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O Espírito de Maginot17/06/2014por Oskar Emil von Hutier

“Ele, um general ou mero capitão, que emprega cada um de seus homens no assalto a uma posição, pode estar certo de que vai vê-la ser retomada por um contra-ataque organizado feito por quatro homens e um cabo” – Ardant du Picq (19 de outubro de 1819 – 15 de agosto de 1870), teórico militar e oficial do Exército Francês" Napoleão afirmava que o momento em que o exército fica mais vulnerável, é no exato instante após sua vitória. Nestas ocasiões o exército fica psicologicamente vulnerável, em delírio pela vitória aparente. Isso dá ao inimigo uma oportunidade sem igual para que este realize um contra ataque. Deste modo, é sempre necessária uma reserva estratégica que possa ocupar o campo enquanto a “massa” repousa. O mesmo aconteceu com a França no período pós I Guerra quando seus escassos recursos foram empregados maciçamente para bloquear os exércitos alemães na Grande Guerra de 1914-1918. Suas forças, tanto econômicas quanto psicológicas, foram exauridas e suas reservas humanas foram mutiladas pela política inconsequente da “offensive a outrance” (ofensiva a qualquer preço). Os efeitos destrutivos desta política não só afetaram a situação imediata da França como o seu futuro próximo. As perdas catastróficas de jovens durante a guerra fez com que a taxa de natalidade da França despencasse e os quatro anos de ocupação alemã tiveram efeito destrutivo sobre a combatividade tanto do soldado francês como de seu povo. Em 1918, os franceses estavam decididos a nunca mais permitirem que um invasor ocupasse suas terras, notadamente os “hunos” do outro lado do Reno. Foi este o espírito que moldou a doutrina defensiva francesa e que culminou na construção da Linha Maginot, um imenso bastião defensivo que, quando concluída, se estendeu dos Alpes ao canal da Mancha. A intenção da linha era economizar homens e material, e sobretudo poupar a França de sacrifícios inúteis como os do passado. Tamanho foram os investimentos na “indestrutível” linha Maginot (cerca de 5 bilhões de francos em valores da época), que faltaram recursos para diversas outras áreas das forças armadas como a atualização da Marinha e da força aérea. Foi este o espírito que moldou a doutrina defensiva francesa e que culminou na construção da Linha Maginot, um imenso bastião defensivo que, quando concluída, se estendeu dos Alpes ao canal da Mancha. A intenção da linha era economizar homens e material, e sobretudo poupar a França de sacrifícios inúteis como os do passado. Tamanho foram os investimentos na “indestrutível” linha Maginot (cerca de 5 bilhões de francos em valores da época), que faltaram recursos para diversas outras áreas das forças armadas como a atualização da Marinha e da força aérea. O “encouraçado terrestre”, como ficou conhecida entre os soldados, contrariava as regras da fortificação moderna moldadas sob égide de outro francês alguns séculos antes: Vauban, o arquiteto militar francês feito Marechal da França por Luiz XIV. Segundo Vauban, fortificações, não devem representar o único esteio de defesa de um Estado, pois tais defesas servem apenas para ganhar tempo e apoiar exércitos em campanha. Assim sendo, o conceito da “fortificação indestrutível” se mostrava absolutamente equivocado desde o inicio. Em resumo, toda fortificação necessita de uma força móvel para que, quando possível, lhe levante o cerco. Mas o “espírito de Maginot” se tomou o âmago do povo francês. Isso afetou não só o alto escalão do exército como também a política francesa. Na famosa Academia Militar de Saint-Cyr, não mais se ensinava a avançar, a dominar uma ponte, atacar uma cidade. Ensinava-se apenas a defesa: como defender uma ponte, como defender uma colina, etc. A coesão interna da França se fragmentou por disputas egoístas de partidos. Os comunistas indiferentes ao destino da França, seguindo ordens de Moscou, paralisavam as linhas de produção e meios de transporte. Isso se refletia na