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Genocídio Armênio durante a Primeira Guerra Mundial20/01/2017por Gerd Von Rundstedt
 
Caravanas da morte, execuções sumárias e fuzilamentos; adversidades pelas quais o povo armênio – já conhecido por sua sofrida história de vida – passou durante um dos piores períodos da história: a Primeira Guerra Mundial.

Com a Primeira Guerra Mundial em andamento, o Império Turco tinha os alemães como aliados, que então lutava contra os países da chamada Tríplice Entente: França, Rússia e Inglaterra como integrantes. As tensões no mundo já eram grandes o suficiente, quando o Império Turco – alegando estarem os Armênios colaborando com as tropas da Entente – resolveu mais uma vez oprimir o povo armênio.

Com o desmoronamento continuo do Império Otomano a partir do início de 1800, nações cristãs dos Bálcãs deram início à libertação do jugo turco, tais como: Grécia (1829); Montenegro (1851); Romênia (1856); Sérvia e Bulgária em 1878. A partir daí a chamada Questão do Oriente tomou corpo. Com a visível fragilidade do Império Turco, as grandes potencias aspiravam ao controle do Bósforo e Dardanelos, pois era considerado caminho vital para as ligações entre toda a região do Mar Negro. Neste contexto, a Questão Armênia era parte da Questão do Oriente, pois o povo armênio exigia um tratamento justo diante de um governo que julgavam ser corrupto e déspota para com eles. Dentre as exigências que os Armênios tinham para com o Império Otomano, uma delas era de que o império proporcionasse segurança contra as tribos curdas, que de certa maneira eram mantidas com impostos recolhidos dos próprios armênios pelo império.

O império tinha uma preocupação maior do que a de barrar os ataques curdos contra os armênios, que era evitar que uma flexibilidade maior para com os armênios cristãos pudesse resultar na perda da Armênia como havia acontecido com os outros países cristãos nos Bálcãs. Para os líderes turcos otomanos, a única maneira de compensar os territórios perdidos com o passar do tempo era expandir para leste e estabelecer um império turco puro, muçulmano, reunindo todos os povos turcos da Ásia Central. Porém existia um obstáculo no meio do caminho: a Armênia cristã não turca.
O Império Otomano, já no início do século 19, tentando homogeneizar a região, colocou em prática uma espécie de “Otomanizacao” e “Turcomenizacao” dos Armênios. De início o plano parecia dar resultado, com a assimilação forçada e conversões de minorias, mas quando as coisas não estavam dando os resultados com a rapidez suficiente o império chegou à conclusão de que deveria partir para algo mais “prático”: os massacres e perseguições.
Já nos primeiros massacres promovidos pelos turcos contra os armênios entre os anos de 1894 e 1896, relata-se que mais de 150.000 armênios tenham sido assassinados e outros 100.000 tenham deixado suas residências em virtude direta ou indireta das investidas dos turcos. Durante estas primeiras perseguições mais severas, meio milhão de armênios foram colocados em estado de extrema pobreza em consequência do confisco de seus bens pelos turcos e curdos.

As piores atrocidades cometidas pelos turcos contra os armênios começaram a ocorrer após a chegada ao poder – através de um golpe – do Comitê do Partido Político Turco de União e Progresso (Ittihad ve terakki), conhecido no ocidente como Jovens Turcos. O novo governo pretendia usar o andamento da Primeira Guerra Mundial como pretexto para acabar de uma vez por todas a Questão Armênia, alegando estarem os armênios colaborando com a Tríplice Entente. No dia 21 de fevereiro de 1914, Comitê do Partido Político Turco de União e Progresso ordena o boicote comercial, financeiro e industrial dos armênios dentro do Império Otomano, para assim enfraquecer ainda mais seus inimigos. Os otomanos temiam os armênios por sua capacidade intelectual e tino comercial. Como quase 60% da atividade econômica do Império Otomano estava concentrada nas mãos dos armênios, isso era apenas mais um motivo para os turcos os odiarem.

