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A Participação do S.A.S. na Caçada aos Criminosos dos Bálcãs26/07/2013Por Gerd von Rundstedt

Após a dissolução da ex-Iugoslávia, onde a união dos vários Estados de que era composta só era possível pela mão de ferro com que Tito a mantinha, seguiram-se vários conflitos - seja por independência, seja por razões étnico-religiosas – e o que se viu foi uma série de genocídios. Houve casos de lutas por independência que duraram somente alguns dias, outros duraram meses e alguns sem lutas, como no caso da Macedônia. Porém, na maioria dos casos, houve uso excessivo de força de ambas as partes, excessos cometidos por exércitos regulares e grupos paramilitares. A onda de genocídios chegou a tal ponto que missões da ONU e OTAN foram criadas especialmente para estabilizar a situação que estava fora de controle nos Bálcãs. Dentre as missões responsáveis pela manutenção da paz e reconstrução dos Bálcãs pode-se citar:

  - UNPROFOR (Forças de Proteção da ONU), - IFOR (Forças de Implementação da Paz), - SFOR (Forças de Estabilização da Paz), - KFOR (Forças de Proteção do Kosovo), - EUFOR (Forças de Segurança Européia).  

Com o fim dos conflitos, os principais líderes dos Estados beligerantes acabaram por fugir ou tiveram seus paradeiros encobertos por alguns de seus governos. A partir daí começou uma caçada aos “genocidas dos Bálcãs”. Nesta caçada houve uma participação fundamental do SAS –Special Air Service, que foi responsável pela captura de importantes líderes sérvios e servo-bósnios. A principal missão do SAS antes dos acordos de paz foi prover a inteligência necessária para os ataques levados a cabo pela ONU às posições inimigas na Bósnia. Após os acordos de Dayton, em 1995, o SAS ficou encarregado, juntamente com Comandos de outros países da OTAN, de caçar os criminosos de guerra que seriam julgados pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) para ex-Iugoslávia, em Haia, Holanda. Na época, o comandante das forças da ONU, o General britânico Michael Rose, teve a idéia de utilizar o SAS na Bósnia. Para que não fosse impedido pela burocracia da ONU, os homens foram enviados como membros da Joint Commission Observers, para que pudessem passar todas as informações ao General Rose, além de proteger os inspetores da ONU para crimes de guerra na Bósnia. Já em 1994, Rose formou uma equipe com dez soldados do SAS a ser enviada para a cidade de Maglai, com habitantes de maioria muçulmana. A cidade estava praticamente sitiada por forças sérvias. Os homens do SAS foram para a região em um helicóptero militar da Holanda. Dias depois o SAS já levantava informações das posições sérvias, conseguindo assim que fossem dirigidos ataques aéreos da OTAN contra os sérvios estacionados ao redor da cidade. As informações foram decisivas para o enfraquecimento das forças sérvias na região e sua progressiva retirada. Após concluir suas principais tarefas nos arredores de Maglai, o SAS receberia uma nova tarefa: ser enviado a Gorazde para averiguar possíveis atrocidades contras civis muçulmanos nos arredores da cidade. Foi formada então uma equipe de sete homens, devidamente armados. Pouco antes de chegaram à região um soldado do SAS morreu quando o veículo onde se encontrava foi baleado enquanto o motorista tentava encontrar uma rota mais segura para a cidade. A primeira tarefa que o SAS teve chegando a região foi dirigir um ataque aéreo da OTAN contra blindados e artilharia sérvia. No decorrer deste ataque um Sea Harrier da Royal Navy foi derrubado por um SAM sérvio. O piloto ejetou-se, sendo recolhido por homens do SAS, que mais tarde foram resgatados por um helicóptero da OTAN que os retirou de uma zona de intensos combates. Em agosto de 1995 os homens do SAS estariam novamente em ação, incumbidos de se infiltrar nas linhas sérvias ao redor de Sarajevo para fornecer a posição exata dos blindados, artilharia e unidades antiaéreas sérvias. Isso resultou em ataques aéreos exatos, enfraquecendo as forças sérvias que já sitiavam a cidade há meses.

