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Tratados Navais Pré Guerra02/09/2013Por Walter Dornberger*

Tratado Naval de Washington


O Tratado Naval de Washington, assinado em Washington, DC, em 6 de fevereiro de 1922, limitava o poderio naval de seus 5 signatários, Estados Unidos, Império Britânico, França, Itália e Japão.

Abrindo algumas exceções para navios em uso e em construção, o tratado limitava a tonelagem total dos navios principais de cada um dos signatários. A US Navy e a Royal Navy estavam limitadas a 525.000 toneladas, a Marinha Francesa e Italiana limitadas em 175.000 toneladas, e a Marinha Japonesa em 315.000 toneladas. Nenhum navio individual poderia exceder 35.000 toneladas, e nenhum navio poderia montar armas acima de 16 polegadas (406mm) de calibre.

Porta-aviões eram regulados especificamente: a tonelagem total de porta-aviões dos Estados Unidos e do Império Britânico estava limitada a 135.000 toneladas, França e Itália em 60.000 toneladas, e o Japão em 81.000 toneladas. Apenas dois porta-aviões por nação poderiam exceder 27.000 toneladas, e esses dois estavam limitados ao máximo de 33.000 toneladas cada. O número de canhões principais por porta-aviões era severamente limitado - para evitar que um encouraçado, equipado com algumas aeronaves, fosse classificado como porta-aviões.

Quanto a bases navais e fortificações, os Estados Unidos, o Império Britânico e o Japão concordavam em manter o status quo existente no momento da assinatura. Novas bases e fortificações estavam proibidas. e as existentes não poderiam ser ampliadas nos territórios e possessões. No geral, as bases localizadas em solo pátrio estavam isentas de regulamentação, mas não as localizadas em ilhas fronteiriças. Os Estados Unidos poderiam construir no Hawaii e Alaska, mas não nas ilhas Aleutas. A Inglaterra poderia construir na Austrália e Nova Zelândia, mas não em Hong Kong. O Japão tinha liberdade nas ilhas de seu arquipélago, mas não em Formosa.

Em 29 de dezembro de 1934. o governo japonês declarou sua intenção de renunciar ao Tratado. Após o final de 1936, o Tratado expirou e não foi renovado.

EFEITOS.

Na Europa, o Tratado mudou o planejamento de construção das forças navais para seus signatários. Quase todas as forças construíram novos desenhos do tipo "cruzadores pesados", simultaneamente poucos encouraçados foram planejados. Ao invés disso, a conversão extensiva de cruzadores e encouraçados existentes fez com que as frotas da Segunda Guerra fossem formadas primariamente de navios da Primeira Guerra modernizados. Numerosas tentativas foram feitas de se desenhar um novo tipo de encouraçado que se adequasse às limitações do Tratado. A necessidade de incrementar a blindagem e o poder de fogo mantendo uma baixa tonelagem dentro do limite de Washington resultou em novos modelos como a classe Nelson britânica e a Richelieu francesa.

No geral, a eficácia de um navio é decorrente de sua velocidade, blindagem e armamento. O peso é determinado pelo comprimento do navio, que se relaciona diretamente com a velocidade. Cada nação usou uma abordagem diferente para contornar as limitações impostas. Os americanos usaram caldeiras mais potentes para obter maiores velocidades em barcos menores. A Alemanha apostou em novos aços de maior dureza para melhorar a blindagem com menor peso. A Grã-Bretanha desenhou navios que poderiam ter a blindagem reforçada em caso de guerra. A Itália simplesmente mentiu sobre a tonelagem de sua frota.. O Japão renunciou ao Tratado em 1936, e continuou seu programa de construções em andamento, colocando armas de 18.1 polegadas (460mm) nos encouraçados da classe Yamato.

Poucas marinhas européias operavam muito distantes de suas costas, e assim havia pouco interesse na construção de porta-aviões. Alemães, franceses e italianos não se decidiram por esse tipo de navio até as vésperas da guerra, com nenhum resultado prático. A Royal Navy, executando operações de longo alcance em apoio ao império, era a pioneira nesse tipo de navio e prosseguiu com sua construção. Antes de 1920, previamente ao Tratado, e o começo da Guerra, os ingleses construíram seis novos porta-aviões de várias classes. Os Estados Unidos tinham sete porta-aviões no início da Guerra, incluindo o pioneiro CV-1 Langley. O Japão tinha 10 porta-aviões no início do conflito.