Parecendo a administração otomana ter perdido o bom senso, em agosto de 1914 resolve recrutar armênios para engrossar suas fileiras nas forcas armadas. Porém essa manobra tinha um propósito bem definido: eliminar a população masculina apta para combater e futuramente formar uma resistência armênia, e deixar desprotegidas as vilas. Uma vez que o núcleo comercial e cultural armênio já fora neutralizado, esse passo dos turcos se mostrou muito inteligente e de grande valia. Assim sendo, todos os Armênios de sexo masculino, com idade entre 20 e 45 anos – que logo em seguida extendeu-se aos 60 anos – foram recrutados. A população armênia agora era composta apenas de mulheres, crianças e homens com mais de 60 anos. Houve muitos relatos de mulheres armênias violentadas e vendidas a haréns turcos e curdos. As que não foram assassinadas por se recusarem a serem escravas acabaram cometendo suicídio devido à situação de miséria a que foram jogadas.

A liderança dos Jovens Turcos estando impaciente com o rumo das coisas –ou seja, os Armênios ainda existiam – resolve que medidas mais enérgicas deveriam ser adotadas. Em fins de novembro de 1914 foi publicada uma ordem que expulsava todos os funcionários da Administração Púublica Otomana que fossem de origem armênia. As medidas enérgicas não pararam aí. O Ministério da Guerra do Império Otomano armou deliberadamente os membros da chamada “Teshkilat Mahsusa”, uma organização militarizada, que nada mais era do que um bando de criminosos turcos libertados ilegalmente das abarrotadas prisões do Império Otomano. Esses membros da Teshkilat Mahsusa tinham a missão de agir como grupos paramilitares segregando, aterrorizando e assassinando os armênios dentro do império.

No inicio de 1915, mais precisamente em 12 de fevereiro, os turcos começam a desarmar e prender os armênios que haviam sido recrutados em agosto de 1914 para as forças armadas turcas, mandando milhares deles para construção de obras pelo império. A maioria nunca mais foi vista. Daquele momento em diante, as perseguições ficaram cada vez piores e mais explícitas. Para disfarçar as chamadas “Caravanas de Morte”, os turcos diziam aos armênios que era preciso deixar suas casas por causa do avanço das tropas da Entente. A maior parte dos armênios das caravanas morreu durante longas e penosas jornadas de deportação que tinham como destino o deserto de Der-El-Zor, localizado em território sírio, pertencente ao Império Otomano. Estima-se que somente para este deserto tenham sido deportados 500 mil armênios, dos quais mais de 90 mil pereceram em suas areias.

Sam Kadorian, de Harpoot, com apenas sete anos de idade na época, conta o que viu e viveu quando sua família foi enviada numa marcha da morte:
“Gendarmes turcos vieram e levaram todos os meninos com idades entre cinco e dez anos. Eu também fui levado. Jogaram-nos em uma pilha de areia e começaram a nos espetar com suas baionetas. Como eu me encontrava no centro, fui espetado apenas uma vez, que pegou minha bochecha. Fiquei imóvel ate escurecer, quando minha avó me encontrou. O ferimento estava doendo muito. Outros familiares estavam chegando para procurar seus filhos. A maioria encontrou apenas cadáveres. Muitos aproveitaram que a margem do rio próximo era arenosa e cavaram ali mesmo as covas de seus filhos. Outros apenas empurraram os corpos para dentro do Eufrates, e ficaram a ver os pequenos corpos flutuando para longe.”
 
Outro relato e de Garbis Bogiatzian, 23 anos, nascido em São Paulo.
"Minha irmã mais velha morreu de frio durante a fuga da minha família para o Líbano. Lembro-me de meus pais contando histórias terríveis, de pessoas sendo degoladas e de mulheres grávidas apunhaladas por policiais turcos que arrancavam seus filhos do ventre. Recordo de um episódio em que, tentando escapar, alguns conterrâneos entraram numa igreja e foram barbaramente incendiados."
 
