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Plano 1919 - O Plano de Fuller17/06/2014por Walter Dornberger

O fim da luta na Frente Ocidental em novembro de 1918 surpreendeu ambos os lados. A situação alemã era claramente desesperada. Não havia nenhuma chance real de que seus exércitos, já exaustos e à beira da fome pura e simples, pudessem conter indefinidamente a pressão crescente dos Aliados em homens e material. Mas a ditadura militar de fato que governava a Alemanha nos últimos dias da guerra não queria de modo algum admitir a derrota. Fazer isso seria admitir a falha de todo o pensamento militar que havia guiado a política alemã nos anos pré-guerra. E forçar o todo-poderoso Estado Maior a se submeter às autoridades civis e aceitar a responsabilidade pelo desastre que espreitava a Alemanha. Não fosse a revolução comunista e a necessidade de liberar tropas para combater os revolucionários, engrossados pela massa de marinheiros e trabalhadores desiludidos, a guerra teria continuado 1919 adentro. Ambos os lados fizeram planos contando com isso, rompendo radicalmente com a forma como a guerra havia sido conduzida até ali. Uma nova forma de guerra já se delineava em 1918. Todas as potências combatentes (com exceção da América recém-chegada à luta) haviam exaurido suas reservas humanas e levado seus combatentes perto do ponto de ruptura físico e moral. Com a possibilidade de um motim sempre presente e a certeza de que novas perdas humanas dificilmente seriam repostas, nenhum comandante poderia arriscar a repetição dos maciços ataques frontais de 1916-1917. Máquinas e táticas deveriam substituir a massa humana e o élan. Em 1918, as armas que haviam dominado a tática de 1914-1917 – o fuzil de repetição, a metralhadora pesada e a artilharia – começavam a ser substituídas por outras, pensadas especificamente para a guerra de trincheiras. O fuzil de longo alcance, que havia chegado ao seu estado de arte durante a Guerra Bôer, dava lugar a armas de infantaria de curto alcance e alto poder de fogo. Durante a ofensiva alemã de 1918, as “Sturmtruppen” alemãs usaram a nova submetralhadora MP-18 Bergmann de 9mm em substituição ao fuzil Mauser padrão. As tropas americanas obtiveram bons resultados com o “trench rifle” Winchester, na verdade uma espingarda calibre 12 de ação por bomba, de cano curto e com encaixe de baioneta. Metralhadoras leves, como a Lewis e a Madsen, foram mais amplamente distribuídas e usadas cada vez mais como armas móveis ofensivas, e não mais como suportes estáticos de defesa. Os americanos esperavam até o final do ano receber em quantidades os novos rifles automáticos Browning BAR e tinham uma submetralhadora efetiva, a Thompson, em fase final de pré-produção. E acima de tudo, os tanques substituíram a artilharia na visão dos comandantes como a principal ferramenta de ruptura de obstáculos. As novas armas desafiavam os oficiais alemães e Aliados com a perspectiva de uma revolução tática. Artilharia e munição perfurante de blindagem haviam lidado relativamente bem com a primeira geração de tanques, mas ficava claro que mesmo esses blindados primitivos poderiam vir a obter resultados surpreendentes se usados em quantidade e com apoio de infantaria e artilharia. Melhorias na blindagem e na mecânica poderiam eliminar as principais deficiências do tanque. Por outro lado, a ruptura das linhas de trincheiras por si só não decidiria batalhas nas condições existentes em 1918/1919. Durante a ofensiva alemã de 1918 as “Sturmtruppen”, tropas pequenas com equipamentos leves e altamente motivadas, haviam rompido as linhas Aliadas com relativa facilidade, o que não causou a desintegração dos exércitos Aliados. Pelo contrário, onde as tropas Aliadas conseguiam se reorganizar e lançar contra-ataques locais, multiplicavam-se os pontos de resistência, o que atrasava o avanço dos infiltradores. E o atraso era o principal inimigo das “Sturmtruppen”. Essa constatação levou ambos os lados a investir nas defesas em profundidade. A linha contínua de obstáculos das trincheiras foi aos poucos substituída por cinturões descontínuos de pontos fortes, posicionados para mútuo apoio. Do lado alemão, onde esta tendência foi mais pronunciada, casamatas e “bunkers” de infantaria partilhavam campos de tiro entrelaçados. Campos minados, arame farpado e valas antitanques de 6 a 9 metros canalizavam os atacantes para “zonas de matança”, onde a artilharia e o fogo de metralhadoras os aniquilariam. Claro que as novas armas e táticas