ARTIGOS

A Expansão Soviética03/09/2013Por Kiril Meretskov

Podemos afirmar que a Revolução Russa foi para o século XX o equivalente a Revolução Francesa foi para o século anterior. Ambas foram formidáveis movimentos de massas e idéias que deram novo perfil a História da Humanidade: transformaram a vida de milhões e empolgaram ou aterrorizaram outros tantos. Em 1921, a situação econômica estava pior que antes da revolução. A URSS, sofreu uma terrível redução de forças, mais do que qualquer outra grande potência, com a Primeira Guerra e, em seguida, com a revolução e a guerra civil. Sua população declinou de 171 milhões de habitantes em 1914 para 132 milhões em 1921. A perda de territórios envolveu também a perda de fábricas, ferrovias e fazendas produtivas. Os conflitos destruíram grande parte do que tinha restado. Sua produção industrial, em 1921, equivalia a 13% daquela alcançada em 1913. O comércio exterior desapareceu totalmente, a agricultura produzia menos da metade do registrada no período pré-guerra e o produto interno bruto declinou-se em mais de 60%. Nas cidades e nos campos havia fome e miséria. O campo não recebia fertilizantes, ferramentas nem roupas das cidades. Por sua vez, não produzia alimentos e milhares de pessoas morriam de frio, fome e epidemias. Em 1925 o Exército Vermelho foi reduzido a 562 mil soldados, um décimo de seu poderio máximo durante a Primeira Guerra Mundial.

A URSS precisava que as idéias fossem expandidas para vários outros paises e para isso era necessário um movimento internacional de trabalhadores, é defendida por Marx e Engels no Manifesto comunista, de 1848. Lenin funda a Terceira Internacional (Comintern), em Moscou. O objetivo da Terceira Internacional é apoiar a Revolução Russa e promover a revolução socialista nos outros países por intermédio de partidos comunistas centralizados e fiéis a Moscou. A ascensão de Stalin ao poder soviético, após a morte de Lenin, anula a perspectiva internacionalista do movimento socialista. Stalin assume o controle sobre a atividade dos partidos comunistas em todo o mundo e a Internacional passa a refletir as guinadas políticas da União Soviética.

Ainda assim, em meados de 1930, a União Soviética liderava no mundo na produção, planejamento e colocação em campo de forças mecanizadas. Talvez mais importante, o Exército Vermelho estava bem à frente de sua contrapartida alemã seja nos conceitos teóricos, seja na experiência prática da guerra mecanizada. Na Alemanha, Heinz Guderian e outros teóricos da arma blindada receberam somente um apoio limitado dos líderes civis e militares - as unidades panzer eram tão parte do blefe diplomático de Hitler como eram um instrumento real de guerra e seu uso não era integrado na doutrina oficial alemã. A produção de tanques tinha uma posição secundária em relação ao de aviões para a nova força aérea alemã, e aqueles tanques que foram produzidos eram geralmente destinados a unidades de apoio de infantaria e outras organizações fora do controle de Guderian. Ao mesmo tempo, o exército alemão como um todo esta somente começando a se expandir para além dos severos limites ditados pelo tratado de Versalhes. Em resumo, se os russos e soviéticos tivessem lutado em meados da década de 1930, o Exército Vermelho teria uma vantagem considerável sobre seu oponente.

Em 1939 a vantagem tinha desaparecido e o Exército Vermelho estava em desordem. Das muitas causas dessa mudança, a mais séria foi o expurgo que Stalin fez na liderança soviética. Começando em 1934, ele sistematicamente eliminou quaisquer competidores em potencial pelo poder em todo o governo soviético. Em 1934, somente o Exército Vermelho permanecia intocado.

Em maio de 1939 os japoneses tentaram conquistar a remota área do rio Khalkhin-Gol entre a Mongólia Exterior e o estado satélite japonês da Manchúria, sendo vencidos pelos russos e assinaram um tratado de paz em 15 de setembro. Khalkhin-Gol teve dois resultados importantes. Primeiro, o governo japonês decidiu que tinha subestimado seriamente os soviéticos e Tóquio partiu para outros locais, em busca de esferas de influência. Isto, no final das contas, contribuiu para o conflito com os Estados Unidos, mas também deu segurança à porta dos fundos dos soviéticos por toda a Segunda Guerra, pois o Japão absteve-se de se unir ao ataque de Hitler contra a União Soviética. Em segundo lugar, Zhukhov começou sua ascensão meteórica, levando junto com ele muitos dos seus subordinados, que mais tarde se tornaram preeminentes comandantes na guerra. Por exemplo, o chefe do estado-maior de Zhukov em Khalkhin-Gol, S.I. Bogdanov, posteriormente comandou o 2º Exército de Tanques de Guardas, uma das formações mecanizadas de elite que derrotaram a Alemanha. Khalkhin-Gol demonstrou a viabilidade da teoria e estrutura de forças soviética, mas foi apenas um ponto brilhante em um quadro geral desolador. Uma semana depois da vitória de Zhukov, o exército alemão invadiu a Polônia, começando a campanha que levaria a Alemanha e a União Soviética em contato direto e ao conflito na Europa Oriental. O Exército Vermelho estava lamentavelmente despreparado para o desafio.

