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GEORGE F. ‘SCREWBALL’ BEURLING - O Falcão de Malta17/06/2014por Hans Langsdorff

A ilha de Malta durante a maior parte do ano de 1942 era um pequeno pedaço do inferno no meio do Mediterrâneo. Sofrendo ataques aéreos constantes da Luftwaffe durante a Segunda Guerra Mundial aguentou firme dia após dia, com a população tendo muito pouco o que comer. Mas para um piloto de caça canadense, Malta era o paraíso na terra. Para ele, combates aéreos com o inimigo tendo clara superioridade numérica era a vida que ele pediu a Deus. Seus colegas pilotos o chamavam de 'Screwball' e algumas vezes 'Buzz'. Ele era o Sargento-Aviador George Frederick Beurling, natural de Verdun (atual Montreal) no Canadá e era antes de mais nada um amante da guerra.

Beurling nasceu em 06 Dezembro de 1921 e tinha apenas 20 anos quando chegou na ilha em Julho de 1942. Ele tinha feito seu primeiro vôo aos 9 anos, como recompensa de ter executado um pequeno trabalho num aeroclube da sua cidade natal. Economizou dinheiro na infância/adolescência para poder pagar por aulas de pilotagem, feito que conseguiu realizar aos 14. Conseguiu sua licença de vôo pouco antes do início da SGM, e correu se alistar na Força Aérea Real do Canadá (RCAF), que não o aceitou pois ele ainda não havia concluído o ensino secundário.   Quase desesperado para entrar na luta, o joven Beurling passou por uma série de aventuras tentando até mesmo ingressar na Força Aérea Nacionalista de Chiang Kai-Shek ou na Força Aérea Finlandesa, ambas as tentativas acabaram sem sucesso. Finalmente, ele conseguiu ir para à Inglaterra a bordo de um navio mercante, fazendo parte de um comboio que durante a travessia do Atlântico foi atacado por uma matilha de U-Boats alemães e vários navios foram torpedeados. Beurling chegou são e salvo ao destino e correu ao posto de alistamento da RAF mais próximo, mas não foi aceito pois ele simplesmente esqueceu no Canadá sua Certidão de Nascimento! Beurling então retornou ao Canadá no mesmo navio que o trouxe, novamente sob risco de ataque dos submarinos alemães e depois, volta á Inglaterra, desta vez com todos os documentos necessários sendo finalmente aceito na RAF. Após um período de treinamento, em Maio de 1942 é enviado ao Esquadrão Nº 242 da RAF, uma unidade composta basicamente de pilotos canadenses, onde logo que entra em combate já consegue sua primeira vitória - um FW190 sobre Calais.    

Beurling demonstrava ter uma personalidade um tanto quanto reclusa, o que o desqualificava para trabalho em equipe e tinha tendência para vôos solo, fatos que o levaram a ser transferido para Malta. A ilha que em 1942 estava no meio do 'olho do furacão' e desde o segundo semestre de 1941 espalhava terror e destruição à navegação mercante do Eixo, sendo o verdadeiro 'espinho entalado na garganta' das rotas de abastecimento do Afrika Korps de Rommel, com mais de 60% dos navios de carga  destinados a suprir os alemães sendo afundados devido á aviação baseada em Malta. Tais números enfureceram o Führer a ponto deste ter ordenado que a ilha fosse atacada por ar sem perdão. Ao final da primavera de 1942, a ilha estava á beira da fome, com os comboios aliados de abastecimento sendo continuamente atacados pela aviação do Eixo. O punhado de aviões de caça aliados e seus pilotos sendo duramente exigidos estavam á beira da exaustão no combate contra a Luftwaffe. Em Junho, o Porta-Aviões HMS Eagle foi ordenado transportar pilotos e aviões para reforçar as defesas de Malta a qualquer custo. Um dos pilotos á bordo era "Screwball" Beurling, que assim que chegou já voava em missões "numa guerra que duravam 24 hs por dia, com 'Spits' e Me-109's por todo céu, e de vez em quando algum pobre diabo despencava em chamas num parafuso mortal". 'Screwball' estava em casa. Designado para o Esquadrão nº 249, cada vez que subia ele deixava um rastro de abates no céu. Sua tática favorita era desprezar a cortina defensiva de caças e cair direto nos bombardeiros Italianos no centro da formação, literalmente assustando estes a ponto de jogarem suas bombas no mar, antes de chegarem nos alvos. Depois ele cuidava dos caças da escolta. Nesta época, a formação padrão dos caças da RAF era de quatro aparelhos (dois líderes e dois alas), que podia ser facilmente 'quebrada' em duas formações de dois aviões. Mas Beurling pensava que voar com um ala era 'desnecessário', e frequentemente desobedecia as ordens, preferindo atacar solo. Dada a escassez de pilotos para defender Malta e os resultados de tal indisciplina ('Screwball' e seu Spitfire estavam abatendo aviões alemães e italianos quase que diariamente), não havia tempo nem motivos para sanções ou punições. Ele tinha um talento nato para estimar a deflecção de tiro, muito mais que seu compatriota predecessor da Primeira Guerra  - o canadense Billy Bishop, que obteve nada menos que 72 vitórias neste conflito e recebeu a Victoria Cross. Após cada surtida, Beurling aterrissava e fazia seu relatório de forma detalhada, informando até com certa exatidão quantos projéteis havia consumido e quantos acertara os alvos, sendo que suas vítimas quando examinadas mostravam que ele dificilmente errava.  

