas possíveis bases de ataque contra suas posições na África. Agora, só lhes restava esperar que a ofensiva italiana no Norte da África conduzisse à ocupação do Egito e de Suez, o que restabeleceria as comunicações entre a Itália e suas colônias no mar vermelho. Mas isso não aconteceu. As forças do Duque permaneceram totalmente isoladas, aguardando o inevitável ataque britânico. Cinco meses se escoaram lentamente, enquanto o fragor da guerra reboava nos areais do Egito e da Líbia. Em 19 de janeiro de 1941 finalmente, os ingleses iniciaram sua ofensiva. Para realizá-la, Wavell havia designado 3 divisões: Uma delas, a 12ª Africana, deveria invadir a Somália Italiana, partindo do Quênia, as outras duas, 4ª e 5ª Hindus reforçadas por soldados ingleses, investiriam do Sudão contra a Eritréia. Essa operação foi planejada com objetivos limitados, tendo em vista a insuficiência das forças nela empregadas. Os britânicos pretendiam simplesmente ocupar as regiões fronteiriças inimigas, a fim de prevenir um ataque italiano contra suas posições. Pensava o comando inglês que só mais tarde, com maior concurso de tropas, seria possível a ocupação total da Somália e Etritéia, bem como a invasão da Etiópia. Um ataque direto contra esta última foi considerado impraticável, em virtude da aspereza do terreno e da presumida superioridade militar italiana.

As forças britânicas eram dramaticamente inferiores em número aos efetivos italianos, embora contassem com superioridade no ar. As o Duque, carecendo de informações precisa sobre as forças inimigas, superestimou-as consideravelmente. Fato semelhante ocorreu com o comando britânico, que calculou a capacidade combativa e o armamento dos soldados italianos muito acima de seu real valor. Foi com base neste duplo equívoco que começou o avanço inglês. Quem comandava a 12ª Div. Africana era o General Cunningham, irmão do Almirante. Esta divisão efetuou uma marcha rapidíssima, malgrado a precariedade dos caminhos. As principais localidades do sul da Somália foram abandonadas pelos italianos quase sem luta bastando para tanto a prévia intervenção da aviação sul-africana, que colaborava na invasão. A falta de artilharia antiaérea por parte dos defensores, e a impotência de seus poucos e antiquados aviões, fizeram com que os bombardeios aéreos tivessem um efeito desmoralizador sobre os italianos. Acrescente-se a eficiência dos meios motorizados britânicos contra a penúria do dos seus adversários, proporcionou aos atacantes grande e oportuna mobilidade.

A rapidez da 12ª Div. Africana foi decisiva, pois impediu o Duque de defender convenientemente a Somália. As rendições italianas tornaram-se cada vez maiores, ao mesmo tempo em que a combatividade decaia visivelmente. Os sucessos obtidos no sul surpreenderam o comando inglês e decidiram Cunningham a aproveitar a oportunidade de conquistar toda a colônia. Os primeiros embates haviam praticamente desintegrado as tropas italianas. O avanço tornou-se quase um passeio militar, com os italianos fugindo à sua simples aproximação. A Brigada Nigeriana, que fazia parte da 12ª Divisão, percorreu, sozinha, 400km em 3 dias. Mogadício caiu sem resistência em 25 de fevereiro. A Somalilândia foi reconquistada logo depois por 2 batalhões vindos de Aden, do outro lado do Mar Vermelho. A guarnição italiana de Bérbera rendeu-se aos primeiros tiros e apenas uma parte conseguiu retirar-se para a Etiópia. Os britânicos perderam apenas 501 homens nesta campanha. Esses números bem demonstram a debilidade da resistência encontrada.

