ARTIGOS

Guerra no Deserto17/06/2014por Erwin Rommel  

A guerra no deserto é composta de imperativos dos quais grandes forças armadas não podem se desviar. A ignorância a respeito desses fatores, ou mesmo sua simples subestimação, leva a fracassos retumbantes, e o período de lutas no Norte da África não apresentou qualquer exceção. A desimportância da posse territorial por si mesma – excetuando o controle de seus pontos-chave – talvez seja uma das mais significativas características da luta no deserto. Dela deriva a extrema importância do elemento “mobilidade” – são precisos longos deslocamentos para que se atinja o próximo objetivo de valor – , à luz do qual passam a ter importância vital vários elementos de logística. A presença alemã no Norte da África, iniciada oficialmente em fevereiro de 1941, teve seus resultados determinados claramente pela dificuldade encontrada em se preencher os requisitos básicos de abastecimento de uma força do porte do Deutsches Afrika Korps. os sucessos e insucessos de seus oponentes da Comunidade Britânica também sofreram muito essa influência, apesar de o crédito por suas derrotas também poder ser em grande parte imputado aos arroubos de genialidade do comando alemão, e de uma certa inexperiência/ingenuidade inglesa nos estágios iniciais desse teatro de operações.

Basicamente composto de avanços e retrocessos no sentido leste-oeste, o teatro africano da Segunda Guerra Mundial passou a contar com a participação alemã mais precisamente a partir de 14 de fevereiro de 1941, data do desembarque e Trípoli (hoje, parte da Líbia)do 3º Batalhão de Reconhecimento, parte da 5ª Divisão Leve. Nesse mesmo dia, antes que essas tropas pudessem entrar em ação, já se fazia sentir a influência da personalidade que mais se destacou nesse período da guerra, a do futuro Marechal-de-Campo Erwin Rommel: cumprindo ordens suas, os efetivos italianos retomaram a ofensiva para leste, em direção às forças britânicas. Estudioso e praticante da guerra de movimento desde a Primeira Guerra Mundial, Rommel envia suas forças ao front assim que elas desembarcam em solo líbio, fazendo com que a velocidade de transporte de tropas até a África e a capacidade de desembarque de seus portos ditem o ritmo com o qual a Alemanha se lança ao ataque. A capacidade de resistência das forças britânicas também se relacionava bastante com aspectos logísticos: distante milhares de quilômetros de suas bases no Egito, enfrentavam dificuldades consideráveis para se manterem abastecidas em sua frente. À medida em que os efetivos alemães foram aumentando em quantidade (em 11 de março, desembarcaram os 120 tanques da 5ª Divisão Leve – comandada pelo General Streich – , metade dos quais tanques leves, e a outra metade composta de Panzer III e IV) a pressão sobre os ingleses cresceu. de forma que a resistência oferecida por eles aos primeiros ataques não pôde ser repetida nos seguintes. Após a queda de Mersa El Brega – o segundo objetivo militar do Eixo, logo atrás do ponto máximo ao qual havia se estendido o avanço britânico contra os italianos, El Agheila – a frente britânica se desorganizou completamente, se transformando a guerra no deserto em uma corrida desenfreada de ingleses em busca de posições mais sustentáveis, e de alemães e italianos na caça de seus oponentes. A desordem desses dias, entretanto, era imensa, sendo freqüentes as tropas que se perdiam no deserto.

