ARTIGOS

O Cruzador-Auxiliar alemão `Kormoran`17/06/2014por Erich Raeder  

O Kormoran fora construído em Kiel, em 1938, e destinado ao tráfego com a América, sob o nome de Steiermark. Deslocava 9.400 toneladas e media 157 metros de proa a popa. Os motores diesel de que era provido, proporcionava-lhe uma potência de 16.000 HP e uma velocidade de 18 nós. Tecnicamente, era um barco moderníssimo. Antes da eclosão da guerra, a marinha alemã decidira transformar seis velozes barcos mercantes em naves de guerra. Essas seis unidades constituiriam a primeira série de navios corsários destinados a interceptar a navegação aliada. Uma segunda série foi feita, mais tarde, com a maior presteza. Desta última fazia parte o Steiermark, rebatizado como Kormoran. E este não era o seu único nome. Segundo a denominação em código do comando alemão, o barco era conhecido como Schiff 41 e, também, HSK 8. Os ingleses, para distingui-lo dos demais corsários, o chamavam Raider G.

A transformação anteriormente citada não consistia somente em instalar a bordo alguns canhões e tubos lança-torpedos; era necessário ainda adaptar o navio às novas condições das atividades que desempenharia. De fato, o barco teria que passar muitos meses longe de suas bases, sem possibilidades de receber abastecimentos nem combustível. Por outro lado, deveria estar em condições de dissimular o seu aspeto e poder ser transformado, rapidamente, em outro navio. Para tal fim, transportariam chaminés, mastros e estruturas de armação fácil, capazes de fazer variar o seu aspeto exterior. No Kormoran foram montados seis canhões de 150 mm, quatro metralhadoras antiaéreas de 37 e outras tantas de 20, além de quatro lança-torpedos de 533 mm. Embarcaram-se, também, dois hidraviões de reconhecimento, uma lancha-torpedeira e 420 minas. A autonomia da nave era de 120.000 quilômetros, o que lhe permitia dar três vezes a volta ao mundo a uma velocidade de 10 nós.

A tripulação, cuidadosamente selecionada, ignoraria, até chegar ao alto mar, a verdadeira identidade e missão do navio. Somente o capitão tinha conhecimento das ordens.

Numa nevoenta noite de início de dezembro de 1940, o Kormoran abandonou Gotenhaven (a antiga cidade polonesa de Gdynia) e enfrentou mar aberto. O navio partiu apresentando o aspecto do cargueiro soviético Molotov. O falso Molotov navegou rumo ao norte e a 13 de dezembro atravessou o estreito que separa a Islândia da Groelândia, seguindo a rota cumprida, cinco semanas antes, pelo encouraçado Admiral Scheer. Depois, rumou para o sul e se dirigiu para o oceano Atlântico.
A 6 de janeiro de 1941 o Kormoran fez sua primeiro vítima: o navio-transporte grego Antonis, nas proximidades das Ilhas de Cabo Verde. Foi a prova de fogo para o HSK 8 e tudo se desenrolou perfeitamente. Doze dias mais tarde, o Kormoran encontrou em seu caminho o petroleiro britânico British Union, afundando-o nas águas do Atlântico central. O barco aliado ainda conseguiu emitir pedidos de socorro, porém, o Kormoran, escapou habilmente à perseguição. O cruzador auxiliar britânico Arawa, que, na escuridão da noite, chegou a divisar os clarões dos canhões do Kormoran, quando afundava sua segunda presa, lançou-se em seu encalço, sem resultado positivo.

Em seguida, já nas proximidades da costa do Brasil, o Kormoran realizou uma dupla caçada afortunada: o petroleiro Afric Star e o navio-transporte Eurylochus, que conduzia aviões para a frente de combate da África. Também estes dois barcos conseguiram emitir pedidos de socorro, antes de serem afundados pelos disparos do corsário alemão. O comando inglês, a esta altura dos acontecimentos, decidiu enfrentar a situação com uma tentativa de dar caça ao corsário inimigo. Enviou um cruzador pesado para patrulhar a rota das naves aliadas na altura de Serra Leoa, na África, e outro cruzador pesado para percorrer a zona na qual foram afundados os dois últimos barcos.