Ainda em 1991 o SAS já tinha feito missões como levar armas, veículos, uniformes e diversas provisões para forças croatas, para que contra balanceassem a crescente escalada sérvia nos Bálcãs e ajudando os muçulmanos na região, que estavam despreparados. Segundo informações, o armamento foi conseguido através de um negociante de armas sírio que residia em Marbella, Espanha, já que havia um embargo de armas decretado pela ONU para a região. Algum tempo depois essa ajuda teria se mostrado imprudente, já que a certa altura do conflito os croatas se voltaram contra os muçulmanos. Após algum tempo fora do TO dos Bálcãs, e após o acordo de paz, equipes do SAS foram enviadas novamente para a Bósnia, com a missão de caçar os criminosos de guerra. As forças do SAS foram designadas para caçarem todos os que fossem acusados de crimes de guerra nos Bálcãs, com foco principal nos líderes sérvios como Simo Drljaca, Radovan Karadzic, Ratko Mladic e alguns bónios-croatas. Em 09 de julho de 1997 o SAS foi diretamente inserido na chamada “Operação Tango”, que tinha como objetivo localizar e prender os sérvios Simo Drljaca e Milan Kovacevic, na região próxima a Prijedor, noroeste da Bósnia. Os homens do SAS foram levados até a região num helicóptero do 47º Esquadrão da RAF. Os procurados foram devidamente identificados e seguidos por alguns dias por patrulhas do SAS. No dia designado para prenderem Milan Kovacevic, 20 homens do SAS foram de helicóptero para o local onde Kovacevic trabalhava. O helicóptero pairou a pouco mais de 1 metro do solo, onde os homens do SAS saltaram. A equipe sabia que Kovacevic chegava em torno das 09:15 da manhã ao trabalho e, quando Kovacevic estava prestes a se apresentar ao guarda do portão da empresa os homens do SAS o abordaram e lhe deram voz de prisão, levando-o encapuzado para local incerto na época. Agora era a vez de Simo Drljaca. Simo era chefe de polícia de Prijedor e foi abordado em uma estrada longe do centro da cidade. Não foi uma rendição fácil. Conhecido por ser truculento, sacou sua pistola ferindo um soldado britânico no pé. Numa reação mais que rápida, homens do SAS atiraram nele e no seu guarda costas, matando os dois na hora. Após o sucesso parcial desta missão os homens do SAS voltam a ficar fora de cena para só retornarem em dezembro de 1997, em missão de caçar novamente criminosos de guerra. Agora dividiram tarefa com outras forças especiais internacionais, como as forças especiais Holandesas e Britânicas. Seu destino seria a cidade de Vitez, a 48 quilômetros a noroeste de Sarajevo, cuja missão era capturar Vlatko Kupreskic e Anto Furundzija, soldados bósnios-croatas. A missão foi composta por Comandos da 108ª Companhia das Forças Especiais Holandesas, levados de helicóptero até a região da cidade de Vitez. Nesta missão estariam também duas equipes do SAS, que já operavam há algum tempo na Bósnia. A primeira providência das equipes foi cortar as linhas telefônicas do local onde Kupresikic se encontrava, bem como a prisão de seus guarda-costas. Os comandos entraram pela porta da frente, detonada com explosivos. Quando Kupreskic recebeu voz de prisão reagiu, sendo ferido no braço. Logo em seguida foi encapuzado e levado de carro a local não divulgado. Já a prisão de Anto Furundzija foi mais tranquila, sendo preso quando chegava em casa à noite. Não ofereceu resistência. Tempos depois, mais precisamente no dia 20 de dezembro de 1999, uma equipe do Esquadrão “G” do SAS efetuou a prisão de Stanislav Galic, conhecido pela alcunha de "Açougueiro de Sarajevo". Stanislav Galic foi um coronel do JNA (exército Iugoslavo), acusado de ter matado cerca de 10.000 pessoas durante o cerco a Sarajevo entre 1992 e 1995. Galic foi pego quando estava indo em direção a Banja Luka, conhecido reduto servo-bósnio numa área de responsabilidade de forças inglesas. Homens do SAS, em veículos descaracterizados, cercaram o carro de Galic entre outros dois carros civis. Neste momento saltam dos carros cerca de 20 homens do SAS que rapidamente encapuzaram Galic, colocando-o numa van sem marcas ou placas. Poucas horas depois Galic estaria voando para Haia, Holanda.

Durante o cerco a Sarajevo as tropas comandadas por ele, especialmente os snipers, mataram indiscriminadamente civis, principalmente mulheres e crianças. Talvez nenhuma caçada aos criminosos de guerra dos Bálcãs tenha sido tão problemática quanto a de Radovan Karadzic. Entre 1997 e 1998 foram feitas três tentativas para prendê-lo, todas mal sucedidas. Por várias vezes o SAS recebia informações de fontes seguras, porém, às vezes, as equipes estavam empenhadas em outras missões de busca a outros criminosos de guerra. Todavia existiam equipes de sondagem que constantemente conseguiam um rastro de Karadzic. Em meados de 1997 homens do SAS chegaram pela primeira vez próximo a seu alvo, mas não conseguiram pegá-lo. Quase três anos depois, em novembro de 2000, a perseguição tinha rumo novamente na chamada “Operação Tango 2”. No fim do inverno e início da primavera homens do SAS foram deslocados para a parte oriental da República Sérvia, próximo da fronteira com Montenegro. Disfarçados como jornalistas e homens de negócios os integrantes do SAS transmitiam informações ao centro de comando, sediado na vila de Ramici, retransmitindo de lá ao centro do SAS em Credenhill, antiga base da RAF na Inglaterra. Após meses colhendo informações um plano para prender Karadzic foi montado em meados de 2001 e a unidade de operações especiais KSK (Kommando SpezialKräfte) do Exército alemão pediu para participar desta importante missão. O comando do SAS autorizou a participação alemã, mas como uma equipe de apoio à retaguarda. Membros da inteligência da Força Delta também tiveram participação nos preparativos, preocupando os membros do SAS, que acharam que a participação de tantas forças especiais de diferentes origens poderia atrapalhar o andar e o resultado da missão, além de ser um procedimento atípico pelo fato do SAS possuir uma maneira introspectiva de agir em suas missões. Havia também um “entrave” em particular: o SAS ficou receoso já que toda a operação seria feita no setor da França. O plano em si consistia no patrulhamento da região por três equipes que procurariam o esconderijo de Karadzic. Duas equipes entrariam na Sérvia para, na fronteira, pegarem armas e equipamentos e uma terceira atravessaria Celebici e Foca em direção ao esconderijo de Karadzic, que estaria escondido nas montanhas. As três equipes somavam 20 homens, os melhores de cada força especial. Um helicóptero, estacionado numa vila a 20 quilômetros, estava de prontidão para rapidamente evacuar a “mercadoria”. A equipe exaustivamente treinou planos de contingência para se fossem descobertos, pois as forças sérvias podiam ser alertadas e abrirem fogo contra os britânicos.