A 31 de março a 5 Divisão Leve avançou sobre Mersa El Brega. A resposta imediata dos britânicos foi aguerrida. Rommel pessoalmente, enfim de volta às suas ações favoritas, encontrou uma forma de flanquear, atravessando as dunas ao norte da estrada costeira, e já pela tarde havia contornado com um batalhão de metralhadores e tomado o cânion de Mersa El Brega. Muitos veículos britânicos foram capturados, e no dia seguinte relatórios da observação aérea mostravam uma retirada britânica generalizada. Essa era, como Rommel a descreveu depois, uma chance à qual ele não podia resistir, e a 2 de abril ele lançou todas as suas forças disponíveis na aventura que resultou, em muito poucos dias, na expulsão dos britânicos da Cirenaica. O que havia começado como uma preliminar, um teste, havia se tornado uma grande ofensiva, assim como um ato de desobediência implícita que Rommel pretendia justificar pelo próprio sucesso. (Fraser, 1993, p. 229, trad. nossa) É certo que os britânicos tinham ordens do Comandante-em-Chefe do Oriente Médio, General Wavell, de “recuarem lutando” caso enfrentassem fortes ataques alemães, mas a forma hesitante com que essas ordens foram tratadas e executadas acabou os levando ao colapso total da Frente (fraser, 1993). A 14 de abril os alemães já se lançavam sobre o porto de Tobruk, 520 km além do ponto inicial do avanço. Repelido o primeiro ataque – no qual Rommel tentou se aproveitar da desorganização dos adversários em fuga – , outro é feito a 30 de abril, também sem sucesso. A importância de Tobruk residia principalmente em seu porto, que permitiria receber suprimentos e um ponto muito mais próximo da frente de combate; as forças ítalo-alemãs no Norte da África consumiam a essa época algo em torno de 70 mil toneladas de suprimentos mensais, algo muito além da capacidade de desembarque do – cada vez mais distante – porto de Trípoli. Tobruk é cercada e o avanço do Eixo prossegue em direção leste – dando origem a um sítio de 242 dias, que configurou um dos episódios mais heróicos da Segunda Guerra Mundial, e que se deve creditar quase totalmente às tropas australianas – até a localidade de Sollum, já dentro do Egito.

Encerra-se assim a primeira fase do avanço alemão e italiano, deixando configurada uma situação oposta à do início: agora era a vez de os alemães terem dificuldades em abastecer suas tropas no front, tendo que atravessar centenas de quilômetros pelo deserto (que só contava com uma boa estrada, a Via Balbia, costeira, que passava por Tobruk, e que por isso teve de receber um desvio longo e penosos para os comboios), gastando precioso combustível e freqüentemente sofrendo ataques de sabotadores britânicos. As grandes distâncias também reduziam consideravelmente a efetividade da cobertura aérea proporcionada pela Luftwaffe, ao mesmo tempo em que aumentava a efetividade da Royal Air Force britânica, que agora lutava próxima às suas bases. 

Ainda no terreno da logística, deve-se salientar que o transporte de suprimentos através do Mediterrâneo era de inteira responsabilidade italiana, cuja marinha vinha sendo cada vez mais subjugada pelo domínio naval britânico. O papel da ilha de Malta, de posse inglesa, foi crucial para fazer com que nem todos os suprimentos que deixassem os portos italianos chegassem à África; houve períodos nos quais 70% das cargas despachadas se perdiam pelo caminho, fruto de bloqueio naval inglês imposto sobretudo a partir de Malta. A 15 de maio, os britânicos contra-atacam na área da fronteira egípcia, sendo repelidos e a situação anterior reestabelecida em 29 de maio. Ainda tentando obter frutos de suas vantagens logísticas, os ingleses – agora reforçados por 240 novos tanques e por uma nova divisão, a 4ª Divisão Indiana – voltam a atacar em 15 de junho, em uma operação planejada pelo General Wavell, mas executada pelo General Beresford-Peirse, uma vez que o Comandante-em-Chefe havia escolhido a época de sua própria ofensiva para uma viagem a Londres. Não são poucos os autores que destacam esse tipo de atitude britânica como grande responsável pelas humilhantes derrotas sofridas frente aos alemães no deserto; ao mesmo tempo, Rommel havia se dedicado pessoalmente ao acerto de cada detalhe de seus planos defensivos, sendo por muitas vezes criticado pela proximidade que mantinha dos combates, colocando em risco sua própria vida. As atitudes dos comandantes são muito facilmente percebidas por seus soldados, funcionando como potentes motivadores ou desmotivadores. Nesse ponto, portanto, a vantagem era toda alemã. Combinando a essa motivação a altíssima efetividade das armas anti-taque do Eixo, temos como resultado o fato de que, na manhã de 16 de junho, o General Beresford Peirse contava com apenas 39 dos mais de 200 tanques que havia lançado à batalha um dia antes. A contra-ofensiva de Rommel, lançada em 16 de junho (com extrema mobilidade e com forças numericamente muito inferiores), consegue retomar as localidades perdidas e causar imensa destruição nas fileiras inglesas, terminando em 18 de junho. O poderio alemão, entretanto, havia atingido seu limite. Uma pequena ofensiva exploratória, em setembro, encontrou forte resistência britânica, e a conclusão de que mais avanços seriam impossíveis ficou patente.

