ARTIGOS

Massacre de Nemmersdorf24/02/2017por Wilhelm Keitel - originalmente postado no blog Segunda Grande Guerra


     Entre os dias de 21 e 22 de outubro de 1944 acontecera aquilo que se tornara símbolo de crueldade e impunidade e que viera a se repetir até o final da guerra no Front Europeu: O Massacre de Nemmersdorf.
     Desde a derrota alemã em Stalingrado, nos meses iniciais de 1943, o Exército Vermelho começava seu avanço rumo a capital do III Reich. No povoado de Nemmersdorf, a sudoeste de Gumbinnen, na Prússia Oriental, tal como a grande maioria dos povoados a leste do território alemão, iniciara uma massiva onda de migrações, uma tentativa de fugir das barbáries cometidas pelos soldados soviéticos. Caravanas de fugitivos, retirantes e comboios de transporte militar congestionavam-se junto a ponte sobre o rio Angerapp.
     Às 6 horas do dia 21 de outubro de 1944 iniciou-se o ataque soviético ao local. Apoiados pela artilharia, os primeiros soviéticos passaram a ponte às 07h30min. O vilarejo era defendido por pouco mais de duas dezenas de soldados, sendo que sua maioria eram cidadãos voluntários da Volkssturm. Ao inicio dos combates, 14 moradores refugiaram-se num abrigo. Em seguida este abrigo foi invadido por soldados soviéticos em busca de proteção contra uma esquadrilha de caças alemã, que vieram como reforço as tropas sob ataque. Após amainarem-se os combates, os soldados ordenaram o abandono do abrigo, para em seguida abrir fogo indiscriminadamente contra as pessoas: crianças, mulheres e idosos. 
     Apenas uma mulher sobreviveu. Em depoimento, ela conta sobre o ocorrido: 

“De repente ouvi gritos e dois soldados do exército vermelho trouxeram cinco garotas. O comissário ordenou a elas que vestissem roupas listradas. Nós caminhamos através do pátio, para a cozinha de uma antiga fábrica. Lá, alguns russos estavam sentados, que faziam observações aparentemente muito obscenas, pois cada palavra dita era recebida com riso alto. Chegaram então mais duas jovens aos prantos. Os soldados as fizeram se curvar, com golpes que pareciam ter rachado as articulações delas. Eu quase desmaiara ao ver quando um russo puxou a faca e com um corte, arrancar o seio direito diante dos olhos de todos. Ele fez uma pausa em um momento, então cortou o outro lado. Eu nunca ouvi alguém gritar de tanta dor e desespero como aquela garota. Após esta ‘operação’, ele esfaqueou a jovem, na altura do abdômen, que por sua vez foi acompanhado pelos risos dos russos.. A outra jovem estava gritando por misericórdia, mas em vão. Ela era muito bonita, fiquei com a impressão de que ela fez um trabalho sinistro com a boca. Mesmo implorando por uma morte rápida, acabou por sofrer o mesmo destino. Isso ocorrera com todas as jovens que ali estavam. A última garota era pouco mais velha que uma criança, que não havia desenvolvido nenhum volume corporal. Eles rasgaram a carne, literalmente, até que os ossos brancos de suas costelas viessem à luz. Depois disso corri, mesmo quando minhas pernas começaram a falhar. Na vila, os russos liquidaram grupos inteiros de garotas com cassetetes depois que eles tinham levado uma jovem muito bonita para a sala de tortura. O ar estava cheio com os gritos, de morte de muitas centenas de meninas. Mas dado o que ocorreu naquele lugar, o homicídio fora quase humano. Foi um terrível fato que nenhuma garota torturada tenha perdido a consciência. Cada uma sofreu a mutilação conscientes. Todos eram iguais quanto ao horror, sempre foi o mesmo, os gritos por clemência, o grito alto quando eram mutiladas, o grito e o gemido enquanto eram estupradas e o silêncio da morte. Várias vezes os assassinatos eram interrompidos para que se amontoassem os corpos. À noite, eu caí em uma forte febre nervosa, quando ainda estava escondida. A partir daí, todas as memórias falta-me, até que eu acordei num hospital de campanha.”.

     No dia 23 de outubro de 1944, as forças da Wehrmacht já haviam retomado a posse do vilarejo e se depararam com um verdadeiro inferno. Em registro, o Major-General da 4ª Armada Erich Dethleffsen relata: “Quando em outubro de 1944 formações russas romperam a Front) alemão na região de Groß-Waltersdorf e avançaram temporariamente até Nemmersdorf, soldados soviéticos fuzilaram civis em grande parte dos povoados ao sul de Gumbinnen - em parte com torturas como encravar a vítima no portão do silo. Praticamente todas as mulheres foram violentadas. Também foram fuzilados pelos soviéticos em torno de 50 prisioneiros de guerra franceses. Os referidos povoados, após 48 horas voltaram novamente ao domínio alemão. O inquirimento de testemunhas, relatórios médicos das necropsias e fotografias dos cadáveres foram me apresentados poucos dias após”.
     Durante o Julgamento de Nürnberg, foram apresentados pelos alemães os crimes de guerra cometidos em Nemmersdorf e em outras cidades alemãs, inclusive Berlim. Os acusadores aliados assimilaram a versão soviética, por conveniência ou por estarem totalmente imbuídos da propaganda anti-alemã de forma a desconsiderarem qualquer possibilidade de acusação contra o Exército Vermelho. Os relatórios e protocolos da comissão internacional de investigações desapareceram ou foram eliminados ou perdidos, somente sobraram algumas fotos.
     Depois de 1991 e da queda da União Soviética, novas fontes de registros militares russos foram disponibilizados para os estudiosos. O Historiador Bernhard Fisch, um nativo da Prússia Oriental que tinha servido como soldado da Wehrmacht durante a guerra e esteve em Nemmersdorf poucos dias depois desta ter sido re-tomada registrou em seu livro de 2003, Nemmersdorf 1944 - nach wie vor ungeklärt (Nemmersdorf 1944 - o que realmente aconteceu na Prússia Oriental), Fisch incorporou material a partir de arquivos russos recentemente disponíveis e declarações das muitas testemunhas de ambos os lados, incluindo o general soviético Kuzma N. Galitsky, ex-comandante do 11º Exército de Guardas. Fisch documentou 23 homicídios de civis na Nemmersdorf e outros 38 em aldeias vizinhas, deixando dez mortes inexplicáveis. Sir Ian Kershaw está entre os historiadores que acreditam que as forças soviéticas cometeram um massacre em Nemmersdorf. Os Arquivos Federais Alemães (Bundesarchiv) contêm muitos relatos contemporâneos e fotografias por parte de funcionários da Alemanha nazista de vítimas do massacre Nemmersdorf. Ele também possui evidências de outros massacres soviéticos na Prússia Oriental, como em Metgethen. No final do século 20, Alfred de Zayas entrevistou inúmeros soldados alemães e oficiais que tinham estado na área de Nemmersdorf em outubro de 1944, para saber o que eles viram. Ele também entrevistou prisioneiros de guerra belgas e franceses que estiveram na área e fugiram com os civis alemães antes do avanço russo. De Zayas incorporou essas fontes em dois livros que escreveu, Nemesis em Potsdam e A Terrible Revenge.
 
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