ARTIGOS

A Importância da Engenharia nas Guerras Modernas07/08/2013
Por Kiril Meretskov
 
 
            Nas guerras modernas, onde a mobilidade é essencial, a Engenharia é a arma de apoio ao combate com a missão básica de facilitar o movimento de forças amigas e dificultar o movimento do inimigo.
            Uma característica da Primeira Guerra Mundial foi a falta de mobilidade, sendo uma guerra marcada pelas trincheiras. Um dos grandes motivos para isso foi que veículos com motor à combustão eram raros e usava-se basicamente animais ou trens para levar tropas, armamentos, suprimentos, etc. A arma de Engenharia era usada basicamente para cavar trincheiras e montar alambrados. Já na Segunda Guerra Mundial foi exatamente o oposto: caracterizava-se pela mobilidade, pelo intenso uso de veículos motorizados e grandes deslocamentos. Para prover toda essa mobilidade eram necessárias boas estradas e pontes. Por exemplo, a campanha alemã nas invasões aos países do oeste, França, Bélgica, etc., foi facilitada pelas excelentes estradas. Já na invasão à Rússia, isso não ocorreu, pois as estradas eram poucas e precárias.
            As unidades de Engenharia são treinadas para desempenhar missão de caráter técnico especifica, basicamente construção, obstrução, desobstrução ou destruição. A mobilidade é o conjunto de trabalhos desenvolvidos para proporcionar as condições necessárias ao movimento contínuo e ininterrupto de uma força amiga. Os engenheiros realizam, entre outros, trabalhos de abertura de passagens em obstáculos, de transposição de cursos de água, de navegação em vias interiores, de conservação e reparação de pistas e estradas, de destruição de posições organizadas do inimigo, proporcionando condições para que a manobra tática obtenha rapidamente vantagens sobre a posição do inimigo. A contramobilidade são trabalhos que visam deter, retardar ou canalizar o movimento das forças inimigas para, em princípio, contribuir na destruição dessas forças. Proporcionam maior valor defensivo ao terreno, principalmente pela construção de obstáculos de acordo com a intenção do comandante tático, restringindo a liberdade de manobra do inimigo. A proteção tem por função reduzir ou anular os efeitos das ações do inimigo sobre a tropa e o material, proporcionando abrigo, segurança e bem-estar e ampliando a capacidade de sobrevivência das forças em campanha. Por terem uma instrução altamente especializada é justificada sua conservação para uso em missões especiais. A utilização de engenheiros como infantaria regular é um erro, pois priva o exército de uma função que dificilmente seria executável por outras unidades. Por este motivo sua utilização como infantaria seria admitida somente em momentos de crise. É convencional que a Engenharia receba apoio e segurança da infantaria.
            A travessia de cursos d´agua, talvez seja uma das mais importantes funções que desempenha a Engenharia. A Engenharia russa se destacou pela construção de pontes submersas, que tinham como característica principal não serem detectáveis pelo reconhecimento aéreo. Hoje existem vários tipos de pontes, mas durante a Segunda Guerra, a mais comum era a Bailey que foi desenvolvida pelos ingleses. A Bailey M1 tinha largura de 3,21m porém, até o final da Segunda Guerra, tornou-se muito limitada para as viaturas existentes; então foi criada a M2 com 3,81m. O exército inglês utiliza a M3 com 4,19m. Outros meios de travessia são portadas e passadeiras. As portadas não são muito mais do que balsas e, as passadeiras, têm objetivo de travessia de soldados.
            Durante o início da invasão alemã ao território russo, na Segunda Guerra Mundial, muitos dos conceitos de emprego da Engenharia foram esquecidos. O motivo que os levou a esta atitude foi a previsão de uma campanha muito curta, com isso tentou-se evitar a todo custo atrasos, acabaram por utilizar a Engenharia como arma base em funções que deveriam ser da Infantaria ou então em ações sem o devido apoio para prover poder de fogo. Nos últimos momentos da guerra, quando os alemães tentavam por todos os meios evitar a progressão do Exército Vermelho, também fizeram uso de engenheiros como infantes, mas esse é o típico exemplo de crise.
            Em julho de 1941, após 15 dias do inicio da invasão à Rússia, o 4º Grupo Panzer (que depois foi designado IV Exército Panzer), deslocava-se à leste, ao longo da margem sul do trecho superior do rio Dvina. Havia a necessidade de travessia do rio e para agilizar tal passagem, foi enviado à frente um batalhão de engenharia para tal ação. O primeiro problema surgiu, pois as estradas estavam cheias de veículos e o batalhão estava no meio desta confusão. Precisou-se de muito esforço para chegarem ao destino. Lá observou-se que havia tropas russas na outra margem que hostilizavam os engenheiros.      Foi enviado um pelotão para a outra margem buscando suprimir o fogo inimigo. Também foram vítimas de fogo aéreo. No final, lograram sucesso apesar de algum atraso, porém aqui vemos um exemplo do uso de tropas especializadas como arma base e sem receber a devida proteção tanto terrestre como aérea, tendo se desgastado inutilmente, tentando ao mesmo tempo conquistar uma cabeça-de-ponte e construir a ponte.
            Outro exemplo do uso de engenheiros como infantaria foi na Batalha de Kasserine, onde o 19º Regimento de Engenharia, após colocarem minas entre a aldeia e o passo de Kasserine, foram ordenados a guarnecer a linha que acompanhava o leito do rio Hatab à leste de Kasserine, na estrada de Sbeitla. Ali eles deveriam dar cobertura à retirada da 1ª Divisão Blindada e em seguida eles próprios seguirem o mesmo caminho.
            Uma função ingrata que é atribuída aos engenheiros é a abertura de campos minados. No filme “Rambo 3”, o ator Silvester Stallone abre uma brecha no campo de minas utilizando uma faca, algo não muito longe da realidade (no caso a ferramenta utilizada é o bastão de sondagem), pois mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, muito se utilizavam as minas de madeira, que impossibilitam detectores de metal.
            Uma característica de um campo de minas é que a colocação das mesmas não é deve ser feita de modo aleatório, pois pode haver necessidade de, em um determinado momento, serem tiradas as mesmas para uma força amiga poder passar. Na batalha de Kursk por exemplo, houve dias que somente em uma frente foram colocadas mais de 6.000 minas (em toda a frente de batalha passaram de centenas de milhares de minas). O mais impressionante é que isso foi limpo rapidamente quando os russos iniciaram seu contra-ataque. Em três dias, somente no setor do 11º Exército de Guardas, foram retiradas 30.000 minas antitanque e 12.000 minas antipessoal.
            A Engenharia Militar brasileira foi representada pelo 9º Batalhão de Engenharia de Combate. A 1ª Companhia deste batalhão foi à primeira unidade a entrar em contato com o inimigo. Durante o ataque a Montese, o General Mascarenhas de Moraes ao constatar, do seu observatório em Salsomorale, que a tropa reparava um trecho sob o fogo da artilharia inimiga, exclamou com entusiasmo: "esses americanos são extraordinários". Imediatamente o Cmt do 9º BECmb retrucou: "não são americanos, é a sua Engenharia, General"!
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