As chacinas foram planejadas e colocadas em prática por um triunvirato que comandava o país, formado por: Mehmet Talaat, ministro do Interior e futuro primeiro-ministro turco;
Ismail Enver, Ministro da Guerra;
Ahmed Jemal, Ministro da Marinha de Guerra turca. Destinos melhores não tiveram os armênios mandados para o front da Primeira Guerra Mundial pelas fileiras turcas. Via de regra eram subutilizados, tendo apenas serventia para trabalhos pesados, perigosos ou de servidão aos comandantes turcos.
Por onde as tropas turcas passavam nenhum armênio era poupado. Padres foram queimados amarrados em cruzes. Os fetos arrancados dos ventres de suas mães eram jogados para o ar e aparados a fio de espada.

As forcas turcas se fizeram presentes com mais crueldade nas vilas em campos ermos e de pequenas localidades da Anatólia, região que compreendia a porção asiática da Turquia moderna. Neste período a Armênia Oriental, hoje República Armênia, era protegida pelos russos, inimigos declarados do Império Turco.

No dia 24 de abril de 1915, numa manhã do Sábado de Aleluia, em meio às comemorações da Páscoa cristã, cerca de 600 intelectuais, políticos e religiosos da comunidade armênia que viviam no Império Turco-Otomano, foram presos sob acusação de conspiração e traição contra o Império Turco. Enviados para a prisão de Mehder-Hané, em Constantinopla, os principais líderes armênios acabaram sumariamente executados. A maioria foi fuzilada e outros enforcados em praça pública.

Durante todo mês de abril as deportações e massacres continuaram, mas o mundo começa a saber sobre o que estava acontecendo na região. O Marechal-de-Campo alemão, Otto Liman von Sanders relata a Berlim que deportações e machas da morte estavam sendo planejadas pelo governo turco e seus ministérios, e levadas a cabo pelos governadores, forças armadas e polícia.

Nas grandes cidades, como Constantinopla, a presença de estrangeiros de certa maneira inibia os massacres e perseguições, já que o governo turco tentava esconder da comunidade internacional as atrocidades perpetradas dentro de suas fronteiras. Mas ainda assim notícias sobre massacres contra armênios acabaram vazando e chegaram ao conhecimento de governantes de outros países que, apesar de condenarem a ação, não tomaram medidas para evitar a matança.

As testemunhas oculares, entre elas missionários cristãos, médicos, professores universitários da Alemanha e Áustria-Hungria, e cidadãos dos Estados Unidos, Suécia, Noruega e Dinamarca, relataram incessantemente sobre a violência em curso contra os Armênios. Todavia, as vozes que falam pelos armênios não recebem de imediato uma resposta.

Finalmente, após ver seu povo quase dizimado, os armênios recebem uma noticia que parecia ser um sonho. Em 11 de outubro de 1918, o governo turco autoriza a volta dos armênios às suas cidades. No dia 30 de outubro de 1918, a Turquia assinava o Acordo de cessar-fogo em Mudros.
Em 04 de novembro de 1918, o Parlamento Otomano decide levar a julgamento marcial os responsáveis do Comitê União e Progresso pelo genocídio contra os armênios. Centenas de líderes políticos e militares do comitê foram presos e acusados ​​de crimes de guerra, mas dezenas deles já haviam conseguido fugir do país. Alguns se refugiaram na Alemanha, que havia prometido não processá-los em território alemão.

As estimativas são de que um milhão e quinhentos mil armênios – de uma população aproximada de dois milhões no Império Otomano – foram deportados, massacrados ou desapareceram completamente das áreas onde haviam habitado por mais de dois mil anos.
 
Fontes:
www.history.com/topics/armenian-genocide
www.genocide1915.org/fragorochsvar_bakgrund.html
armeniaeterna.com.br/a-historia-da-primeira-guerra-mundial-em-100-momentos-o-holocausto-turco-comeca/
jornalggn.com.br/blog/jota-a-botelho/premie-da-turquia-reconhece-que-massacre-de-armenios-foi-desumano
www.armenian-genocide.org
www.armenia.com.br/hayk.htm#osa
Vozes Armênias: memórias de um genocídio (Renata de Figueredo Summa).
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