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Creta, A Vitória desde o Céu03/09/2013 De um aeroporto nos arredores de Atenas, um grande trimotor Junker 52 eleva-se lentamente. Leva consigo uma vintena de pára-quedistas alemães e leva a reboque três grandes aeroplanos sem motor, cada um com dez homens. Seguem-no outros aviões e, por toda a Grécia, numerosas esquadrilhas dirigem-se para o Sul. E a manhã do dia 20 de Maio de 1941 e começou a Operação Merkur: a Invasão da Ilha de Creta, uma operação que permanecerá única e famosa na história militar.

Depois da conquista da Grécia por parte das tropas alemãs, o exército Inglês, deslocado da zona, tInha-se retirado para a grande Ilha que se encontra quase no meio do Mediterrâneo oriental. Na costa norte, a única planície, construíra-se três pistas de aviação, donde levantavam as esquadrilhas inglesas para bombardear os poços de petróleo de Ploesti, na Romênia. Estas Instalações eram indispensáveis para a maquina bélica Inglesa e tinham que ser defendidas a todo o custo. Além disso, em mãos alemãs, a ilha de Creta transformar-se-á numa magnífica base aérea desde a qual se poderia castigar o exército inglês na África do Norte. Era necessário, por isso, ocupar a Ilha. Naquele momento nada parecia impossível para as forças alemãs, vitoriosas em todas as frentes. Contudo, era impossível conquistar a Ilha por mar, uma vez que o Mar Egeu era dominado pela poderosa frota Inglesa. Era necessário intervir pelo ar.

Por outro lado, os pára-quedistas alemães já tinham demonstrado suficientemente o seu valor e perfeita organização em diversas operações efetuadas no inicio da guerra. Lançados desde os aviões ou aterrando em planadores, tinham conquistado pontos-chave e fortificações consideradas totalmente inexpugnáveis por qualquer exército. Tinham-se tentado efetuar missões com forcas relativamente pequenas, uma centena de homens, para completá-las depois pelos métodos tradicionais. No entanto, agora se tratava de uma operação em uma escala muito maior, que devia ser quase totalmente realizada por via aérea.

A tática das tropas especializadas apoiava-se, sobretudo, no elemento surpresa e, ao não disporem de armamento pesado, pelo menos no inicio teriam de suprir essa lacuna com uma grande mobilidade e velocidade. Com efeito, no momento do lançamento, o pára-quedista está praticamente desarmado. Cada homem estava equipado com uma pistola de 9 mm, algumas granadas e uma pequena faca para cortar as cordas dos pára-quedas. Os oficiais, os suboficiais e um soldado em cada quatro tinham, além disso, uma metralhadora. Era mesmo muito pouco, mas não podemos esquecer que, juntamente com eles, eram lançados contêineres com amortecedores que continham bombas, fuzis, metralhadoras leves, pequenos morteiros e rádios. Logo que chegavam em terra, os homens deviam recuperar os contêineres: só então poderiam considerar-se verdadeiramente armados e eficientes. Em Creta, as coisas não correram exatamente assim e, freqüentemente, a sua salvação dependeu unicamente das pistolas-metralhadoras MP 38.

Os pára-quedistas que se lançavam do avião levavam-na num coldre de tela colocado no cinto do pára-quedas; este arranjo deixava ao pára-quedista as mãos livres quando chegasse a terra, mas atrapalhava durante a manobra de pouso, causando, algumas vezes, fraturas nas costelas; quando se abria o páraquedas no momento (geralmente violento) do lançamento, o cinto apertava bruscamente a metralhadora contra o peito dolorosamente e, como se viu especialmente em Creta, durante a rápida descida, o pára-quedista não podia tIrar a arma do coldre caso necessitasse usá-la. È verdade que um homem que está pendurado a cento e cinqüenta metros de altura não pode fazer muita coisa contra quem está atirando da terra, mas a possibilidade de responder ao fogo inimigo possibilita, pelo menos, um ligeiro alivio psicológico: muitos pára-quedistas preferiram lançar-se com as metralhadoras seguradas horizontalmente com as duas mãos, mesmo correndo o risco de ter que as soltar um pouco antes de aterrar e ter que as procurar ás pressas depois! Depois da experiência de Creta, o sistema de transporte ao peito foI totalmente abandonado. Os seis carregadores, nos seus correspondentes estojos, estavam colocados na parte dafrente da cintura, ou unidos ás pernas três a três, um pouco acima das botas.

O comando alemão tinha previsto tudo até os mínimos detalhes, apoiando-se no fator surpresa. Os ingleses, no entanto,estavam á espera de um ataque pelo ar, e tinham se preparado adequadamente. Logo que apareceram os primeiros aviões sobre o campo de aviação de Maleme, na parte oeste da Ilha, um fortíssimo fogo antiaéreo confundiu as formações de Junkers, obrigando-os a largar os planadores antes do tempo, tendo sido abatidos muitos deles; alguns planadores aterraram longe, e os que conseguiram aterrar no campo de aviação foram destruídos por um intenso fogo de morteiro, com baixas muito elevadas. Até mesmo o lançamento dos numerosos pára-quedistas foi cheio de obstáculos e bastante impreciso: grande número de homens foi morto durante a descida, e muitos outros eliminados com uma facilidade incrível depois de chegarem á terra. Isso quando não caiam direto nas mãos dos ingleses. Muitos contêineres de armamento se extraviaram.Por isso, os sobreviventes encontraram-se freqüentemente em franca inferioridade diante dos neozelandeses que guarneciam o aeroporto, armados com fuzis Lee-Enfield .303, armas de longo alcance (500-600 metros) contra as quais suas metralhadoras estavam limitadas pelo alcance de 100-150 metros.

