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A Batalha Decisiva, Uma Perspectiva Alemã12/08/2013
Por Oskar Emil von Hutier
 
Resumo: Estudada e teorizada por Clausewitz, a “batalha decisiva”, aquela que poria fim à guerra mediante a aplicação de uma derrota dilacerante, decisiva e indiscutível ao inimigo, foi aplicada por Frederico, O Grande, na edificação do Estado Prussiano. Caracterizada por objetivos bem delineados e disposição de meios - humanos e materiais - capazes de operá-los, a “batalha decisiva” foi o núcleo das campanhas do Exército Prussiano. Entretanto, quando a herdeira da Prússia, a Alemanha, tentou o mesmo expediente, fracassou. O presente trabalhado abordará  todo o processo de desenvolvimento teórico-estratégico do conceito, bem como suas implicações praticas durante as guerras travadas pelas forças armadas alemãs, nos últimos dois séculos com enfoque principal nas campanhas de consolidação do Estado Prussiano, de Unificação Alemã e nas duas últimas guerras mundiais. 
 
Palavras-chave: Batalha decisiva, Prússia, Alemanha, Clausewitz, Frederico, Manstein,
 
 
Pródromos de uma potência em gestação
 
Durante séculos, a preponderância militar prussiana foi praticamente incontestável no continente europeu. A Prússia, então um pequeno Estado alemão encravado no litoral báltico, tem suas origens no estabelecimento da Ordem Teutônica naquela região, assim como nas “Guerras Santas” travadas contra os eslavos pagãos. Entretanto, ao final do século XVII, a situação interna do Sacro-Império Romano Germânico atingira um elevado grau de tensões políticas, econômicas e religiosas que fragmentaram o grande império, permitindo a ascensão de pequenas famílias nobres em novos e pulsantes Estados. Sob égide de Frederico I, o “Rei Sargento”, o pequeno Estado já dava sinais da pujança bélica que atingiria anos depois. Ao final de seu reinado, Frederico I entregou ao filho, Frederico II (mais tarde apelidado de “Frederico, O Grande” ou “O Velho Fritz”), o mais disciplinado exército da Europa, escorado num Tesouro consideravelmente ampliado.
 
Coube a Frederico II, a substituição do titulo de “Rei na Prússia” para “Rei da Prússia”, através da intervenção de seu exercito nas guerras dinásticas austríacas. Mais tarde, o próprio Frederico II defendeu seu reino contra as três maiores potências européias de seu tempo - Áustria, Rússia e França - naquela que ficou conhecida como “Guerra dos Sete Anos”. O valor desta vitória culminou com uma enorme ampliação dos territórios prussianos e foi responsável pela grande ascensão do Estado como potência européia. O que se sabe é que após as vitorias de Frederico II, o culto ao “Reis Guerreiros da Casa dos Hohenzollern” personificou-se. A partir de então, as armas e o exército se transformaram na principal ferramenta de expressão nacional dos prussianos legada, posteriormente, aos alemães. As vitorias que os prussianos obtiveram contra seus principais inimigos nos séculos seguintes, marcaram uma nova era nos campos político e militar e através destas vitorias a Alemanha moderna emergiu como nação. 
 
E entre os grandes ensinamentos dos capitães prussianos estava o conceito da “batalha decisiva” (BatDec). Desenvolvido e aperfeiçoado ao longo de quase 200 anos, o conceito - que implicava em obrigar o inimigo a lutar uma batalha (ou uma sucessão rápida de batalhas interligadas) sob condições tais que sua derrota selaria o destino da guerra - foi um dos principais motivos, se não o principal, das esmagadoras vitorias prussianas. Mas o insucesso dos alemães na aplicação e condução dessa concepção durante as duas guerras mundiais, contribuíram muito para a derrota final da Alemanha tanto em 1918 como em 1945. Apesar disso, o conceito em sua essência permanece, mesmo considerando sua aplicação hoje menos plausível, uma vez que as guerras assimétricas travadas entre grande potências e formações militares pulverizadas tornam difícil impor ao inimigo uma batalha a tal ponto dilacerante que seja capaz de retirá-lo do campo de batalha, derrotado.
 