Rommel elege Tobruk como seu objetivo principal, etapa indispensável para que se pudesse começar a receber diretamente por mar os suprimentos sem os quais não se poderia ais avançar, mas antes que ele pudesse agir, é surpreendido pela “Operação Cruzado”, uma gigantesca ofensiva britânica que havia sido mantida totalmente em segredo. A demora de Rommel em reagir a esses ataques foi fatal (ele acreditava se tratar de mera ação de despistamento), assim como os ingleses e seus aliados se mostraram muito mais eficazes do que antes haviam sido. Apesar de várias tentativas de contra-ataques terem sido parcialmente bem-sucedidas, as perdas do Eixo haviam sido por demais debilitantes, e a situação era, um seu todo, insustentável. Após ásperas discussões com o Commando Supremo, a retirada pe aprovada a 20 de dezembro, e prossegue de forma agressiva: (...) Uma vez tomada a decisão ele [Rommel] conduziu a retirada com sua usual velocidade e maestria. Os alemães em movimento foram atacados de forma descoordenada pelos britânicos, mas na véspera de natal Rommel evacuou Bengasi. Após o Afrika Korps ter contra-atacado em Agedabia uma fraca tentativa britânica de envolvimento, Rommel terminou o ano em uma posição mais sustentável. Na luta em Agedabia ele havia destruído sessenta tanques britânicos e só havia perdido quatorze, sua rede de suprimentos foi grandemente melhorada pelo encurtamento de suas linhas de comunicação, ele havia recebido substancial reforço de tanques (...), e ele havia reconhecido que, como suas próprias forças, as do inimigo também estavam exaustas. (Fraser, 1993, p. 292-3, trad. nossa) As forças do Eixo estavam novamente nas posições a partir das quais haviam iniciado seus ataques de março. Da mesma forma, as condições logísticas originais haviam se reestabelecido, mais uma vez favoráveis aos alemães e italianos. Após quase um ano de terríveis enfrentamentos em uma das regiões mais inóspitas da Terra, tudo estava de volta em seus lugares a ponto de começar novamente...

A conformação de forças e possibilidades que caracterizava a guerra no deserto norte-africano em janeiro de 1942 era totalmente favorável ao Eixo. Além da já citada proximidade de suas posições em relação aos locais onde eram desembarcados seus suprimentos – tais considerações logísticas foram os fatores mais determinantes dessa campanha – os alemães ainda haviam recebido um considerável reforço em tanques e carros blindados (54 tanques e 20 carros blindados em 5 de janeiro), tinham o moral alto graças ao sucesso da retirada feita recentemente, e principalmente, sabiam que os ingleses não esperavam qualquer reação tão cedo. A certeza britânica era tal, que ele insclusive se preparavam – sem pressa – para uma nova “e definitiva” ofensiva. O comando alemão obtivera acesso não apenas às intenções britânicas para o futuro, como também aos números completos de suas forças prontas para combate no front de Mersa El Brega (com isso, soube que contava também com uma inédita superioridade numérica) graças às indiscrições de um certo Major Fellers, do Exército Norte-Americano. Destacado como adido junto ao Quartel-General Britânico no Cairo, Fellers tinha acesso a uma grande quantidade de dados sensíveis, que transmitia rapidamente a Washington; ocorre que o serviço de inteligência italiano decifra o código diplomático norte-americano, o “Código Negro” usado por Fellers, de forma que coube a esse Aliado sinalizar, indiretamente, ao então General Rommel que era hora de voltar a atacar.