Dia após dia, durante o verão de 1942 os 'Spits' estavam no ar para encarar seus inimigos e lá estava 'Buzz Screwball' com seu talento e sorte natos. Até que no dia 14 de Outubro aconteceu o impensável: num vilento 'dogfight' 18 mil pés sobre a ilha, seu avião foi atingido. Perfurado de balas e shrapnel, seu Spitfire iniciou uma espiral descontrolada. Incapaz de se soltar apenas quando estava a uns 1000 pés é que Beurling consegue saltar com seu para-quedas abrindo-se a poucas centenas de metros acima do mar, o que foi outro golpe de sorte, pois da altura que se abriu ele dificilmente sobreviveria se caísse em terra. Resgatado por uma lancha, ele sangrava abundantemente dos ferimentos recebidos, terminou o dia numa mesa de cirurgia. Pela gravidade dos mesmos era certo que iria se recuperar em casa. Estaria a Guerra acabada para o Falcão Maltês? Ainda não.  

Em Novembro, com sua perna ainda engessada, entrou num bombardeiro B-24 para uma viagem a Gibraltar, primeira parada no seu retorno á Inglaterra. Mesmo nas condições que ele estava, seu 'sexto sentido' não o abandonou. Conforme o avião taxiava pela pista para a decolagem, Beurling sabia que algo estava errado. Ele se acomodou perto da saída, e quando levantou vôo uma falha no motor fez o aparelho cair na água. "Buzz" conseguiu sobreviver a mais essa 'peça' do destino. Enviado de volta ao Canadá, com 29 abates creditados e muitas medalhas no peito, seu país o recebeu de braços abertos. Durante seu período de recuperação dos ferimentos, concedeu inúmeras entrevistas e palestras, sendo promovido a tenente. Mas por alguma razão ele resistia á promoção, pois durante algum tempo ainda envergou o seu uniforme de sargento e a ter suas refeições com a soldadesca, até ser ordenado utilizar o uniforme correto e a frequentar a cantina dos oficiais.   No verão de 1943, já recuperado, retorna á Inglaterra onde atua como instrutor e ajuda a desenvolver táticas de dogfighting, na Escola de Treinamento da RAF, juntamente com o ás sul-africano A. "Sailor" Malan (35 vitórias na SGM). Beurling realizou um excelente trabalho, mas sua resistência a qualquer tipo de autoridade/hierarquia, sua 'independência', aliada á vontade de retornar ao combate não o fizeram ficar como instrutor por muito tempo. Finalmente, em Set. 1943 ele foi transferido de volta para a RCAF na esperança de voltar a fazer o que ele mais gostava: voar e abater aviões inimigos. O que não demorou a acontecer, pois no dia 24 abate um FW190. No final de 1943 seu score já era de 31 abates confirmados, mas seu gênio forte e suas constantes insubordinações voltaram a deixá-lo em maus lençóis. Ele foi 'convidado' a pedir baixa da RCAF. A Guerra estava acabada para Beurling e ele retornou ao Canada. Teve problemas até para se ajustar á vida civil, tentando se alistar novamente para servir na China, sendo novamente recusado. Beurling dizia que "Combater é a única coisa que sei fazer bem. Daria dez anos de minha vida por mais seis meses que vivi em Malta". Infelizmente, ele não teria dez anos.

Em 1948, a incipiente Força Aérea de Israel iniciava a luta para estabelecer o Estado Judeu na Palestina, numa luta de vida ou morte com seus vizinhos árabes e estava recrutando pilotos onde quer que os encontrasse. 'Screwball', evidente não poderia ficar de fora desta. Ele e mais três pilotos alemães da antiga Luftwaffe se registraram para lutar por Israel. Quando se preparavam para voar de Roma com destino ao Oriente Médio á bordo de um avião Norseman, o avião 'estola' na decolagem e cai matando todos os ocupantes á bordo. O Falcão Maltês morria aos 26 anos de idade. Algumas das condecorações recebidas por Beurling: Distinguisehd Services Order, Distinguished Flying Cross, Distinguished Flying Medal com Barra da RCAF.
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