Boa parte dos valores que tipificam a vida nos países hoje denominados “ocidentais”, como o direito, a democracia, a geometria, a filosofia e diversos outros conhecimentos do homem moderno, foram moldados no período “clássico” greco-romano. Na ciência militar não é diferente. A busca pela BatDec emergiu na Grécia em completo contraste com seus vizinhos orientais. Os gregos, por temperamento ou por valores culturais, contrastavam muito com seus antagonistas. Enquanto no Oriente, o arco, as fundas, entre outros petrechos de arremesso a distância, deram corpo a principal forma de combate, na Grécia uma nova espécie de combate era fomentada, baseada no choque e na impulsão de massas humanas: as falanges gregas. Tal diferenciação é um dos muitos fatores iniciais da divisão tácita entre ocidentais e orientais que ficaria cada vez mais clara através dos séculos.
 
Enquanto no Oriente o combate era travado a distância, por meio de arremessos, o que levava normalmente a decisões inconclusivas, no Ocidente o combate baseava-se no choque, na manobra e na impulsão, jogava-se tudo por tudo em uma batalha. Assim, na Antiguidade, a batalha era um fim e não um meio, pois através delas normalmente decidiam-se as guerras e a sorte dos monarcas. A idéia da BatDec, como ponto alto das operações militares, permaneceu pelos séculos seguintes como a principal vertente do pensamento militar ocidental. Com os romanos, e a fusão cultural greco-romana, ela manteve-se como a principal forma de batalha conquista no Ocidente. Mas após a queda de Roma frente às coligações germânicas, o mundo Ocidental mergulhou num processo intenso de desurbanização e desagregação baseado no caráter heterogêneo das tribos germânicas, dando forma a um período normalmente conhecido por Idade das Trevas ou Período Feudal.
 
O fato é que através da divisão dos reinos em pequenos feudos, e pelo processo de “castelização” da Europal, o mundo ocidental esteve fragmentado tornando impossível arcar com os alto custos que os grandes exércitos profissionais demandavam. Deste modo, a BatDec submergiu por séculos, diante da impossibilidade econômica que inviabilizam sua aplicação. Deve-se salientar que com o processo de ”castelização” da Europa, a guerra tornou-se um jogo caro o que tornava o cerco a única forma de obter uma vitoria. Portanto, pouco se combatia em nível de exércitos; era muito mais fácil entrincheirar-se num castelo durante alguns meses até que os recursos do inimigo se exaurissem e ele fosse obrigado a se retirar. Entretanto, se manter um exército era custoso, o cerco também era economicamente inviável. Por isso, as guerras da Idade Média, eram normalmente inconclusivas, com algumas exceções como as campanhas normandas na conquista das ilhas britânicas.
 
Um jogo de reis - Com o advento do canhão nas guerras européias, os dias dos grandes castelos estavam contados. Devido ao alto custo da pólvora e das grandes fundições apenas os Estados plenos  com sistemas burocráticos  e economias relativamente estabilizadas e diversificadaspodiam se dar ao luxo de mantê-los. Os barões rebeldes não podiam mais trancar-se em suas altas torres e desafiar a autoridade real. É nesse contexto que nos séculos XV, XVI e XVII, as nações ressurgiram mesmo mantendo restrita sua atividade bélica. Os disciplinados exércitos dos reis absolutistas ainda consumiam fortunas e como a grande maioria das nações estava ligada por casamentos dinásticos a estabilidade européia foi de certa forma mantida. Quem bem ilustrou esse período foi o Marechal Maurice de Saxe ao afirmar: “Um general bem sucedido pode passar toda a carreira sem travar uma única batalha”. A guerra, portanto, havia se tornado “um jogo de reis”, com generais pouco dispostos a exporem seus caros exércitos em batalhas violentas e/ou decisivas.
 
Desse cenário emerge um flagrante contraste: Frederico, O Grande, e sua pequena Prússia. Frederico II foi muito provavelmente o mais bem sucedido monarca de sua geração. Ainda que tivesse seus meios de ação (um tesouro repleto e um exercito altamente profissionalizado) garantidos por seu pai, Frederico I, não faltou a Frederico o talento e o senso de oportunidade, além da sorte, que fazem de um rei alguém maior entre seus pares. O século XVII viu a Prússia já fincada firmememente no Báltico, posição alcançada graças a bem sucedida campanha de mobilização do “Rei Sargento” e de suas reformas, como a tolerância religiosa e despotismo esclarecido. Com o colapso do Sacro-Imperio Romano Germânico surgiu à oportunidade do altamente profissional Exército Prussiano intervir nas Guerras de Sucessão Austríacas. Mas com a anexação da Silésia, Frederico se indispôs com a Áustria permanentemente, o que levou ambos à Guerra dos Sete Anos.
 