Interessante notar também que a esse estágio, apesar de trem obtido sucesso em empurrar os alemães e italianos de volta ao seu ponto de partida, os ingleses e seus aliados ainda não haviam corrigido totalmente as falhas graves que eram cometidas por seu comando. Após a ofensiva fracassada de 15 de junho de 1941 (aquela que durou apenas um dia, e que havia recebido o nome de “Battleaxe”, algo como “machado de guerra”), o General Wavell havia sido substituído no Comando do Oriente Médio pelo General Auchinlek, que por sua vez tinha o General Cunningham como subordinado, ao comando do 8º Exército Britânico. Foram esses dois últimos, portanto, os responsáveis pelo início da “Operação Cruzado”, porém o momento final dessa, no qual os alemães e italianos voltam a Mersa El Brega, não teria ocorrido sem uma mudança no comando do 8º Exército Britânico: o General Cunningham, impressionado com a violência com a qual as tropas inimigas recuavam, chega a supor uma vitória do Eixo, cancelando a operação e chamando de volta suas tropas ao Egito; a intervenção rápida de Auchinlek, que substituiu Cunningham pelo General Ritchie no comando do 8º Exército, é que salva a ofensiva e a leva ao seu desfecho vitorioso. Tal como dito na primeira parte dessa descrição da campanha do deserto norte-africano, essas atitudes do alto comando britânico não podem deixar de ser levadas em conta, pois tiveram grande influência nos campos de batalha. Em 21 de janeiro de 1942 os alemães voltam a avançar, em uma tentativa inicial de envolvimento das tropas de frente britânicas (fracas em seus flancos, pois várias unidades haviam sido mandadas de volta à retaguarda para treinamento, e também porque era grande a quantidade de tropas novatas ao deserto nesses locais, armadas com tanques e carros blindados em péssimas condições de uso – essas informações foram transmitidas pelos britânicos sem ao menos terem sido codificadas!) que só obtém sucesso parcial. A simples ocorrência do ataque, entretanto, é suficiente para espalhar pânico entre os ingleses, cuja frente desmorona, e que partem em disparada em direção leste. Descumprindo abertamente as ordens de seus superiores italianos (por se tratar de colônia italiana, o teatro de operações da Líbia – composta da Cirenaica e da Tripolitânia – era formalmente responsabilidade do Commando Supremo italiano), Rommel decide explorar a desordem causada em seus adversários e continua pressionando em grande velocidade. Consta que, em meio á confusão que se estabeleceu no deserto, o próprio General Rommel chegou a fazer prisioneiros, quando seu carro de comando deu de encontro com algumas tropas inglesas, aparentemente perdidas.

A 6 de fevereiro, os alemães e italianos chega a Gazala (pouco antes de Tobruk), ponto no qual os Aliados conseguiram organizar suas defesas. De fevereiro a fins de maio a frente permanece sendo Gazala, onde os ingleses estruturavam cada vez mais um sistema defensivo em linha que se estendia em direção sul, a partir da costa, por cinqüenta quilômetros. Tentavam com isso evitar os tradicionais movimentos pelos flancos feitos pelos alemães e italianos, em grande velocidade, que já haviam causado vários dissabores. A situação dos transportes marítimos através do Mediterrâneo havia piorado bastante, graças à ação das forças Aliadas baseadas sobretudo em Malta. Rommel aproveita o período de relativa tranqüilidade para voar à Alemanha e pedir, pessoalmente a Hitler, mais apoio para sua campanha africana (assim como a concretização da invasão de malta, a chamada “Operação Hércules”); de todo o que lhe foi prometido, ele só recebe a intensificação dos bombardeios aéreos a Malta, o que praticamente faz cessar a atividade hostil a partir da ilha. Aproveitando-se dessa melhora em sua situação, Rommel decide voltar a atacar, especialmente porque ele sabia que os ingleses – novamente em maior número – estavam armando sua própria ofensiva. O plano alemão era o de usar parte de suas forças em um ataque frontal contra a linha de defesa britânica, junto à costa, em Gazala, onde os campos minados tinham cerca de meio milhão de minas instaladas (havia à disposição do Eixo um grande número de tropas de infantaria italianas, muito pouco móveis e por isso de pouca utilidade em ações rápidas, mas excelentes para esse tipo de ataque a posições estáticas); ao mesmo tempo, suas forças blindadas contornariam a extremidade sul da linha defensiva britânica, em Bir Hacheim, e uma vez contornado esse obstáculo, se lançariam sobre as costas das tropas Aliadas que tentavam repelir seu ataque frontal, em Gazala. O objetivo mais importante era o de completar esse cerco sem permitir que os britânicos recuassem até Tobruk (bastante próxima) e armassem outro cerco como o do ano anterior, de maneira que as tropas atacantes pudessem se virar, imediatamente após a vitória, contra Tobruk e investir contra essa cidade.