A luta foi muito mais dura na Eritréia, onde as comunicações dos italianos com a retaguarda eram melhores, permitindo-lhes até receberem reforços. O Duque, preocupado com a superioridade inimiga, que não existia, ordenou, em 18 de janeiro a evacuação de Kassala e de outros postos fronteiriços, estabelecendo fortes posições defensivas no interior da Eritréia. Quando as duas divisões Hindus transpuseram a fronteira, travaram a princípio combates secundários, até atingirem o reduto que defendia a cidade de Keren.
A única estrada existente no local serpenteava por uma garganta montanhosa, dominada por onze picos que se erguiam mais de 700 metros acima do leito da rodovia. A guarnição italiana era constituída por 1 divisão e 6 brigadas de infantaria, além de 3 batalhões de granadeiros de elite. O comandante da posição ordenara que a estrada para Keren fosse dinamitada, o que impossibilitaria a passagem do inimigo. Os Hindus iniciaram o assalto a 3 de fevereiro de 1941. Três dos onze picos foram tomados, mas os italianos contra-atacaram com uma coragem não igualada na campanha da África Oriental, reconquistando duas das posições perdidas. Os combates prosseguiram ferozmente até o dia 10 de fevereiro, muitas vezes em mortíferos combates à baioneta. Os Hindus experimentaram os ataques noturnos, mas o resultado era sempre o mesmo: o terreno conquistado era perdido logo depois diante da determinação do contra-ataque italiano. O comandante inglês, inquieto com as perdas sofridas, suspendeu a ofensiva, mantendo em seu poder apenas um dos onze picos do reduto.

Em 15 de março, reforçados por mais uma brigada Hindu e outra de Franceses Livres, os britânicos reiniciaram a luta, precedidos por uma violenta barragem de artilharia, apoiada pela aviação. A 4ª Div. Hindu conseguiu tomar cinco posições, mas os italianos recuperaram 3 delas. Os ataques da 5ª Div. Hindu foram totalmente infrutíferos devido ao concurso da artilharia italiana.
A luta continuou com violência até 26 de março, quando sapadores ingleses conseguiram reabrir ao tráfego a estrada para Keren. Tanques ligeiros penetraram rapidamente na brecha assim obtida, rompendo a frente italiana. Os defensores foram forçados a abandonar suas posições e a recuar, após sete semanas de tremenda luta. A vitória abriu caminho para Asmara, capital da Eritréia.

A cidade foi ocupada sem luta em 1º de abril. Massaua, única base naval italiana no Mar Vermelho caiu dia 8.
Terminara a conquista da Eritréia. Restava agora a ocupação da Etiópia, onde o Duque se preparava para a resistência final. A invasão começara em 18 de fevereiro, quando 2 brigadas da África do Sul penetraram, provenientes do Quênia. Mas a queda de Mogadício abrira aos ingleses, uma via de acesso mais fácil pelo sudeste. Duas divisões britânicas, dotadas de artilharia pesada e com forte apoio aéreo, iniciaram seu avanço no começo de março. Os italianos retiravam-se sem opor resistência. Repetia-se o que ocorrera na Somália, com as tropas italianas abandonando as cidades antes mesmo da chegada do inimigo.

Ao mesmo tempo, os soldados etíopes desertavam aos bandos.
O Duque cada vez mais alarmado com a aproximação inglesa abandonou Adis-Abeba em 5 de abril, dirigindo os remanescentes de suas forças para Amba-Alagi, reduto montanhoso a 600km da capital. A brigada sul-africana enviada em sua perseguição foi retardada em seu avanço, mais pelas chuvas e pela destruição nas estradas, praticadas pelos italianos do que pela resistência do inimigo. Em todo percurso para Amba-Alagi, os sul-africanos tiveram apenas um encontro sério com os italianos, no Desfiladeiro de Kombolchia. Os atacantes contornaram a posição adversária, fortemente defendida, e lançaram-se ao ataque pela retaguarda, após intensa barragem de artilharia. O efeito do canhoneio foi tão desmoralizador que 8.000 italianos se entregaram, depois de infringirem aos sul-africanos 39 baixas. D´Aosta instalou seu QG em Amba-Alagi, cujo acesso era feito através de uma garganta a 3.000 metros de altitude, rodeada por picos rochosos.

Embora o duque estivesse em excelente posição defensiva, sua situação era absolutamente sem esperanças. Sem contato com as divisões que ainda resistia, privado de qualquer possibilidade de socorro, comandando tropas desmoralizadas e pobremente armadas, o comandante italiano estava praticamente perdido. Sua resistência final só teria um sentido: o de tentar redimir a honra das armas italianas, tão comprometidas pelos últimos acontecimentos.
Antes que os sul-africanos chegassem a Amba-Alagi, o reduto italiano foi atacado, a 3 de maio, pela 5ª Div. Hindu, vinda da Eritréia, e por um regimento etíope. Embora a primeira investida houvesse fracassado, os Hindus conseguiram, ocupar nos 2 dias seguintes, três importantes picos a oeste. O fogo das metralhadoras italianas impediu-os de avançar mais. O mesmo ocorreu quando os atacantes tentaram se aproximar do QG do duque, pelo lado leste, conseguiram chegar a 4km do objetivo, mas no dia 10 foram forçados a se deter. O duque animava pessoalmente seus homens incitando-os a resistir até o fim. Foi durante este impasse que a brigada sul-africana, reforçada por 2 regimentos etíopes chegou ao local da luta. Os etíopes recém chegados assaltaram imediatamente um pico ainda em poder dos italianos, conquistando-o. Os soldados que se renderam foram mutilados, a vista de seus camaradas, que guarneciam as elevações vizinhas. Era o dia 13 de maio. O comportamento dos etíopes gerou forte impacto psicológico sobre os defensores de Amba-Alagi.