Travada entre 1756 e 1763, a Guerra dos Sete Anos opôs Inglaterra, Prússia e aliados, contra Áustria, Rússia, França e outros Estados subsidiários. Contrariando o pensamento vigente na época, Frederico pensou a guerra em termos de uma vitoria fulminante contra os austríacos, o que, em sua opinião, acabaria com o conflito rapidamente. Refletindo dessa forma, Frederico deu origem ao pensamento que moldaria as gerações seguintes dos marechais prussianos e alemães. Contudo, falhas do corpo de oficiais fez com que a operação não obtivesse o resultado esperado. Mesmo assim, a gritante diferença na forma com que o rei prussiano conduzia sus operações, consagrou Frederico. Ele lutou diversas batalhas na guerra, operando por linhas internas (outra marca da “Escola Prussiana”), bateu sucessivamente seus inimigos, com grande destaque para suas vitórias em Leuthen contra os austríacos (que seria o modelo para o plano de Von Schlieffen quase 200 anos depois) e em Rossbach, contra os francêses.
 
Tamanha impressão foi causada por suas vitorias que ao fim de sua vida, a Prússia, de mera coadjuvante da política continental, era tratada como verdadeira potência, e seu exército não era conhecido como Exército Prussiano, mas como “O Exército de Frederico”. A personalidade impetuosa do Rei Guerreiro - que contrastava vivamente com sua personalidade artística, senso estético apurado, patrocinador e financiador das artes, fino orador e apreciador de literatura e filosofia, tendo hospedado Voltaire em sua corte - ficou intensamente viva na memória dos alemães e de seus inimigos. Um pensamento que se tornou ditado marcou as gerações vindouras: “Os prussianos sempre atacam”. Coube a Frederico II colocar a inteligência, a impetuosidade e a coragem novamente no campo de batalha, devolvendo a manobra à arena de guerra, reedificando a BatDec e um conceito que ganharia ares apocalípticos três séculos depois: a total krieg.
 
Quando o Duque de Brunswick (Karl Wilhelm Ferdinand) retirou-se de Valmy sem combater, e a Revolução Francêsa atingiu seu apogeu, dois aspectos ficaram claros. O primeiro foi que os prussianos se desviaram do caminho traçado pelo velho Rei Frederico. Buscaram a inércia e não o combate, cometendo o mesmo erro dos antigos reis absolutistas. O segundo, extremamente importante, foi que os exércitos revolucionários, desprovidos dos laços dinásticos e das convenções éticas do cavalheirismo despótico podiam (e levaram) a guerra a um novo nível. O principal expoente da revolução foi um certo Napoleão Bonaparte. Corso de nascimento, Napoleão foi um individuo muito a frente de seu tempo, tendo contribuído em diversas áreas do conhecimento humano, além do campo militar propriamente dito. Embora fosse provido de grande força de vontade e de um orgulho tal que certamente foi tomado como soberba por seus contemporâneos como soberba, Bonaparte não era um monarca de nascimento, o que o diferia dos seus antagonistas.
 
Foi através da Revolução Francêsa que o conceito da “Nação em armas” nasceu, cresceu e ganhou corpo, com todo homem se constituíndo num soldado e cada cidade uma fortaleza. Demorou muito tempo até que as demais potencias européias se adaptassem a esse novo conceito. Além do mais, mesmo em 1814, no auge da grande coalizão, nenhum comandante de exército tinha autoridade para enfrentar Bonaparte separadamente. E a razão para isso é simples: Napoleão foi, muito provavelmente, o maior general presente num campo de batalha em toda historia, rivalizado apenas (e talvez) por Alexandre, O Grande e Júlio César. As vitorias napoleônicas, sobretudo em Jena e Auerstedt, que abriram a Prússia à ocupação francêsa, foram sem duvida alguma as maiores catástrofes militares alemãs, tornando óbvio para os prussianos que o retorno à forma de combate de Frederico II não só era necessária, como fundamental.
 
