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Estratégia e Tática: A Estratégia Nacional04/06/2014 por Kiril Meretskov

A guerra é, pois um ato de violência destinada a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade... A guerra é uma simples continuação da política por outros meios. Vemos, pois que a guerra não é somente um ato político, mas um verdadeiro instrumento político, uma continuação das relações políticas, uma realização destas por outros meios”. (Clausewitz – Da Guerra).
Qual foi a grande diferença estratégica entre a Alemanha e a Rússia? Por que a Alemanha começou vencendo, mas no final se viu derrotada? Bem há varias justificativas, mas talvez a principal seja a estratégia nacional. A “Blitzkrieg”, apesar de uma tática, revelava bem a característica do pensamento alemão com relação a condução da guerra, uma guerra rápida. Vamos começar com alguns conceitos, Clausewitz classificou a estratégia como “o uso dos enganjamentos (combates) para o propósito da guerra” e tática é “o uso das forças armadas nos enganjamentos”. Antes das guerras modernas, a decisão de uma batalha era através de movimentos e choques, uma guerra era uma concatenação de vários choques até que se chegasse ao decisivo, a batalha decisiva. Então, inaugura-se na história um período em que o detentor da superioridade em meios e, portanto, potencialmente (estrategicamente) superior, poderia ser derrotado pelo potencialmente inferior, de forma planejada, na medida em que este último, por meio da manobra (estratégica), poderia obter a superioridade nas batalhas, exclusivamente manipulando espaço, tempo, dispersão e concentração. A diferença básica, em relação à Antigüidade, quando exércitos inferiores em número derrotaram outros muito superiores, está na articulação planejada dos vários choques que, nesse contexto, representam uma notável evolução na sofisticação do pensamento militar, podendo ser comparados com o jogador de xadrez que visualiza várias jogadas à frente. A ligação entre a frente de combate e a retaguarda de apoio também ficou clara. Como exemplo a Primeira Guerra Mundial, ficou claro que as guerras futuras dependeriam dos recursos totais do estado. Os soviéticos seguiram essa visão de que o conflito futuro seria sistêmico e prolongado. Durante a década de 30, as políticas de coletivização agrícola e industrialização em grande escala equivaliam a uma mobilização da sociedade soviética em tempos de paz. Uma série de planos qüinqüenais formou a infra-estrutura para a guerra futura e produziu boa parte do equipamento militar para operações profundas. A transformação – mesmo a militarização – da sociedade soviética representava um triste testemunho quanto às ligações entre a visão estratégica e capacidade a nível operacional. No período entre as duas grandes guerras, ninguém superou os soviéticos, no estudo metódico e racional da estratégia operacional, sob o nome de arte operacional, realizado após profunda reflexão sobre as teorias existentes e as experiências da dinâmica Guerra Civil Russa (1918 a 1921), notadamente em confronto com a rigidez tática e estratégica da Primeira Guerra Mundial. Os alemães herdaram um legado militar muito diferente e seguiram uma filosofia contraria a russa. Depois de vitórias fulminantes contra os franceses em 1870 e 1871, boa parte da base fundamental do planejamento militar alemão havia sido delinear operações iniciais de escopo e velocidade suficientes que levariam à capitulação do inimigo durante uma única campanha de aniquilação. A teoria era de que a sociedade moderna havia se tornado demasiado frágil para resistir aos deslocamentos de um prolongado conflito militar. A experiência da I GM pareceu confirmar as apreensões anteriores. A demora havia trazido os perigos múltiplos de desgaste, exaustão interna e instabilidade política, e mesmo revolução. Os alemães baseados no entendimento intuitivo do potencial militar das novas tecnologias criaram a blitzkrieg, uma resposta atordoante aos desafios, inclusive às demoras inerentes à guerra de posição. A união do poder aéreo e blindado com técnicas de combate deu origem ao conceito de armas combinadas com imediata aplicação tática e importantes implicações estratégicas operacionais. Mais uma vez os chamados ilusórios de aniquilação e de decisão rápida convocaram os alemães para compor objetivos militares instáveis. A “guerra relâmpago” tinha pelo menos duas importantes falhas. A primeira era que os operadores e os planejadores se enganaram e não incluíram a blitzkrieg numa visão coerente para a conduta de operações, algo que poderia ter-se concretizado caso os alemães se tivessem dado o trabalho de desenvolver o seu próprio legado de estratégia operacional. A experiência poderia vencer este problema. A segunda mais importante foi que os alemães falharam além do óbvio e do superficial, para considerar as ligações sistêmicas importantes entre a frente de combate e a retaguarda doméstica de apoio. Não obstante, Hitler considerou que a nova visão correspondia ao seu próprio entendimento de estratégia, enquanto os êxitos de 1939 e de 1942 escondiam as dificuldades mais profundas de mobilizar a frente doméstica. Por causa dos expurgos promovidos por Stalin em 1937 e 1938 e a errada interpretação das lições da Guerra Civil Espanhola somado a capacidade alemã de atacar já em 1941 e também a ordem de Stalin de militarizar as novas fronteiras soviéticas, mesmo essas não tendo pontos fortificados para defesa, fez com que os russos tivessem um desempenho muito ruim nos primeiros estágios da guerra. Contudo em 1943, os ensinamentos já tinham sido assimilados e as tropas já estavam treinadas nas novas tecnologias e isso trouxe conseqüências devastadoras para os alemães. Foram aperfeiçoadas as operações continuas e simultâneas de frentes múltiplas. Aprenderam a controlar as operações, coordenando ao mesmo tempo apoio aéreo e arremetidas blindadas. Aqui curiosamente podemos ver o mesmo conflito a Primeira Guerra Mundial ser avaliada e conclusões totalmente diferentes terem sido tiradas da mesma experiência. Quem estava certo? Podemos cair na tentação de uma analise superficial e dizer “Os russos estavam certo, afinal venceram!”, mas se a mesma pergunta fosse feita em 1942, à resposta seria diferente. Contudo a experiência mostrou que realmente a abordagem russa era a mais coerente, pois se a guerra fosse prolongada, o que aconteceu, uma mobilização nacional era fundamental. Os alemães somente compreenderam isso muito tarde e somente em 1943 é que começaram uma verdadeira economia de guerra. Os alemães acharam que conseguiriam uma batalha decisiva que levaria a vitória, tentaram isso em Moscou e depois em Stalingrado, achando que a tomada da cidade alem de vantagens logísticas e estratégicas afetaria o moral russo, no entanto o Exército Vermelho assim que assumiu a ofensiva, tratou de destruir sistematicamente as forças alemãs, com grandes cercos como o que cominou na destruição do Grupo de Exércitos Central até a tomada de Berlin.
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