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O Antissemitismo Legalizado no Estado Novo20/01/2017por Wilhelm Keitel - originalmente postado no blog Segunda Grande Guerra

Antes de abordar os fatos ocorridos durante o regime de Getúlio Vargas, é necessário um pequeno retrospecto quanto à vinda dos judeus ao Brasil. Nos anos finais do século XIX, muitos judeus se viram na necessidade de fugir de seus países de origem devido a um maciço ataque contra minorias étnicas de toda a Europa Oriental, ocorrendo de forma mais expressiva na Rússia Czarista, governada pelo czar Alexandre III. Sendo denominado Pogrom, esses movimentos de extrema violência consistiam em destruir casas e estabelecimentos comerciais, além da pilhagem e do assassinato de pessoas consideradas inferiores. O Pogrom russo perdurou para além do período monárquico, tendo espaço no século XX, na já instituída União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, governada por Josef Stalin.
Com o auxílio de uma rede institucional de ajuda mútua, que compravam terras em países do ocidente a fim de criar assentamentos, milhares de judeus vieram para o continente americano, como na América do Sul, aonde vieram para países como a Argentina e Brasil. Esses imigrantes acabaram por exercer papéis completamente diferentes do que eram exercidos em seu seus países de origem. Na América do Sul, grandes extensões de terra foram compradas, entre o estado do Rio Grande do Sul e a Argentina, aonde os judeus vieram a empregar atividades de agricultura. Vale destacar que nessa época, o governo brasileiro colaborou com a vinda desses imigrantes, situação que começara a mudar já nas primeiras décadas do século XX.
Após a Primeira Grande Guerra e a Revolução Russa, os judeus advindos da Europa Oriental que emigravam para o Brasil destinavam-se, além das colônias agrícolas no Rio Grande do Sul, para os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, aonde assumiram posições econômicas mais altas. As demandas da economia brasileira por atividades industriais e comerciais ajudavam os judeus a ascenderem a posições de segurança econômica; e tal possibilidade de ascensão residia no pequeno comércio e na indústria têxtil, e não na agricultura (LESSER, 1995, p.44/45).
Esse destaque na sociedade aliado as diferenças culturais e religiosas serviu de holofote para que os intelectuais da época começassem a questionar e rever as políticas governamentais que deixavam tão abertas as fronteiras para esses imigrantes. Esses questionamentos serviram, por seu turno, como uma máscara para discursos racistas e intolerantes. Esperava-se, com a vinda desses imigrantes, que estes servissem de reforço para que se conseguisse salvar a economia agrícola do Brasil. Porém, com a crise de 1929, ficou evidente que isso não iria acontecer. Os judeus que chegavam ao Brasil se estabeleciam nos centros urbanos e empregaram aquilo que já faziam em seus países de origem, com trabalhos no comércio e na indústria. Preocupados com o fato de estrangeiros estarem ocupando vagas importantes no mercado de trabalho, que estava conturbado devido à crise, a elite brasileira passou a criticar e a criar certo desprezo pelos imigrantes de origem judaica. Viam os imigrantes como concorrentes dos trabalhadores brasileiros ou como seres improdutivos, exploradores da mão-de-obra e da riqueza pertencentes, supostamente, aos brasileiros natos. Outro fato relevante foi que o século XX no Brasil ficou marcado por um forte espírito de nacionalismo, ao passo que tentava-se criar uma identidade exclusiva dos brasileiros, desvinculada dos seus colonizadores. Isso acabou piorando a situação dos imigrantes, principalmente os de origem judaica, pois o movimento nativista brasileiro espalhou, junto com o espírito nacionalista, os ideais antissemitas, muito semelhantes aos que ocorreram na Europa, sendo reforçado pelos partidos nazifascistas que ganhavam mais força a cada dis, desde o início da década de 30.