Enquanto isso, o Comandante Detmers conseguiu afastar-se da zona perigosa e, longe dali, encontrou-se com outros barcos alemães, o barco-cisterna Nordmark, que o abasteceu de combustível, o transporte Duquesa e o corsário Pingüim. Em meados de março, o Schiff 41 reabasteceu de combustível o submarino U-124 e, mais tarde, encontrou-se com o encouraçado de bolso Scheer; em seguida, reabasteceu de combustível os submersíveis U-105 e U-106 e, por fim, a 22 de março, afundou o petroleiro aliado "A nita". Três dias mais tarde, 25 de março, o Kormoran capturou o petroleiro britânico Canadolite, de 11.300 toneladas e transferiu para bordo do mesmo uma tripulação que deveria conduzi-lo a Bordeaux, na França.  Poucos dias depois ocorreu um novo encontro com petroleiros alemães e com o corsário Atlantis. Em seguida, duas novas vítimas aumentam a lista dos sucessos do Kormoran: uma delas é o transporte inglês Craftsman, carregado com redes de aço destinadas a proteger o porto da Cidade do Cabo.

A esta altura dos acontecimentos, o Comandante Detmers, do corsário alemão, julgou prudente uma mudança de local para continuar as operações. De fato, o setor do Atlântico, muito patrulhado, se convertera numa zona extremamente perigosa, que podia em pouco tempo transformar-se em armadilha mortal. Por isso, Detmers decidiu aproar para o oceano Índico, disfarçando o barco que, a partir daquele momento, assumiu o aspecto de um cargueiro japonês, o Sakito Maru. Os marinheiros, trabalhando arduamente, pintaram todo o barco de preto, e inscreveram, com letras garrafais, o novo nome do navio. Também grandes bandeiras japonesas foram pintadas nos costados do barco. Nas quatro semanas seguintes, nenhum navio inimigo foi avistado e apenas ocorreu um encontro com outra nave alemã, o transporte Alstertor. Detmers resolveu trocar novamente o aspecto do Kormoran que, desta vez, se transformou no mercante Kinko Maru, também japonês. Um momento em que a situação assumiu um aspecto grave para o corsário foi quando surgiu um cruzador auxiliar britânico, que, navegava com as luzes apagadas. O encontro, contudo, não se produziu e os barcos se afastaram sem combater.

Um perigo maior se apresentou a 24 de junho, poucas horas antes da projetada colocação de minas na entrada do porto de Madras. Também nesta oportunidade foi um cruzador auxiliar, o Canton. Este, porém, obedecendo as instruções que lhe ordenavam evitar incidentes com barcos do Sol Nascente, evitou o encontro com o que acreditou ser um navio japonês. Porém enviou, imediatamente, uma mensagem cifrada perguntando se o Kinka Maru era esperado em Madras. Afinal, enquanto no Kormoran a tripulação se preparava para a batalha iminente, o Canton, inexplicavelmente, se afastou. Dois dias mais tarde, o barco alemão encontra na sua rota duas novas presas: o mercante iugoslavo Velebit e o inglês Mareebo. Os dois navios foram canhoneados e afundados rapidamente
. A esta altura dos acontecimentos, o Kormoran atingiu já sete meses de campanha ininterrupta. Os motores do barco que até aquele momento corresponderam perfeitamente necessitam de indispensáveis reparos. E Detmers, desejando manter sua nave em perfeitas condições de navegação, decidiu escolher uma afastada região do Índico para proceder a uma minuciosa revisão geral. Antes de paralisar suas andanças, o comandante alemão ordenou uma nova transformação do navio, que assumiu a aparência do Straat Malakka, mercante holandês.

Em seguida; o barco alemão foi submetido a uma rigorosa revisão dos seus motores para, logo depois, reiniciar suas tropelias. A primeira presa do novo período e, ao mesmo tempo, a última de sua existência de corsário, foi um mercante grego, detido e afundado no dia 10 de setembro. Depois, em busca de novas vítimas, iniciou um prolongado cruzeiro através do Índico, sem resultados positivos. Detmers, uma vez mais, decidiu mudar a zona de suas atividades, e aproou rumo à Austrália. O começo do fim Por volta das quatro da tarde de 19 de novembro de 1941, o HSK 8 navegava a 10 nós de velocidade, a 300 km a oeste da Austrália, rumo ao norte. Os vigias, atentos, exploram o horizonte com potentes binóculos. De súbito, um dos homens grita: "Nave à proa, um pouco a estibordo!" Apesar do rumo de ambos os navios, quase paralelo e em sentido oposto, os alemães percebem que têm diante deles a inconfundível silhueta de um cruzador inimigo, o HMAS Sydney. 