poderiam facilmente substituir o impasse de 1914-17 por outro impasse, ainda mais mortífero. Para conseguir uma ruptura decisiva, capaz de levar à vitória, as novas armas e táticas teriam de se combinar numa nova estratégia, uma estratégia calculada para explorar todo seu potencial antes que elas pudessem ser neutralizadas. O pensamento estratégico Aliado se condensou no Plano 1919,originário de um documento escrito por um oficial júnior do Estado Maior britânico, J.F. C. Fuller. Fuller argumentava que, sob as condições existentes nos campos de batalha em 1918, romper a linha defensiva ou flanquear e cercar o inimigo não bastava. Enfraquecer o inimigo pela destruição humana e material – por atrito – já havia se mostrado custoso e incerto nos anos anteriores. Ao invés, propunha Fuller, os Aliados deveriam tentar a “decapitação”, um ataque à cadeia C3 (Comando, Controle e Comunicação) do inimigo. Com a “cabeça” cortada, o corpo do exército alemão se quedaria, agonizante e inefetivo. O pânico se instalaria, a resistência cederia e o esforço de guerra alemão entraria em colapso. Fuller delineou um ataque em três fases. Primeiro tanques médios se infiltrariam pelas linhas inimigas em dois pontos separados numa frente estreita, desorganizando as linhas de controle e comando alemãs. Não haveria bombardeamento prévio, para não alertar os defensores. Então, uma força combinada de infantaria e tanques pesados romperia pelas linhas alemãs, aumentando a desorganização e neutralizando os pontos fortes que poderiam atrasar o avanço. Finalmente, uma força mista de tanques médios mais cavalaria se infiltraria pelas brechas criadas pelo assalto e circularia os defensores, destruindo suprimentos, cortando linhas de telefone e telégrafo, sabotando ferrovias e estradas, e ultrapassando a artilharia e os postos de comando do inimigo. De cinco a sete dias o avanço prosseguiria, a uma velocidade de 30 quilômetros por dia. A velocidade e potência do golpe blindado permitiriam ao ataque alcançar seus objetivos antes que os alemães se reorganizassem para contra-atacar os flancos expostos das colunas móveis. A mecanização supriria a velocidade e o poder de fogo dos quais careciam as “Sturmtruppen”. O esboço de Fuller cativou a imaginação do supremo comandante Aliado, Marechal Foch, ansioso por um meio de romper o impasse das trincheiras, sem o grotesco desperdício de vidas que havia levado muitas unidades francesas á beira de um motim. Abraçando a visão de Fuller, ele calou as objeções que há muito tempo paralisavam os adeptos dos blindados no exército francês e traçou as bases da estratégia Aliada para vencer a guerra. Para implementar o Plano 1919, Foch projetou uma força Aliada de tanques de 10.000 veículos, de dois tipos básicos. Para um assalto em um front de 150 quilômetros de largura, o plano de Fuller previa 2.592 tanques pesados “de ruptura” e 2.400 tanques médios “de exploração”. Porém, com exceção do excelente Renault FT-17, os desenhos existentes de 1916 eram inadequados para o tipo de batalha planejado. O índice de quebra era demasiado alto para penetrações profundas e/ou carregavam pouco combustível e munição para operações prolongadas. As condições para as tripulações eram terríveis – fumaça de escapamento, calor, barulho e trabalho constante com a transmissão e suspensão exauriam rapidamente as tripulações (não havia separação entre o motor e a tripulação de nenhum tanque até que os americanos adicionaram esse “opcional” quando copiaram sob licença o Renault FT-17). Como veículos de assalto, os primitivos tanques careciam da blindagem e da capacidade de travessia de obstáculos que seriam essenciais. O primeiro tanque médio britânico, o Whippet, se mostrou pouco adequado: frágil, de difícil direção e incapaz de cruzar trincheiras, como requerido na fase de infiltração do plano. Os médios teriam de cruzar os fossos antitanques da Linha Hindenburg antes de flanquear os alemães e atacar os postos de comando inimigos pela retaguarda. Os novos tanques médios B, C e D adotaram a forma romboidal clássica dos tanques pesados britânicos. Embora mantendo o armamento fixo só de metralhadoras do Whippet, eles eram maiores, mais manobráveis e blindados. O principal tanque de ruptura seria o Mark VIII "Liberty" ou "International", uma versão revista e ampliada do tanque pesado romboidal, com melhor tração, maior capacidade de transpor obstáculos e um motor V-12 em um compartimento isolado. Sua blindagem foi projetada para deter a munição