O mesmo aconteceu com o lançamento sobre a cidade de Cannea, onde não foi possível conquistar o QG neozelandês. Muitos pára-quedistas caíram num lago artificial ou no mar e afogaram-se, outros foram parar direto num quartel inimigo! Os sobreviventes conseguiram re-agrupar e ocupar um importante nó de vias rodoviárias, mas não passaram daí. Por volta de meio-dia, os quinhentos aviões de transporte tinham regressado á suas bases na Grécia: abasteceram e transportaram a segunda leva de assalto, contra os aeroportos de Heraclion e Retimo, que não puderam, no entanto, ser conquistados, apesar das elevadas baixas que sofreram. Os alemães, isolados, eram facilmente neutralizados pelos australianos, mas quando se uniam em grupos, conseguiam apoderar-se das suas armas e estabelecer comunicação, tornavam-se imbatíveis. Nos contêineres de armamento havia fuzis Mauser K-98k com mira telescópica que, nas mãos de atiradores hábeis, eram mortais; metralhadoras ligeiras modelo MG 34, igualmente eficientes. Por fim, nos planadores havia uma metralhadora especial anticarro de pequeno calibre, capaz de perfurar qualquer blindagem, por muito resistente que fosse.

Na tarde do primeiro dia, a situação era bastante comprometida para os sobreviventes dos sete mil alemães. Não se tinha alcançado nenhum dos objetivos, mas tiveram sorte, pois o general Freyberg, comandante do ANZAC IAustralian New Zealand African Corp) não contra-atacou como devia ter feito, permitindo a reorganização dos alemães. Durante a noite, tentaram desembarcar, pelo mar, uma pequena frota de barcos de pesca cheia de tropas alpinas, mas fracassaram devido á intervenção de uma frota inglesa Que, á luz dos holofotes, bombardeou e afundou a maior parte dos barcos. As baixas não foram excessivas, pois todos tinham colete salva-vidas: perderam-se 300 vidas num total de 2.300 homens. No entanto, nenhum conseguiu desembarcar em Creta..

Com as primeiras luzes da manhã, a aviação alemã, que dominava o ar, vingou-se, ao afundar numerosos navios ingleses. Na manhã do dia seguinte, desceram sobre a Ilha novas ondas de aviões e pára-quedistas, em cima da cabeça dos australianos que, contundidos, não sabiam para onde disparar. Um batalhão completo de pára-quedistas (quase 500 homens) com o seu comandante á cabeça, desceu em Maleme e ocupou a colina desde a qual os ingleses dominavam o campo de aviação. Neste ponto, o general Student, chefe da operação aérea, tomou uma decisão decisiva para a vitória. Uma vez que o campo de Maleme, ainda Que em más condições, estava em mãos alemãs, mandou aterrar aviões de transporte carregados com uma divisão de tropas alpinas com o seu armamento pesado, veículos e munições em abundancia, deixando que os sobreviventes de Heraclion e Retimo se limitassem á sobrevivência e a comprometer ao máximo os australianos. A aterragem dos Junker no campo de batalha foi heróica, e muitos aviões caíram, embora o número de baixas fosse moderado e, em poucas horas, a cabeça de ponte começou a funcionar. Era um frenético aterrar e levantar de grandes aviões que descarregavam de tudo. Entre outras coisas, foram pela primeira vez utilizadas as motos com Side-car NSU HK101, que transportavam trés homens ou uma carga de material, ou puxavam pecas de artilharia. A seguir, repeliram um contra-ataque inglês e, em poucos dias, as tropas alpinas conseguiram contatar os pára-quedistas que se encontravam em Retimo e em Heraclion, encontrando-os ainda em condições de combater.

E era o fim. No principio de Junho, toda a ilha estava nas mãos dos alemães. Uma Vitória verdadeiramente excepcional que, no entanto, examinada posteriormente, resultou terrivelmente cara. Foram utilizadas duas divisões, uma de pára-quedistas e outra alpina, num total de quase 23.000 homens. Morreram 3.200 e muitos ficaram feridos, quase todos pára-quedistas. Demasiados para a conquista de Creta! O próprio Hitler ficou tão impressionado que ordenou que os seus valentes pára-quedistas só fossem utilizados em operações especiais e onde a surpresa fosse total.

Os historiadores ingleses acreditam que esta matança do melhor das tropas alemãs, além de alguns outros elementos, contribuiu para a desistência do projeto da invasão da ilha de Malta, que deveria ter sido feita com duas divisões de pára-quedistas: uma alemã e outra Italiana, a Divisão Fulminante. Malta era muito mais importante do que Creta e estava muito mais protegida: não a ter conquistado teve, mais tarde, conseqüências importantes para a guerra no Norte da África. Em Creta, os vencedores foram os Fallschirmjaeger, mas ao mesmo tempo, foram vitimas da sua própria Vitória!

FONTE DO TEXTO: Coleção ARMAS LIGEIRAS DE FOGO, Edições Del Prado, Madrid, 1996
 
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