Os efeitos do Tratado nos Estados Unidos não poderiam ter sido mais diferentes. O Tratado, associado ao dano feito na Frota do pacífico em Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941, foi a causa principal da conversão da Marinha Americana de uma frota baseada em encouraçados para uma esquadra de porta-aviões.

Os Estados Unidos tinham ultrapassado os limites permitidos quando o Tratado foi assinado, e tiveram de desarmar ou descomissionar vários navios antigos para cumprir as especificações. No entanto, o único porta-aviões na frota americana era o CV-1 USS Langley, de 11.500 toneladas, um mercante convertido. Como os porta-aviões tinham uma tonelagem em separado pelo Tratado, e o Langley (considerado um navio experimental) não foi incluído no cálculo da tonelagem, a US Navy estava liberada para construir porta-aviões.

Em 1920 o Departamento da Marinha tinha em baixo conceito a aviação naval apesar de (ou por causa de) Billy Mitchell, que em 1921 tinha conseguido afundar o encouraçado alemão Ostfriesland usando bombardeiros da Força Aérea do Exército americano. No entanto, nos termos pelo Tratado, dois cruzadores recém construídos, o USS Lexington (41.000 toneladas) e o USS Saratoga (33.000 toneladas), teriam de ser descartados. Eles foram convertidos em porta-aviões (CV-2 e CV-3 respectivamente), embora essa escolha tenha sido considerada apenas ligeiramente melhor do que sucateá-los!

Em 1931, os Estados Unidos estavam ainda dentro dos limites do Tratado relativos aos porta-aviões. O USS Ranger CV-4, de 14.500 toneladas, foi o primeiro porta-aviões americano desenhado especificamente como tal. Nenhum outro tipo de navio poderia ser construído sem violar a tonelagem acordada e a Marinha começava a absorver as lições daqueles primeiros quatro navios no desenho de outros dois. Em 1933 o Congresso aprovou o pacote de leis conhecidas como "New Deal", proposto pelo presidente Franklin Roosevelt, o qual incluía US$ 40 milhões para a construção de dois novos porta-aviões: o CV-5 USS Yorktown e o CV-6 USS Enterprise, ambos de 19,800 toneladas. A frota de porta-aviões americana agora totalizava 128.100 toneladas e assim se manteve até a renúncia japonesa ao Tratado em 1936. Então a US Navy já tinha superado sua antipatia contra os porta-aviões e a quilha do CV-7, USS Wasp, de 14.700 toneladas, começou a ser batida em 1 de abril de 1936.

TRATADO NAVAL DE LONDRES

O Tratado Naval de Londres foi um acordo entre o Reino Unido, Japão, França, Itália e Estados Unidos, assinado em 22 de abril de 1930, com a finalidade de regular a guerra submarina e limitar a construção naval militar. Era uma extensão do Tratado Naval de Washington e sua denominação oficial era “Tratado para Limitação e Redução de Aemamento Naval”. Continuava as negociações da Conferência Naval de Genebra de 1927 que não conseguiu chegar a um acordo devido à hostilidade dos outros participantes contra os governos britânico e americano. Os signatários concordaram em não construir nenhum navio capitânea até 1937. Um número de navios já existente deveria ser sucatado. Nenhum navio existente poderia ser convertido em porta-aviões. A construção de submarinos ficava limitada a vasos de 2.032 toneladas. A tonelagem total de cruzadores (divididos em cruzadores pesados com armas acima de 6.1 polegadas/155mm e cruzadores leves com canhões abaixo desse limite), destróieres e submarinos a ser construída até 1937 estava limitada por cotas de tonelagem em cada categoria.

Os artigos relativos à guerra submarina decretavam que a lei internacional aplicada a ela era a mesma que regulava os navios de superfície. Mesmo navios mercantes que não demonstrassem “persistente recusa a parar” ou “resistência ativa” não poderiam ser afundados sem que a tripulação e passageiros fossem primeiro colocados em um “lugar seguro”.