Chegamos agora ao período do estabelecimento do Estado Novo e da ditadura de Vargas.  As principais características desse regime, instituído em novembro de 1937, eram o forte nacionalismo, o anticomunismo, além do autoritarismo característico de uma ditadura. É notório que Vargas usou como argumento para o cancelamento das eleições daquele ano e a instauração de seu regime o fato de um possível e iminente golpe comunista, denominado plano Cohen. Esse alarde gerou forte comoção popular, que por medo desse tal golpe, aceitaram sem resistência as vontades de seu até então presidente. Paralelo a isso, as elites políticas da época acreditavam que os estrangeiros eram portadores das ideologias anarquistas e comunistas, um mal externo que necessitaria ser removido. Esse pensamento fora agravado após a insurreição comunista ocorrida dois anos antes. No período do Estado Novo, os judeus foram proibidos de fazer manifestações culturais que não se expressassem na língua nacional, assim como reprimidas quaisquer ameaças à formação da “raça brasileira”.
Cabe destacar também o fato do governo fascista de Vargas comungar de forma demasiada com o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, e principalmente com o Partido Nacional Fascista italiano. A estrutura sindical estabelecida por Vargas, por exemplo, foi inspirada na Carta Del Lavoro, vigente na Itália de Mussolini, assim como as técnicas de propaganda do Estado Novo foram moldadas nos trabalhos do Ministro da Propaganda do III Reich, Joseph Goebbels.
Malgrado, Getúlio Vargas sempre foi muito prudente quando ao seu posicionamento fascista, preocupado com a repercussão de seus atos para com a potência norte-americana. Para tal, Vargas preocupou-se em disfarçar seu autoritarismo, defendendo abertamente os ideais da democracia.  Apesar disso, Getúlio continuava respirando os ares fascistas da Europa. Inclusive, juntamente com a outorga da nova constituição, proibiu-se a concessão de vistos aos judeus e a outras minorias étnicas por meio de uma série de decretos e circulares secretas que se estenderam especialmente pelo período de 1938 e 1940. Os historiadores chegaram num consenso de que tudo isso fora resultante de dois fatores: a influência crescente de critérios nacionalistas e raciais na regulação da política imigratória adotada pelo governo, onde fora criado um conselho que vistoriava e controlava a imigração e colonização e também a grande perseguição aos judeus na Europa.
Apesar das políticas antissemitas de Vargas, muitos imigrantes judeus vieram a se instaurar em solo brasileiro. É possível citar a possibilidade de que apesar de “indesejáveis”, eram bem-vindos todo aquele que viesse munido de capitais, habilidades mercantis e capacidade intelectual para se inserirem no tão desejado processo de modernização do país.  Isso é justificável, pois apesar de fascista, Vargas vagava também sobre características capitalistas e estava disposto a fazer o necessário para que se realizasse a modernização da indústria e o crescimento econômico brasileiro.  Essa disposição fez também com que, em agosto de 1942, o Brasil finalmente declarasse guerra às potências do Eixo, para em troca receber o financiamento da construção da Companhia Siderúrgica Nacional, entre outras modernizações advindas do capital norte-americano através da série de acordos conhecidos como Acordos de Washington. Com a entrada do Brasil na Segunda Grande Guerra, a queda do III Reich e posteriormente a queda do regime ditatorial de Vargas, o Brasil passou a se abrir cada dia mais para imigrantes, de inúmeras nacionalidades e etnias.
Em suma, mesmo com o pensamento antissemita de uma grande parcela da população brasileira, de dispositivos legais que estabeleceram o controle da imigração de judeus e da política governamental com viés fascista, o Brasil não chegou a adentrar no hall dos países inteiramente antissemitas europeus, como a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini, que vieram a perseguir e matar milhares de pessoas. Até porque havia uma grande diferença na forma que se estabeleceu esse antissemitismo, no qual o regime Nacional-Socialista, por exemplo, partia da política segregacionista, ao passo que, no Brasil, partia-se do princípio da assimilação cultural e étnica, mais adequada à cultura de miscigenação presente no país.     Referências:   - LESSER, J. O Brasil e a questão judaica. Imigração, diplomacia e preconceito. Rio de Janeiro: Imago, 1995. Ramos, Artur. O problema psico-sociológico do judeu. In: Zwerling, U. (org.). Os judeus na história do Brasil. Rio de Janeiro, Uri Zwerling, 1936. - Cohen, Esther. O governo federal e o Partido Nazista no Brasil. Universidade Federal Fluminense, 1988. (Dissertação de Mestrado.).
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