Schwerpunkt e a era de Moltke - Tal retorno adquiriu forma quando o General von Scharnhorst adotou novas práticas no Exército Prussiano. Criou o Estado Maior Geral, tornou muito mais rígida a seleção dos oficiais e o ideal da competência coletiva, o que permitiu suplantar Napoleão ou “estrelas de primeira grandeza” como apontam Gorlitz e von Freitag-Loringhoven, que não viam qualquer perspectiva acerca do surgimento de um visionário do mesmo calibre do Corso. Em suma, o Estado Maior deveria substituir, pela competência coletiva, a necessidade de um Napoleão ou Frederico, os quais somavam tantas qualidades que tornava impossível formar semelhantes por métodos didáticos e pela burocracia estatal. E quando a oportunidade se apresentou, depois da catastrófica retirada napoleônica da Rússia, a Prússia ressurgiu sobre os ombros de um exército restaurado, unindo-se decisivamente à coalizão antifrancêsa. O fato é que a derrota em Jena e Auerstedt, ensinou aos prussianos mais do que muitas de suas vitorias. Basta ver a abordagem militar de Bonaparte, o oposto do apregoado por Brunswick. Seus exércitos buscavam não apenas a vitória em campo mas a concluíam através da perseguição e aniquilação de seus inimigos. Dito de outro modo, buscava uma batalha (e uma vitória) decisiva, aspectos para os quais um certo Carl von Clausewitz, um dos mais celebrados teóricos militar da história, estava bem atento.
 
Embora não tenha sido o criador do temo, a BatDec está presente nos estudos de Clausewitz e na verdade pode ser considerada um dos fulcros de sua teoria. Assim como seus contemporâneos, Scharnhorst e Gneisenau, Clausewitz foi fortemente influenciado pelas vitorias esmagadoras de Bonaparte frente às sucessivas coligações européias. O “aspecto clawsewitziano” ganha relevância pelo estudo e cientifico e doutrinário de sua obra e sob sua perspectiva, a guerra era um meio para se obter uma vitória política e a batalha o meio decisivo para se vencer a guerra. Em suas palabras: “A guerra é, pois, um ato de violência destinada a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade... [ ] é uma simples continuação da política por outros meios. Vemos pois que a guerra não é somente um ato político, mas um verdadeiro instrumento político, uma continuação das relações políticas, uma realização destas por outros meios”.
 
O entendimento da BatDec passa pelo conceito doSchwerpunkt. Segundo Clausewitz, o schwerpunkt é o centro de gravidade do inimigo, aquela posição que, uma vez suplantada (vencida) leva o inimigo ao colapso. Entretanto, o autor realça que mesmo alcançado o schwerpunkt, pode ser que o inimigo não desabe, asseverando: “Deve-se ter sempre em mente as características predominantes dos dois beligerantes. A partir dessas características, forma-se um certo centro de gravidade, o ponto central de todo o poder e de toda a atividade, do qual tudo depende. É para esse ponto que todas as nossas energias devem ser dirigidas.” A fim de compreender melhor o pensamento do prussiano é preciso ter em mente que, sendo um homem de seu tempo, a definição que Clausewitz fazia da vitoria sobre o inimigo, era absolutamente literal. Ao longo de sua obra, o autor trabalha seguidamente com trindades, notadamente a famosa “trindade clausewitziana”, constituída de Exército, território e seu povo.
 
Para Clausewitz, o Exército era o principal fator de expressão de poder de uma nação; seu território, o depósito humano com o qual se levantava novos exércitos, e o povo, entendido como o aspecto mais importante, uma vez que constitui a matéria-prima de uma nação em armas. Segundo o militar prussiano, a derrota do exército, a conquista do território seguidas dos meios de subjugação da vontade do povo constituíte da nação adversária culminava a campanha militar vitoriosa. “A derrota e a destruição da sua [do inimigo] força combatente continua sendo a melhor maneira de começar uma campanha”. E certamente é o melhor modo de encerrá-la, com o inimigo prostrado à vontade do exército vencedor, sem condições de opor-se, ao menos por um bom período, às forças vitoriosas, uma vez que o resultado acachapante alcançado inibe o oponente econômica, social e psiquicamente. Assim, influenciado pelas vitórias apoteóticas de Bonaparte, Clausewitz era um defensor ardoroso da “batalha de aniquilação” que levaria à mais completa destruição do inimigo.
 