reação do povo francês após o Pacto de Munique. Mesmo com a “espada sobre sua cabeça”, os francêses continuavam amortecidos pela vitória de 1918, e dispostos a não sangrarem novamente em nome de qualquer causa. A produção de material bélico estava praticamente parada, assim como as principais regiões industriais da França, afetadas por greves orquestradas pelos partidos comunistas, sob ordens de Stalin até então, aliado de ocasião de Hitler. Movimentos fascistas franceses divulgavam a propaganda alemã dentro do território francês e o slogan “Melhor Hitler que Stalin” ganhava terreno diariamente. Enquanto isso, no governo francês, os altos escalões haviam perdido completamente a razão. Daladier e Reynaud se digladiavam, no Conselho de Ministros, sobre a carcaça da alma francesa ao invés de combater os alemães. A propaganda alemã começou a colher seus frutos após o inicio da blitzkrieg. O sentimento anglofóbico ficou popular em diversos extratos da população francesa. Torno-se corriqueiro ouvir entre as rodas de conversas em Paris, ditos como: “Onde estão os exércitos de vossa majestade?”, “Os ingleses estão em guerra?” ou o pior: “Se os ingleses quiserem, podem se aliar aos alemães; o punhado de soldados que eles enviaram não faz diferença alguma”. Assim, como nas gerações anteriores, a guerra chegou à França. E chegou de uma forma letal, a mais letal até então já vista em séculos de guerras na Europa. Enfrentando uma nova classe de soldados e oficiais alemães, e ainda desfalcada dos seus jovens não repostos, massacrados nos campos de Verdun, Marne e nas malfadadas ofensivas de Nivelle, o Estado Maior francês preparou-se para lutar o que mais tarde ficou conhecida como “guerra em câmera-lenta”.Soterrado sob as casamatas de concreto armado, o exercito francês deveria aguardar o choque frontal (pelo menos era o que previa o alto comando francês) ou limitar-se a apoiar com suas escassas reservas moveis, a Bélgica e a Holanda (naquele que ficou mundialmente conhecido Plano Dyle). Com o passar dos anos, e com o bloqueio continental imposto aos ingleses – desta vez imposto pelos alemães – esperava-se que os aliados conseguissem superioridade nos setores críticos para passar à ofensiva. Os mais otimistas diziam que seria possível investir contra a linha Siegfried na primavera de 1942. Napoleão, Vauban, Ardant DuPicq foram esquecidos, assim como parece foram também esquecidos os séculos de glórias e desenvolvimento técnico-militar das armas francesas. Assim, quando o plano de Manstein foi executado na primavera de 1940, o mundo ficou chocado tanto com a audácia e métodos utilizados pela Alemanha. A blitzkrieg – veloz, impetuosa e absolutamente surpreendente – fulminou os exércitos franceses em poucas semanas. Após a derrocada, os franceses enfrentaram uma série de batalhas, pouco valorizadas inclusive por alguns historiadores militares. Lutaram duramente contra os invernos e a fome. Poucos se lembram que a produção de grãos foi arruinada pela guerra. Formaram milícias e se bateram contra os alemães por longos anos, contribuindo de forma marcante para o sucesso da Operação Overlord e a libertação da Europa Ocidental. Analisando friamente os números dos exércitos aliados e dos exércitos alemães, chega a ser incompreensível a razão de uma derrota tão absoluta e incontestável. Porém, deve-se levar em conta que quando nações se enfrentam, não apenas os números se confrontam, mas também as vontades. A vontade francesa fora esfacelada nos campos lamacentos do front ocidental entre 1914-1918, enquanto a alemã fermentou por duas décadas em barris de miséria e vergonha.

  Fontes
  MAUROIS, André – Tragédia na França, (Editora Vecchi, Rio de Janeiro, 1941)
"Eu vi a França cair" – Rene de Chambrun (Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1941) 
França 1940 – “A catástrofe” – John Williams (Editora Renes, Rio de Janeiro, 1974)
France 1940 “Blitzkrieg to the west” – Alan Shepperd (Osprey Press, 1990)
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