Havia grandes variações na qualidade dos tanques dos dois lados. Os britânicos tinham duas brigadas de tanques do Exército, destinadas à cooperação com a infantaria e equipadas com uma mistura de tanques Valentine e Matilda (276 no total), tipos bem conhecidos dos alemães. Em suas duas divisões blindadas – 1ª e 7ª, totalizando três brigadas blindadas – os britânicos tinham 573 tanques, dos quais 167 eram os Grant americanos, novos no deserto. A unidade de inteligência do Panzerarmee havia tomado ciência da chegada dos Grants poucos dias antes de Rommel iniciar seus ataques; o Grant tinha forte blindagem frontal e um canhão de 75 milímetros que, naquele momento, era mais potente do que qualquer outra arma instalada em tanques no deserto, e causou uma desagradável surpresa às tropas de Rommel quando essas o encontraram. O canhão do Grant, entretanto, era montado sobre uma estrutura fixa, ao invés de sobre uma torre giratória; essa desvantagem foi logo percebida por seus usuários, mas não era tão aparente para aqueles que estavam sob seu fogo. Rommel tinha 228 tanques leves italianos de tipo cruzador, geralmente com armamento inferior aos modelos inimigos. Ele tinha, no Afrika Korps, 242 Panzer III, dos quais dezenove eram do último modelo, com canhões longos de 50 milímetros; quarenta antigos Mark IV; e cinqüenta tanques leves. Na reserva ele tinha menos de oitenta tanques para reposição, e ele sabia que a capacidade de reposição dos britânicos era muito maior que a sua. Ele também sabia que os britânicos haviam estendido uma ferrovia de Mersa Matruh – no Egito – até Belhamed – pouco a leste de Tobruk. No geral, ele sabia que enfrentava uma quantidade maior de tanques, que como os seus, eram de qualidades diversas, mas ele confiava em seus canhões anti-tanque, ele confiava no treinamento de combinação tática de armas do Panzerarmee, e ele confiava em suas própria capacidade pessoal. No ar, a Luftwaffe tinha a superioridade em aviões em serviço, além da vantagem qualitativa do Messerschmidt 109F.