Um dos aforismas mais conhecidos de Clausewitz reza que “se o inimigo for desestabilizado, não deve lhe ser dado tempo para se recuperar. Deve ser desferido um golpe após outro na mesma direção. Em outras palavras, o vencedor deve atacar com toda a sua força e não apenas uma fração do inimigo. Não é fazendo as coisas da maneira mais simples - empregando uma força superior para surrupiar alguma província, preferindo a segurança de uma conquista secundária a um êxito de vulto - mas somente buscando constantemente atingir o seu centro de poder, arriscando tudo para ganhar tudo, é que pode-se realmente derrotar o inimigo”. A sanha de Clausewitz na busca obsessiva pela aniquilação do inimigo por meio da BatDec é marcante, entretanto, o grande sucesso de sua obra “Da Guerra” (publicada postumamente em 1832) só se edificou após as vitorias esmagadores de seu principal discípulo: von Moltke.
 
Helmuth von Moltke, foi muito provavelmente o maior general prussiano desde Frederico II. Suas campanhas, assim como sua vida, formam um capitulo a parte na história da Unificação Alemã, considerado um dos pilares de tal união ao lado do Kaiser Guilherme I, Otto von Bismarck, o pragmático premiê do kaiser, e Albrecht von Roon, Ministro da Guerra da Prússia (1859-1873). Moltke combateu junto ao Exército Dinamarquês quando este reino ainda era senhor do Ducado de Holstein, auxiliou na reforma do Exército Turco-Otomano e escreveu um tratado sobre o uso militar de ferrovias (até então uma novidade vista com desconfiança). Juntamente com von Roon, foi responsável pela grande reforma pelo qual passou o Exército Prussiano nos anos que antecederam as guerras de unificação, centralizando esforços na multiplicação das linhas férreas e na expansão da artilharia de campanha bem como na atualização do sistema de mobilização prussiano, que lolgo se tornou o mais eficiente da Europa.
 
Sadowa e Sedan - Moltke era um defensor da “Nação em Armas”, o conceito nascido da Revolução Francêsa. Dests modo, batalhou ardorosamente pelo treinamento de recrutas em tempos de paz, que constituiriam as grandes reservas nacionais prussianas. Também se destacou na Administração do Estado Maior Geral, o transformando numa extensão de sua própria personalidade: profissional, perfeccionista, sem sentimentalismos e egocentrismo. Colocou seu talento a serviço da Prússia em três guerras, vencendo todas. Contra a Dinamarca, pelo controle dos Ducados de Schleswig e Holstein (sua terra natal), contra a Áustria que, excluida dos assuntos alemães, permitiu a hegemonia prussiana sobre a unificação da Alemanha, e contra a França pela preponderância sobre os Estados do Sul da Alemanha e bacia do Reno, auferindo contra esse último e potente adversário uma vitória incontestável e imperial, uma vez que conseguiu capturar o próprio Imperador Napoleão III na batalha de Sedan.
 
Além disso foi um defensor das teses de Clausewitz, embora, por sua própria personalidade, tenha adicionado sutileza e meticulosidade. As contribuições que deu a arte da guerra, com domínio sobre estratégia militar, advindas de experiência própria, são lendárias, sobretudo a partir de embates considerados por seus biógrafos - Friedrich, Delbruch, Hughes - e historiadores militares do período prussiano - Bucholz, Wilkinson e Rothenburg - como “aulas magnas práticas de campo”, como em Sadowa (julho de 1866), onde estrangulou e destruiu o Exército Austríaco de von Benedek, como em Sedan (setembro de 1870), onde, por meio da defensiva tática capturou e manteve a iniciativa estratégica, o que obrigou os francêses a constantemente combaterem em situações desvantajosas, desorganizando-os a tal ponto que Sedan torna-se um anátema na historiografia militar francêsa, avultada - em corpo e conteúdo - sete décadas mais tarde, por uma manobra que evocaria, segundo Cartier, “o que a guerra pode ter de alegre, de improvisado e de inteligente”.
 