Um enfrentamento entre a Alemanha Nazista e a Rússia Comunista era inevitável. Aparte da rivalidade ideológica, os dois paises também eram competidores geopolíticos. Porem em 20 de agosto de 1939, Hitler enviou a Stalin uma mensagem pedindo que a liderança soviética recebesse o Ministro das Relações Exteriores, Joachim von Ribbentrop, antes do dia 23 de agosto. Ribbentrop voou para Moscou e rapidamente concluiu um acordo de não-agressão que foi anunciado a um continente estupefacto em 24 de agosto. O Pacto Molotov-Ribbentrop prometia publicamente amizade, mas secretamente dividia a Europa Oriental em esferas de influência. A Alemanha iria ocupar a Polônia ocidental e central. Em troca, a União Soviética teria uma posição dominante nos Países Bálticos e controlaria a Polônia a leste dos rios Bug e San. Nenhum lado esperava que este acordo durasse indefinidamente, e o pacto não impedia o aliado alemão, o Japão, de desafiar a União Soviética na Ásia, como descrito anteriormente. Ainda assim, Berlim e Moscou ficaram livres de suas preocupações imediatas a respeito de um conflito em duas frentes e podiam se concentrar em digerir os espólios de cada um antes de retornar ao seu antagonismo de longa data. Para Hitler o pacto representava bem a seguinte declaração - “O Pacto, senhores, é apenas um meio de ganhar tempo... esmagaremos a União Soviética”.

A rápida queda da Polônia em 1939 causou um sério problema para os russos que tiveram que reunir tropas rapidamente para poder ocupar a área que lhes cabiam. Em 14 de setembro, tropas russas atravessaram a fronteira polonesa. Durante a primavera de 1940, 14.500 oficiais, cadetes e sargentos poloneses capturados foram executados e enterrados em covas coletivas em Katyn e outros locais dentro da União Soviética. Apesar de Moscou posteriormente ter culpado os invasores alemães, esse massacre foi obra de Stalin e da NKVD. Entre 28 de setembro e 10 de outubro de 1939, Moscou forçou a Estônia, Letônia e Lituânia a assinar acordos de assistência mútua. Os três governos concordaram em permitir bases navais, aéreas e de artilharia de costa soviéticas em seus territórios. Também prometeram apoiar uns aos outros em caso de ataque e a não participar de alianças dirigidas contra a União Soviética ou a outros signatários. Em troca, Moscou devolveu a cidade de Vilnius do controle polonês para o lituano. Isso foi uma vitória para a Rússia que em dezembro de 1939 quase foi derrotada pela pequena Finlândia durante a Guerra de Inverno, a guerra começou justamente porque as imposições russas não estavam sendo aceitas pelos finlandeses que era ceder territórios e permitir a instalação de bases navais. Em 9 de março, o general Heinrichs, o comandante das forças finlandesas no istmo, reconheceu que suas tropas estavam no fim de sua resistência. Um armistício começou a vigorar no dia 13 de março. Moscou não tinha conseguido obter a anexação total da Finlândia, mas ganhou mais território do que tinha exigido inicialmente.

No geral, as ações soviéticas nos Estados Bálticos irritaram e preocuparam o governo alemão, mesmo se eles estando dentro do disposto no Pacto Molotov-Ribbentrop. Esta sentimento de preocupação aumentou no final de junho de 1940, quando Moscou forçou a Romênia a ceder duas províncias, Bessarabia e a Bukovina setentrional, na área que agora é a Moldávia. Estas duas últimas anexações pareciam ameaçar as fontes de petróleo alemães na Romênia. A trégua entre Berlim e Moscou estava deteriorando-se rapidamente. Durante o verão de 1940, enquanto mantinha as aparências de obediência ao Pacto Germano-Soviético, a Alemanha ocupou a Romênia e a Bulgária com tropas eufemisticamente chamadas de “missões militares” e depois invadiu abertamente a Iugoslávia e a Grécia. Seguiram-se protestos russos contra a infiltração, com objetivo de posse, de forças alemãs nos Bálcãs. Ao invocarem os russos a cláusula do Pacto que exigia “consulta em questões de interesse comum”, Ribbentrop respondeu - não sem alguma justiça - que eram ilegítimas as alegações soviéticas, pois com a ocupação da Bessarábia, os russos revogaram o Pacto. Em 22 de junho de 1941 foi disparado o gatilho da Barbarossa, nome da operação alemã que pretendia destruir a Rússia.
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