Todos desejavam agora se render aos sul-africanos, embora estivessem dispostos a se baterem contra os etíopes até o ultimo homem. Um novo ataque etíope foi repelido com desesperada violência, demonstrando a determinação das tropas italianas contra essa espécie de inimigo. O Duque, informado sobre o estado de espírito de seus soldados, curvou-se ao inevitável. Havendo o comandante britânico concordado em aceitar sua rendição, o vice-rei da Etiópia capitulou no dia 19 de maio de 1941 juntamente com seus últimos 5.000 soldados.


A campanha estava praticamente concluída. Faltava apenas dominar os dois últimos focos de resistência dos italianos: Djimma e Gondar. Esses núcleos contavam com um total de 40.000 soldados. Embora as forças de Gondar não dispusessem de víveres suficientes para uma resistência prolongada, os bastiões naturais que rodeavam a cidade tornavam-na muito mais defensável de Djimma. A 11ª e 12ª Div. Africanas marcharam de Adis-Abeba para sudoeste avançando em meio à lama e a chuva. Destacamentos italianos dispersos fustigavam constantemente os britânicos, retardando sua progressão, contudo, não puderam impedir de Djimma caísse em 21 de junho, com toda sua guarnição. Duas divisões italianas intactas que tentavam escapar de seus perseguidores internando-se nos confins da Etiópia foram enfrentadas por tropas Belgas, provenientes do Congo. A superioridade desses novos inimigos forçou os italianos a capitularem em 3 de julho. As ultimas unidades italianas ainda organizadas encontravam-se em Gondar. Seu comandante decidira lugar até o fim, aproveitando as defesas naturais do local. Mas a falta de proteção antiaérea tornava os italianos extremamente vulneráveis a aviação britânica.

Gradualmente, o comandante italiano via-se obrigado a abandonar as posições avançadas que estabelecera, nas vias de acesso ao reduto.
Os ingleses iniciaram a ação em 11 de novembro, após cinco meses de combates secundários, nos quais haviam tentado abrir caminho para a ultima cidadela inimiga. Os italianos que participaram dessa derradeira batalha demonstraram grande coragem e firmeza. Inferiorizados em artilharia, e desprovidos de apoio aéreo, os bastiões defensivos foram caindo um a um, após dura resistência. No dia 27, tanques ligeiros conseguiram penetrar nas ruas de Gondar. Era o fim! O comandante italiano propôs a capitulação e, no dia seguinte, os últimos 22.000 soldados do exército da África Oriental Italiana depuseram as armas. O sonho imperial de Mussolini e de tantos milhões de italianos estava decididamente desfeito. Militarmente, o fim da campanha na África Oriental reforçou o controle britânico sobre o Mar Vermelho e sobre Suez. Além disso as tropas até então empenhadas em impedir a expansão italiana puderam ser enviadas para o Norte da África, onde eram vitalmente necessárias. As unidades coloniais britânicas, que constituíam a maioria dos efetivos aliados, aguçaram seu espírito ofensivo e demonstraram sua capacidade para desempenhar novas missões. Quanto aos soldados italianos, não há duvida que sua atuação geral deixou muito a desejar, pois revelaram surpreendente falta de firmeza diante do inimigo. Mas, os exemplos de Keren, Amba-Alagi e de Gondar, revelam que, apesar de seu moral vacilante, o Exercito Italiano sabia combater, desde que fosse dirigido por chefes enérgicos e decididos. Realmente, a fraqueza dos italianos deveu-se não apenas a seu armamento deficiente ou a falta de cobertura aérea, mas também à incapacidade e ausência de espírito combativo entre seus oficiais.
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