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A Escola de Aviação Alemã - Lipetsk (URSS) 1925-193004/06/2014por Walter Dornberger

O Tratado de Versalhes, que encerrou a Primeira Grande Guerra, tentou também dar um fim ao militarismo germânico e, com ele, ás forças de aviação que introduziram o bombardeiro indiscriminado contra populações civis da França e Inglaterra. Visando esse fim, toda a produção aeronáutica alemã, civil e militar, foi banida em curto prazo, todas as aeronaves existentes confiscadas ou destruídas, e a Aviação Militar expressamente proibida á Alemanha em caráter definitivo.

A junta militar que efetivamente governou a Alemanha de 1917 até a ascensão de Hitler não se deixou deter, no entanto, nem pelas proibições dos Aliados nem pelas evidências de suas ações pretéritas: a economia destruída, a população faminta e a beira da revolução, as perdas territoriais, e toda uma geração de jovens mortos ou mutilados que a Guerra havia consumido. Tendo aprendido o valor militar da aviação, os generais estavam determinados a manter a posse dessa arma, mesmo que em segredo. Quando os subterfúgios iniciais, como os Polizeiflieger (unidades de aviação policial) e as linhas de aviação “comerciais” custeadas pelos militares falharam em enganar a Comissão de Controle Aliada, o Alto Comando Alemão lançou um agressivo programa de rearmamento extraterritorial.

Essa campanha atingiu seu apogeu numa base secreta na União Soviética: Lipetsk. O alcance das iniciativas alemãs no estrangeiro é impressionante em sua audácia, mesmo depois de 80 anos. Meses após o fim da Guerra, grandes fabricantes de armas alemães já estavam estabelecendo subsidiárias estrangeiras para conduzir a pesquisa, desenvolvimento e produção dos meios proibidos. Suíça, Suécia, Lituânia e Finlândia forneceram cobertura para a continuação do desenvolvimento de canhões, tanques e submarinos. Claudius Dornier, o homem por trás da principal fábrica de Zepelins durante a Guerra, estabeleceu-se na Suíça, apenas trocando a margem do lago Constança onde desenvolvia seus trabalhos. Hugo Junkers iniciou uma linha de montagem de aquecedores de água em suas fábricas alemãs, enquanto prosseguia a produção de aviões em Limhamn na Suécia e em Fili na URSS. Para financiar o desenvolvimento, ele ainda estabeleceu linhas aéreas comerciais na Pérsia, Finlândia (Aero O.Y.), Suécia (A. B. Aerotransport), União Soviética (Deruluft), e América do Sul (SCADTA na Columbia e Aero Lloyd Bolivia). A Albatros transferiu seu endereço comercial para a cidade livre de Memel, Lituânia. Fokker continuou a desenvolver aviões de Guerra para a Alemanha em sua Holanda natal. Embora não houvesse falta de modelos adaptáveis para uso militar (e nem de motores de alta potência, obtidos clandestinamente de fabricantes ocidentais ansiosos para desovar a produção dos tempos de guerra), áreas para teste e treinamento eram difíceis de conseguir.

A Alemanha tinha uma horda de ex-pilotos de combate em 1920, mas poucos tiveram a chance de se manter atualizados com os avanços da aviação, devido ás restrições impostas à Alemanha, Áustria e Hungria. As iniciativas alemãs em países amigos, como Suécia e Finlândia, atraiam a atenção indesejada dos serviços de inteligência Aliados, poloneses e tchecos. Uma localização menos obvia, longe dos olhos ocidentais, era uma necessidade urgente. O Alto Comando alemão encontrou uma solução improvável vinda da União Soviética. Em 1917, o exército alemão forçou a Rússia a uma paz humilhante, e reprimiu duramente movimentos de inspiração soviética em casa e nos países ocupados. Entre 1917 e 1918, unidades alemãs ajudaram o generalíssimo finlandês, von Mannerheim, a destruir os comunistas de seu país. O Alto-Comando alemão estava pronto para aceitar a paz em termos humilhantes devido á urgência de liberar tropas para combater o Movimento Espartacista alemão e os sovietes de trabalhadores na Bavaria e no Ruhr durante o inverno de 1918-1919. Apesar disso, em 1924, o Oberst Lieth-Thomsen estava em Moscou com uma equipe de oficiais alemães negociando um tratado de assistência mútua com a Força Aérea Soviética.

Em abril de 1925, os governos dos dois países assinaram um acordo que dava á Alemanha o uso da base aérea russa em Lipetsk, a 250 milhas ao sul de Moscou, em troca de assistência técnica e acesso ao resultado dos testes. Para equipar a primeira unidade áerea da WIVUPAL, Wissenschaftliche Versuchs- und Prüfanstalt für Luftfahrzeuge (Estabelecimento de testes e experimentos científicos para aeronaves), como a operação de Lipetsk foi chamada, foi planejado o uso do Junkers Ju-22, um caça monoposto derivado do Ju-21, um avião de reconhecimento de dois lugares em uso pela Força Aérea Soviética. Usando um avião similar a outro usado pelos russos , os alemães tencionavam disfarçar a nova unidade aos olhos dos serviços de Inteligência ocidentais.