SEGUNDO TRATADO NAVAL DE LONDRES

A Segunda Conferência Naval de Desarmamento de Londres se iniciou na Inglaterra em 9 de dezembro de 1935. Dela resultou o Segundo Tratado Naval de Londres, assinado em 25 de março de 1936.

Os signatários foram os governos da França, Inglaterra e os Estados Unidos da América. O governo japonês, signatário do Primeiro Tratado Naval de Londres, se retirou da conferência em 15 de janeiro. A Itália também declinou de assinar o tratado devido á hostilidade pública em relação à invasão da Abissínia.

A conferência se destinava a limitar a corrida armamentista naval até sua expiração em 1942. A ausência do Japão (uma potência naval global) evitou o acordo quanto à limitação do número de belonaves. O Tratado deveria limitar o tamanho dos navios e calibres de canhões navais dos signatários. Por exemplo, submarinos não poderiam exceder as 2000 toneladas ou ter um armamento de canhões superiores a 5.1 polegadas, cruzadores estavam restritos a 8000 toneladas ou menos e navios capitâneas estavam restritos a 35.000 toneladas e canhões de 14 polegadas.

O ACORDO NAVAL ANGLO-GERMÂNICO

O Acordo Naval Anglo-Germânico foi assinado entre a Inglaterra e Alemanha em 18 de junho dee 1935. Apesar das determinações do Tratado de Versalhes, o acordo negociado por von Ribbentrop permitiu à Alemanha aumentar o tamanho de sua marinha para um terço do da Royal Navy. Simultaneamente, a Inglaterra concordava em retirar sua Marinha do Mar Báltico completamente, fazendo da Alemanha a potência naval dominante na região. O próprio Adolf Hitler, deliciado, declarou em particular: “A Grã-Bretanha de fato renunciou á sua influência naval no Báltico, uma garrafa que nós alemães podemos fechar. Os ingleses não podem exercer qualquer controle lá. Nós somos os senhores do Báltico.” O Times de Londres noticiou que “a esquadra alemã está à partir de agora em completo domínio do Báltico. Cada nova unidade adicionada à frota alemã faz a posição sueca (e das outras nações da região) cada vez pior... mesmo antes de 1914 a situação era melhor, uma vez que as esquadras russa e alemã estavam em equilíbrio”.

IMPACTO. O Acordo Naval Anglo-Germânico facilitou o controle por parte da Marinha Alemã do trafego naval no Báltico, incluindo a navegação através do Golfo de Bothnia, por onde passava o minério de ferro importado da Suécia pela Alemanha. Com 50% do suprimento alemão de ferro vindo dessa fonte, o controle sobre essa rota era de importância estratégica para o esforço de rearmamento alemão. O Almirante Raeder, comandante da Marinha alemã, declarou que “seria impossível ir à guerra sem que a Marinha tivesse como assegurar o suprimento de minério de ferro da Suécia”.

Quando da assinatura do Acordo Naval Anglo-Germânico, a Dinamarca tinha a capacidade de controlar o tráfego naval pelo Báltico, porém com a invasão da Dinamarca e Noruega (Operação Weserünbung, 19 de abril de 1940), a Alemanha adquiriu controle total sobre o Báltico, devido à retirada voluntária da Royal Navy daquelas águas: uma verdadeira “garrafa” que os alemães poderiam fechar à vontade. Sem a ausência britânica garantida pelo Acordo, a impossibilidade alemã de assegurar o suprimento de ferro da Suécia através do Golfo de Bothnia teria comprometido os planos de guerra germânicos. A superior Marinha britânica teria a capacidade de engajar a menor força naval alemã, expondo-se porém ao alcance da Luftwaffe,o que mudaria completamente a feição da guerra naquele teatro.

A expansão do poder naval alemão garantida pelo Acordo Naval Anglo-Germânico representou uma séria ameaça às nações do Báltico, particularmente à Suécia e aos estados bálticos da Letônia, Estônia e Lituânia. Isso forçou algumas dessas nações a seriamente reconsiderar suas políticas.
 
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