O comando do SAS estimava em torno de 120 homens a força de proteção de Karadzic, homens altamente treinados e com vasta experiência em combate. Um dos planos de contingência seria o lançamento de bombas incendiárias na floresta circundante ao esconderijo de Karadzic, que o obrigariam a rumar para o sentido da região de Foca onde mais de 1.000 soldados da SFOR, fortemente armados com blindados e helicópteros, o estariam esperando. O primeiro ato da missão ocorreu quando uma equipe entrou na República Sérvia, já entrando em confronto com homens de Karadzic que feriram quatro membros da equipe. A segunda equipe também entrou rapidamente em combate com os seguranças de Karadzic, tendo iguais baixas no efetivo, resultando no cancelamento imediato da missão. Karadzic conseguia mais uma vez escapar. Frente a essa situação o comando do SAS, na vila de Ramici, desconfiou imediatamente de que teria havido vazamento de informações, pois teoricamente só os ingleses deveriam saber a trajetória das equipes na missão. Na época jornais da Europa divulgaram que um capitão do exército Francês, que não teve nome revelado, teria dado um telefonema a um policial servo-bósnio, alertando-o que uma operação da OTAN começaria na cidade de Foca. Jornais europeus também divulgaram o que seria a transcrição da conversa por telefone entre o capitão francês e o policial servo-bósnio. Dias depois o primeiro helicóptero da SFOR jogou sobre a floresta, próximo ao esconderijo de Karadzic, as bombas incendiárias, enquanto um grande grupo de blindados também se deslocou para Foca. O fogo acabou sendo justificado como um incêndio causado pelo calor do verão, já que as forças sérvias não podiam saber dos planos de prisão a Karadzic. Mas, apesar disso, a missão falhou novamente e Karadzic escapou mais uma vez. Karadzic só foi pego posteriormente, quando o governo sérvio o entregou a autoridades da OTAN.

Outras prisões efetuadas pelo SAS e a SFOR:   Goran Jelisic, conhecido como o "Adolf Hitler Sérvio”, foi preso em Bijeljina, no dia 22 de janeiro de 1998. Miroslav vocka e Mladen Radic foram presos em Prijedor no dia 08 de abril de 1998. Milojica"Krle"Kos foi preso por homens do SAS, não oferecendo resistência, em maio de 1998. Stevan Todorovic, sérvio-bósnio, preso por unidades SAS e Força Delta, na Sérvia, entregue a tropas dos EUA na Bósnia, em 27 de setembro de 1998. Radislav Krstic, General sérvo-bósnio preso na Bósnia por tropas da SFOR, em 03 de dezembro de 1998. Radoslav Brdjanin, preso por unidades SAS, em Banja Luka em 09 de julho de 1999. Dragan Kolundzija, preso por tropas britânicas na área de Prijedor, Bósnia, em 07 de junho de 1999. Damir Dosen, preso por tropas da SFOR no setor britânico, em 25 de outubro de 1999, e transferido para Haia. Stanislav Galic, preso por homens do SAS devido a uma denuncia em Banja Luka, Bósnia, em 20 de dezembro de 1999. Dragoljub Prcac, preso por unidades do SAS, em Banja Luka, em 05 de março de 2000. Momcilo Krajisnik, preso por tropas da SFOR, na Bósnia, em 03 de abril de 2000. Dusko Sikirica, preso por tropas da SFOR, na Bósnia, em 25 de maio de 2000. Dragan Obrenovic, preso por tropas da SFOR, em 15 de abril de 2001. Vidoje Blagojevic, preso por tropas da SFOR, em 10 de agosto de 2001. Dragan Jokic, rendeu-se a tropas da SFOR, em 15 de agosto de 2001.  

Fontes: www.nato.int
www.un.org
www.hrw.org
www.bosniafacts.info
www.icc-cpi.int www.dw.de
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