O Sydney não era um cruzador lançado recentemente no conflito. Tampouco sua tripulação estava em missão de treinamento, nem era formada por novatos. A belonave, que entrara em serviço em 1935, deslocava 6.830 toneladas e dispunha de um armamento de oito canhões de 152 mm, oito antiaéreos de 102, oito tubos lança-torpedos e numerosas metralhadoras. A blindagem era considerável e sua velocidade alcançava 32 nós. Da sua capacidade de combate já havia dado boa prova em 1940 quando, junto com cinco caça-torpedeiros, enfrentara dois cruzadores leves italianos, avariando um deles, o Colleoni. E necessário apelar para a astúcia e assim age Detmers. O comandante alemão ordena ao seu timoneiro que altere a rota e comece a afastar-se do navio inimigo, aumentando gradualmente a velocidade do barco. Porém, são percebidos pelo barco aliado, que, por sua vez, altera a sua rota e se dirige para o Kormoran, acelerando a marcha. A velocidade do corsário passa de 10 a 15 nós e a do cruzador de 20 para 25. A caçada se inicia. Detmers, marujo experiente e combatente astuto pensa rapidamente: "O que faria um barco realmente holandês nessa situação?" e sem hesitação, ordena ao seu radiotelegrafista que lance pedidos de socorro. Estes cortam os ares imediatamente: "... RRRR Straat Malakka... Estamos sendo atacados por uma nave corsária inimiga. Nossa posição: 26° 33' sul, 111° 00' leste". Os vigias, enquanto isso, estudam nervosamente a atitude do cruzador inimigo. O Sydney, sem diminuir a velocidade, já está bem perto. Da ponte da belonave aliada, um sinaleiro começa a agitar suas bandeiras: "Exibam o prefixo". Detmers, procurando ganhar tempo, manda ascender a um dos mastros as letras que caracterizam o barco holandês internacionalmente: "PKQI".

No Sydney, contudo, não é aceita aquela informação precária. E reiteram: "Exibam o prefixo em código". Trata-se de um código que todos os navios aliados conhecem e o Kormoran logicamente, desconhece.

Nesse momento, a distância que separa os dois barcos é de 1.200 metros. Detmers compreende que chegou o momento de arriscar tudo contra o Sydney. E sabe que os instantes são preciosos, diante das negras bocas dos canhões do cruzador australiano. Uma ordem partiu dos lábios de Detmers: "Abaixo as falsas estruturas! Abram fogo! Lancem os torpedos!" 

Um segundo mais tarde, o estrépito das falsas paredes caindo une-se com o estrondo dos três canhões de 150 mm rompendo fogo. As metralhadoras de 37 mm, também, varrem com seu fogo, a nave inimiga. E no mastro mais elevado, a bandeira de guerra da Kriegsmarine, se eleva rapidamente.
Dois torpedos são lançados e começam sua vertiginosa corrida para o Sydney. O cruzador australiano surpreendido por esse furacão de fogo que não tardou mais que dez segundos para desencadear-se, recebeu a descarga em cheio. A resposta, porém, não se fez esperar. Os canhões do Sydney vomitam fogo, atingido, à queima-roupa, o Kormoran no setor do depósito de combustível. Ao mesmo tempo, um torpedo do barco alemão explode no cruzador inglês, colocando fora de combate uma de suas torres de 152 mm. A batalha atinge assim uma extrema violência. A curta, porém intensíssima refrega começa a se definir quando o Kormoran se vê, de súbito, envolvido numa densa nuvem de fumaça negra e as chamas rubras começam a lamber o convés. Os marujos alemães, abandonando seus postos, dirigem-se para os botes salva-vidas, num salve-se quem puder. Posteriormente ao todo, trezentos e quinze homens do navio alemão foram salvos. O corsário abandona a luta, derrotado. Porém, não sem antes arrastar consigo o inimigo. O Sydney, de fato, permanece um instante à deriva, para depois explodir com incrível violência; começa então a naufragar com toda a sua tripulação de 42 oficiais e 603 marinheiros. O desigual combate se conclui com o afundamento das duas naves. E o Kormoran ficou sendo protagonista de um episódio incrível: o de um mercante armado que luta e afunda um cruzador inimigo.

 Kormoran
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