Infelizmente, apesar da construção moderna, toda metálica, e de inovações como tanques de combustível ejetáveis, ambos os aviões se revelaram um fracasso, sendo retirados de produção. Em substituição os alemães usaram 50 caças Fokker D-XIII, obtidos clandestinamente durante a crise da Renânia em 1923, quando os franceses ocuparam aquela região industrial da Alemanha devido ao atraso no pagamento das reparações de guerra. Os militares alemães planejaram resistir e adquiriram os aviões de seu velho fornecedor, agora na sediado na Holanda. Todo o estoque da fábrica Fokker foi comprado, usando uma ordem de compra fantasma feita pela Argentina, sem despertar a atenção do governo holandês ou das autoridades Aliadas.

Com o abandono da opção militar para a crise, os aviões foram enviados ao porto báltico de Stettin para embarque para Leningrado, chegando á URSS em maio de 1925 e entrando em uso imediatamente. Construído em estrutura metálica e madeira, com cobertura de lona, o Fokker D.XIII era um sesquiplano (biplano com asa inferior menor que a superior) de desenho tradicional, armado com um ar de metralhadoras MG.08 7,92mm sincronizadas, com motor de 450 hp e velocidade máxima de 260 km/h. Embora obsoleto, provou ser adequado na função de treinamento. Resolvido o problema do treinamento de caça, os alemães se lançaram na busca de uma máquina de dois lugares. Nessa época, os biplaces eram o cavalo de batalha do serviço aéreo, efetuando as missões de reconhecimento, observação de artilharia e apoio á infantaria. Como na Primeira Guerra, eles também executavam ocasionalmente missões de bombardeio leve, ataque ao solo e caça. Originalmente o Ju-21 produzido na fábrica russa Junkers de Fili foi considerado, mas seu desempenho insatisfatório (perdia para o DH-9 britãnico da Primeira Guerra usado pelos russos em todos os aspectos) o condenou. Uma série de aeronaves construídas em segredo na Alemanha foi testada na Rússia: Albatros L.65, Heinkel HD.17, Albatros L.76/77 e Albatros L.78. Um modelo Junkers, o A-35, originalmente concebido como avião correio, construído na Rússia e na Finlândia, teve mais sucesso. Monoplano de asa baixa, com a típica construção metálica Junkers, derivava diretamente dos aviões alemães classe CL da Primeira Guerra.

Em Lipetsk os A-35 civís foram convertidos no modelo K-53 militar com a adição de duas metralhadoras sincronizadas no nariz e uma terceira arma montada no cockpit traseiro, com trilhos para bombas colocados nas asas. Outros modelos foram avaliados em Lipetsk: um Rohrbach Roland, um Dornier B Merkur, um Junkers W.33, e um par de Junkers F.13s preenchiam a função de transporte e como treinamento para tripulações de bombardeiros. O armamento principal de todos os aviões testados em Lipetsk era a metralhadora LMG.08 Maxim de 7,92mm. Originalmente uma arma “leve” de infantaria, foi usada mais por sua disponibilidade que por sua adaptação á função de arma para uso aeronáutico. Além do treinamento, muitos testes foram levados a cabo na base. Toda a primeira geração de aviões da nova Luftwaffe teve seus protótipos testados em Lipetsk.

Em 1931 a missão alemã atingiu seu pico, chegando a ter mais de 200 pessoas. Os caças Arado Ar 64, os aviões de reconhecimento Heinkel HD.45 e HD.46, os bombardeiros Dornier Do P, Do F, e Do 11 e o hidroavião He 59 foram testados entre 1930 e 1932. Em 1930, no entanto, a situação da operação Lipetsk tornou-se insustentável. Os soviéticos consideravam poucos os benefícios obtidos com o acordo e começavam a visualizar o perigo do rearmamento alemão. A aviação russa estava entrando numa fase de expansão por seus próprios meios e tinha pouca necessidade de auxílio externo. A própria Alemanha, após o benefício inicial do treinamento, conseguiu a certeza de que poderia reconstruir, como de fato aconteceu, sua força aérea em seu próprio solo quando chegasse a hora. O risco de espionagem tornava o teste dos modelos alemães mais recentes em solo estrangeiro um risco. E a crise econômica mundial acabou por tornar a operação Lipetsk economicamente inviável.

Em 1933, com a subida do Partido Nazista ao poder, a escola alemã de Lipetsk foi fechada, depois de formar 230 pilotos e tripulantes. Dois anos depois o novo regime anunciava ao mundo a existência da renascida Luftwaffe.
FONTE: http://www.chandelle-jah.com/ (Chandelle, a journal of Aviation History)
 
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