O plano de Rommel deu certo. A forte resistência dos britânicos, entretanto, fez com que o avanço alemão fosse muito mais lento, e em certos momentos iniciais, chegasse próximo de fracassar. Apesar de saberem que os alemães atacariam, os ingleses esperaram um ataque frontal apenas, mesmo conhecendo o tipo de luta de Rommel e a força de suas linhas de defesa. A força móvel ítalo-alemã contornou a linha inglesa pelo sul e subiu; não conseguindo vencer a resistência apresentada pelas tropas concentradas em pequenas localidades, eles contornavam tais obstáculos e prosseguiam rumo norte, em direção ao litoral, buscando o envolvimento. Suprir tais unidades avançadas era muito difícil, pois essas recebiam fogo inglês por todos os lados, e as rotas de suprimento margeavam pontos fortes Aliados ainda não subjugados. Algumas unidades alemãs simplesmente pararam de combater, por falta de combustível e munição, não sendo feitos prisioneiras apenas porque Rommel pessoalmente liderou, desde a retaguarda, uma coluna de abastecimento em meio a território inimigo. O envolvimento das forças inglesas se conclui cerca de duas semanas após o início da ofensiva (27 de maio de 1942), tendo os alemães e italianos que lidar com um descoordenado contra-ataque (repelido), e passando esses depois a reduzir os pontos de resistência restantes. Bir Hacheim, a extremidade sul da linha de defesa britânica, resistiu totalmente cercada por duas semanas, ocupada que era por tropas “francesas livres”; a “Batalha de Gazala”, como ficou conhecida essa ofensiva alemã, foi provavelmente o episódio da guerra no deserto que mais forneceu exemplos de bravura, de ambas as partes. A 20 de junho de completa o primeiro estágio da ofensiva alemã ( o envolvimento das forças britânicas), no dia seguinte o segundo estágio é cumprido, cai Tobruk. A cidade que havia resistido por 242 dias de cerco no ano anterior, fazendo a glória das forças australianas, dessa vez não se sustentou por sequer um dia, defendida principalmente por forças sul-africanas e polonesas (além das inglesas, sempre presentes); destaca-se nesse acontecimento que, do contrário de 1941, em 1942 Tobruk se deixou contaminar pela desorganização que tomou conta das forças Aliadas quando começou a se tornar mais nítida a vitória do Eixo. O próprio Alto Comando Britânico demorou a ter opinião formada a respeito do quê deveria ser feito de Tobruk, se defendida ou evacuada; a decisão final acabou sendo feita pelos alemães. O avanço do Eixo não parou em Tobruk, continuou pressionando os Aliados que se retiravam a toda velocidade de volta ao Egito. A posição de Mersa Matruh, já bastante dentro de território egípcio, foi alcançada e tomada facilmente em 28 de junho, e em primeiro de julho, tropas alemãs atacavam a localidade de El Alamein, pequeno posto ferroviário a apenas 64 quilômetros de Alexandria.