perfurante alemã K-patrone. Foi produzido nos Estados Unidos, mas não chegou a entrar em combate. Viria a formar a espinha dorsal das forças de tanques americanas até 1940, quando foram discretamente transferidos para o Canadá para uso em treinamento. Os franceses deveriam adotar o Mark VIII em suas unidades, mas desenvolveram tanques de ruptura de desenho próprio. Muito mais avançado que o desenho anglo-americano, o Char 2C, era uma versão ampliada, com torres múltiplas, do bom FT-17. Com um canhão de 75mm montado na torre principal , uma metralhadora montada numa torreta traseira para “limpar” as trincheiras durante a travessia e metralhadoras adicionais em reparos esféricos laterais. Apenas dez foram produzidos entre 1920 e 1925, os quais foram destruídos durante o transporte ferroviário para o front em 1940. Porém, só melhores tanques não resolviam a todas as questões. O Plano 1919 se pautava na experiência ganha nas primeiras grandes ações blindadas—Cambrai, Amiens, Villers- Bretonneux. Em cada uma dessas ações os tanques haviam conseguido romper as linhas e levar o caos às defesas alemãs, porém haviam parado antes de obter uma vitória decisiva. Além das quebras e extravios, os tanques caiam vítimas de umas poucas peças de artilharia bem colocadas. Tanto a artilharia aliada, que deveria neutralizar as defesas inimigas, quanto o fluxo de ordens e suprimentos que poderiam sustentar e guiar um avanço convencional acabavam ficando para trás, na lama das trincheiras alemãs destruídas. Comunicações deficientes e a falta de mobilidade da artilharia eram, até ali, o maior fator limitante do sucesso das ofensivas blindadas.   Fuller pretendia solucionar esses problemas por meio de um amplo suporte aéreo. Bombardeiros fariam a interdição do campo de batalha, desorganizando as comunicações inimigas, atacando os postos de comando e bombardeando as vias de comunicação. Caças apoiariam o avanço, metralhando e bombardeando a artilharia antitanque, dando cobertura à aproximação dos tanques médios que a neutralizariam definitivamente. Atacariam ainda a retaguarda inimiga, suprimentos, estradas e concentrações de tropas. E acima de tudo, aeronaves de “patrulha de contato” cobririam as linhas de suprimento e comunicações que as forças atacantes deixassem atrás de si, patrulhando as rapidamente móveis linhas de frente, lançando mensagens, ordens e suprimentos para unidades amigas isoladas. O conceito de “patrulha de contato” daria origem ao mais característico tipo de aeronave a emergir da Primeira Guerra, onde apareceria apenas no final e em pequenos números. Floresceria no período entre guerras com o nome de aeronave de cooperação com o exército e desapareceria rapidamente no início do segundo conflito mundial. A radiotelefonia ainda estava em seu estágio experimental em 1918, assim a comunicação das tropas de solo com aeronaves era feita usando foguetes luminosos (Very lights) e padrões de sinais pré-combinados, normalmente tecido estendido no solo. Localizar pequenas frações de tropa, camufladas, numa frente descontínua e em rápida mudança, exigia que a aeronave voasse lentamente próximo ao solo, onde o fogo inimigo era mais intenso. Quando aviões biplace comuns eram usados desse modo, as baixas eram elevadas e os resultados escassos. A resposta óbvia veio na forma de um biplace blindado. Curiosamente as únicas aeronaves desse tipo a atuarem durante a guerra foram alemãs, o AEG Albatros e o Junkers J-1. O primeiro equivalente Aliado, o Sopwith Buffalo, tinha acabado de entrar em produção quando o Armistício foi assinado. O protótipo chegou à França para testes em combate, mas não chegou a voar operacionalmente. O Buffalo se baseava em grande parte nos caças Snipe e Salamander, com os quais partilhava o motor e a aparência geral. Era, no entanto um biplace: o piloto sentava de costas para o observador/artilheiro. Armado com uma metralhadora Vickers fixa, montada sobre o motor e uma Lewis móvel manejada para o observador, o Búffalo tinha um desempenho insuficiente. O peso da blindagem sacrificava a razão de subida, a manobrabilidade e a resposta aos controles. Foi aprovado para o serviço devido à urgência, enquanto não se dispunham de motores mais potentes. A artilharia voadora para o Plano 1919 seria o Sopwith TF.2 Salamander, o "Trench-Fighter". Essencialmente um Snipe com blindagem protegendo o piloto e o combustível mais munição extra. A performance a baixa altura e as características de manejo eram muitas boas e houve interesse no pós-guerra em usa-lo no lugar do Snipe como caça-padrão da RAF. Em 1918, 1.100 Salamanders haviam sido encomendados, 102 produzidos e 37 incorporados à RAF. Mas só dois chegaram à França e nenhum entrou em ação durante a guerra, embora tenham voado pouco depois “prontos para matar” durante a Crise de Chanak entre Turquia e Grã-Bretanha. Os alemães reagiram à proliferação prevista de aeroplanos Aliados blindados desenvolvendo seus próprios “trench fighters”. A primeira tentativa nessa classe foi o triplano AEG PE (Panzer Einsitzer), que foi recusado, mas deu origem ao AEG DJ.1. Com grande parte da sua estrutura em duralumínio, o DJ.1 foi pensado para absorver danos em combate. A blindagem protegia não só o piloto, como o combustível e motor. Inicialmente armado com duas metralhadoras 7.92mm e bombas leves, posteriormente deveria incorporar a TuF (Tank und Flieger Gewehr), uma metralhadora pesada antitanque calibrada para o cartucho 13mm Mauser. Três protótipos do DJ.1 estavam em teste quando a guerra acabou. Carecendo de tanques e sem capacidade industrial de produzi-los em curto prazo, a Alemanha se concentrou no desenvolvimento de armamento antitanque. Para a infantaria, um cartucho de 13mm substituiu o K-patrone. Um fuzil antitanque Mauser a ferrolho foi desenvolvido para ele, juntamente com a metralhadora TuF. O fuzil chegou a entrar em combate, porém a metralhadora pesada apresentou problemas de desenvolvimento. Porém, contra os novos desenhos de tanque Aliados mesmo o novo cartucho perfurante seria de eficácia marginal, e as armas que o calçavam eram pesadas e desajeitadas. As batalhas que se desenhavam para 1919, extremamente fluidas, pediam uma resposta mais flexível ao tanque. O aeroplano foi a arma escolhida em princípio. O bombardeiro médio de alta performance AEG G.IV foi convertido numa canhoneira blindada antitanque, o G.IVk (kanone). Toda a metade frontal da fuselagem e ambos os motores foram blindados. Dois dos novos canhões automáticos SEMAG/Becker foram montados, um numa torreta no nariz e outro num reparo móvel em anel na traseira. O Becker 20mm foi o primeiro canhão leve automático, ancestral direto do Oerlikon e poderia perfurar qualquer tanque da Primeira Guerra, especialmente disparando de cima para baixo. Como todas as aeronaves de apoio ao solo em todas as, a canhoneira AEG provavelmente passaria por tempos difíceis, mas teria um desempenho interessante como “tapador de rupturas”, caçando os tanques médios de Fuller na retaguarda alemã. Algumas chegaram a ser produzidas antes do Armistício, mas não há evidencia de que tenham chegado a entrar em combate.  O Plano 1919 nunca foi posto em prática, assim como as medidas defensivas alemãs. Com o quinto inverno da guerra se aproximando, a Alemanha carecia dos elementos básicos de sobrevivência, combustível e comida. Trabalhadores especializados haviam sido sacrificados no açougue da Frente Ocidental, deixando as fábricas para suas viúvas e órfãos operarem, juntamente com os inválidos de guerra que os haviam precedido no front. A força de trabalho restante estava congelando por falta de carvão, à beira da inanição. Nessas condições, os ambiciosos planos do Alto Comando para a produção de novas armas eram irrealistas, mesmo se os trabalhadores estivessem de acordo com eles. Não estavam.  Em desespero, sindicalistas, social-democratas, socialistas e marxistas espartacistas desafiaram os militares pelo controle da nação. Greves e manifestações de rua irromperam pela Alemanha e Austro-Hungria. Quando os marinheiros da Frota de Alto Mar, mal alimentados mas relativamente intocados pela guerra, foram chamados para suprimir os motins populares em Kiel e Berlim, eles próprios se amotinaram, atacaram a polícia e distribuíram armas às massas. Essa súbita ameaça à ordem social e à predominância do Exército na vida pública conseguiu o que a crescente pressão dos Aliados não pode: convencer os generais alemães a pedirem a paz, a qualquer preço. Para que se pudesse trazer de volta as disciplinadas e politicamente ignorantes tropas do front e lança-las contra as massas alemãs, rebeldes e famintas. O Armistício de 11 de novembro de 1918 se tornou, ironicamente, o salvador do militarismo alemão, que pode emergir catastroficamente vinte anos depois. E ao mesmo tempo foi o carrasco da democracia alemã, recém nascida em Versalhes e morta no berço pelos canhões e lança-chamas nas ruas das cidades alemãs.
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