A situação britânica havia deteriorado tanto que Auchinlek havia dispensado Ritchie, e agora acumulava a função dele; no Cairo, o Quartel General Britânico começou a evacuar vários de seus departamentos mais sensíveis para a Palestina, assim como a proceder à queima de milhares de documentos de importância vital (esse episódio foi sarcasticamente apelidado como “a Quarta Feira de Cinzas”). As forças alemãs e italianas, entretanto, não avançariam mais. El Alamein constituía uma exceção no cenário do deserto norte-africano, pois não era propícia à luta extremamente móvel na qual Rommel tinha se mostrado imbatível até então. A região apresentava um relativamente estreito corredor de passagem entre o mar (ao norte) e a Depressão de Qattara (ao sul, intransponível para veículos militares de qualquer tipo), sendo também que mesmo essa parte por onde se podia trafegar tinha seus impedimentos, na forma de uma seqüência de desfiladeiros que facilitavam absurdamente a tarefa das tropas que se defendiam. Ela deveria ser ganha, portanto, em uma batalha de posições, de custosos avanços frontais e de entrincheiramentos; enfim, toda uma situação que exigia grandes quantidades de homens, e sobretudo de farto abastecimento. Nessas condições, a vantagem dos ingleses era enorme, pois estavam extremamente próximos de suas bases, enquanto os alemães tinham a mais longa linha de abastecimento em toda a campanha; Malta havia voltado a incomodar terrivelmente os comboios de abastecimento que cruzavam o Mediterrâneo, e a RAF possuía ampla superioridade aérea (além das dificuldades logísticas que afetavam a Luftwaffe, seu pessoal estava completamente esgotado após a ofensiva da “Batalha de Gazala”). Durante todo o mês de julho, as tropas do Eixo forçam passagem como forma de evitar que se consolidassem as posições Aliadas na região. Não obtêm sucesso. Em fins de agosto, tentam novamente – dessa vez um ataque frontal – obtendo pequena penetração, sobrendo pesadas baixas e, por fim, sendo obrigadas a retornarem às linhas anteriores. A exaustão das forças do Eixo na África era total – inclusive Rommel, recém-nomeado Marechal-de-Campo após a tomada de Tobruk, volta à Europa em 19 de setembro, muito debilitado fisicamente – porém seus adversários não atacariam de imediato: sob o comando do General Bernard Montgomery desde 15 de agosto, a ordem passara a ser a de ser concentrar recursos ao máximo, e de se lançar ao ataque apenas em condições de superioridade exacerbada. A intransponibilidade das defesas de El Alamein, acima de tudo, permitiam a Montgomery adotar esse estilo de batalha. Aliado de Montgomery, o tempo era o maior adversário de Rommel, que buscava na Europa desesperadamente apoio para suas tropas do deserto; acostumadas a tais pedidos de Rommel, assim como com as vitórias que esse obtinha mesmo sem receber o que havia pedido, as altas cúpulas militares alemã e italiana pouco fizeram por Rommel. O que se seguiu foi muito rápido, a desproporção entre forças e condições de luta era por demais absurda para deixar que qualquer outro fator prevalecesse; e mesmo se assim não fosse, a situação do Eixo ainda seria desesperadora, uma vez que finalmente as forças britânicas haviam assimilado e aprendido com os erros cometidos anteriormente, e que em seu comando estava personagem capaz de fazer frente á genialidade de Rommel, o já citado Montgomery. A 23 de outubro de 1942, os Aliados iniciam seu avanço a partir de El Alamein – posição que vinha sendo fortificada pelos alemães, desde que perderam a iniciativa – enquanto Rommel ainda estava na Europa; de volta à África, ele recebe a 3 de novembro a típica proibição de Hitler de fazer qualquer recuo, que é prontamente descumprida no dia seguinte. Na esperança de preservar suas forças, Rommel inicia uma série de recuos rumo oeste, em mais um movimento típico desse teatro de operações. O destino do Eixo em solo africano é selado em 8 de novembro de 1942: forças americanas e britânicas desembarcam no extremo oeste do continente, em território colonial francês, abrindo uma segunda frente de combate onde já a primeira parecia insustentável. As autoridades coloniais francesas, assim como suas tropas, aderem aos Aliados recém-desembarcados. Frente à piora constante da situação alemã, Hitler urge reforços através de uma ponte aérea e da criação apressada de uma nova força que, baseada a oeste, tem por função reter os avanços Aliados sobre as costas da forma de Rommel, que evacua a Líbia e tem sua área de atuação restrita à Tunísia (de terreno acidentado e por isso de defesa mais fácil). A Tunísia é tudo o que resta ao Eixo na África em princípios de 1943, defendida que era por Rommel a leste (as chuvas torrenciais haviam feito Montgomery deter-se em Mareth – junto à fronteira tunisina - , uma posição que Rommel tentou reforçar, mas que sabia ser insustentável) e pelo Coronel-General von Arnim, comandante do 5º Exército Panzer, a oeste. Rommel estabelece seu Quartel-General na Tunísia a 26 de janeiro de 1943, e a inatividade por parte do 8º Exército Britânico que o perseguia permite-lhe unir esforços com von Arnim em um contra-ataque contra os americanos e britânicos da frente oeste. Aí ocorreu o último lampejo de brilhantismo das forças do Eixo na África: as operações que duraram de 14 a 21 de fevereiro de 1943, das quais se destaca a batalha pelo passo de Kasserine. Fugaz – e devida sobretudo à fraqueza das tropas francesas que cobriam os flancos e à espantosa ingenuidade dos norte-americanos –, tal batalha é por muitos chamada “a vitória inútil” (Rutherford, 1977), pois seus vencedores não tinham condições de sustentar qualquer dos objetivos conquistados. O que se seguiu foi a aniquilação, e só. Rommel, terrivelmente doente e esgotado, deixa a África em 9 de março de 1943. Em 10 de maio suas forças se rendem, e 238 mil homens seguem para cativeiro (100 mil deles alemães, incluindo von Arnim), configurando uma perda maior do que a de Stalingrado. A 13 de maio cessam de combater os últimos bolsões de resistência, e a seguinte mensagem é recebida na Alemanha: O Deutsches Afrika Korps lutou até o ponto em que não mais podia lutar. Ele ressurgirá. Heia Safari!
(Fraser, 1993, p. 415, trad. nossa).  

Referências Bibliográficas:
FRASER, David. Knight´s cross: a life of Field Marshall Erwin Rommel Nova York: Harper Collins, 1993. RUTHERFORD, Ward. Kasserine: vitória inútil. Rio de Janeiro: Renes, 1977.
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