Para a campanha de 1866, o Exército Prussiano contava como uma série de vantagens conseguidas não só pela maior velocidade de mobilização, mas também devido ao número esmagadoramente superior de quilômetros de ferrovias, o que proporcionou a Moltke, não só encurralar como destruir Benedek. Sadowa exemplifica à perfeição os pontos delineados por Clausewitz:
1. O Reino da Prússia tinha um objetivo político que era excluir a Áustria do processo de Unificação Alemã. Tal empreita não poderia ser obtida por meios diplomáticos e, portanto, os prussianos recorreram à guerra como uma continuação da política por outros meios.
2. Moltke, que planejou derrotar o Exército Austríaco decisivamente, utilizou a totalidade dos meios que lhe davam vantagem (ferrovias e mobilização mais rápida), pois sem o exército inimigo o caminho para Viena estaria aberto. O Exército Austríaco, era, deste modo, o “centro de gravidade” da campanha.
3. Moltke decidiu toda sorte da campanha numa luta de aniquilação, sua batalha decisiva.
4. A Áustria, desprovida de meios militares, não podia mais atingir seus fins cujo principal aspecto era ser a protagonista da Unificação Alemã; logo foi obrigada a capitular.
5. A Prússia aceita a capitulação, sem contudo ocupar Viena algo que, além de extremamente oneroso, implicaria na super exposição da perda de prestigio da Áustria, o que poderia despertar a os olhares cobiçosos dos demais vizinhos europeus, sobretudo o Império Russo e a França.
 
Em 1870, a situação da Prússia era ainda muito difícil no contexto geral europeu, tendo a poderosa França como a grande antagonista do projeto de Unificação Alemã. Paris exercia, tradicionalmente, influência sobre os Estados do Sul da Alemanha e sobre a própria bacia do Reno o que lhe garantia, de certo modo, capacidade de interferir nos planos gerais dos prussianos, no mínimo dificultando a adesão de tais Estados à futura Alemanha, no máximo, incorporando-os ao Império Francês. Obviamente que os francêses, sempre envolvidos em conflitos com a Inglaterra no Oeste, não desejavam a criação de um poderoso estado germânico no Leste, ainda mais porque a aliança anglo-prussiana já havia dado mostras de solidez nas grandes provações, sobretudo na Guerra dos Sete Anos e nas Guerras Napoleônicas quando, nesta última, a providencial chegada de Blücher ao campo de Waterloo, em apoio a Wellington, selou o destino de Napoleão.
 
Em Sedan, a preponderância do Estado Maior Geral ficou comprovada, sendo seu franco contraste com o Estado Maior francês um dos motivos da grande vantagem de manobra do Exército Prussiano. O ponto culminante da invasão foi a Batalha de Sedan quando os prussianos não só destruíram como humilharam o Exército Francês, uma vez que aprisionaram seu Comandante-Chefe, o próprio Imperador Napoleão III. Entretanto, apenas a destruição do exército e o encarceramento do Imperador não foram suficientes para obrigar a França a pedir a paz. Tendo isso em vista, Moltke, seguindo os preceitos clausewitzianos, cercou Paris por meses, derrotando sucessivamente os exércitos improvisados de Gambetta. E Sedan, assim como Sadowa, novamente confirmou as máximas de Clausewitz, seguidas à risca por Molke:
1. O objetivo do Reino da Prússia era destruir a hegemonia francêsa sobre os Estados do Sul da Alemanha e reduzir significativamente a influência francêsa sobre a Bacia do Reno. Tal meta não poderia ser alcançada por meios políticos, e os prussianos novamente recorreram a guerra como uma continuação da política por outros meios.
2. Moltke recorreu novamente ao plano de, por meio de uma manobra de envolvimento, arrastar os francêses para uma batalha de aniquilação, uma BatDec que visava destruir a capacidade combativa da França.
3. Diferentemente do caso austríaco, o marechal prussiano não tinha preocupações com a perda de prestigio francês. A ambição prussiana pela aquisição das províncias germânicas da Alsácia e Lorena, então sob domínio de Paris, culminou com a negativa francêsa de rendição. Mesmo após a destruição do Exército Francês em Sedan, Moltke seguiu objetivamente o pressuposto de Clausewitz, buscando Paris e a ocupação da riquíssima região de seu entorno como o segundo “centro de gravidade” da França.
4. Sob cerco, Paris ainda assim não se rendeu. A capital foi abandonada e a administração mudada para a cidade de Tours de onde o governo tentava levantar exércitos ad hoc de características partisan, de grande disposição de luta mas pouca eficiência prática, batidos e destruídos pelos prussianos. Sem um exército profissional, sem Paris e com a ineficiência comprovada de suas forças improvisadas, a França não pôde ambicionar mais nada e capitulou.
5. Os prussianos atingem seu objetivo final - a unificação dos diversos Estados alemães - sob égide prussiana, dando início ao Império Alemão.
 
Objetivo: Europa
Dentro da monarquia-militar alemã, instaurada com a unificação do império, os Hohenzollern reservavam para si a designação dos objetivos nacionais, reservando ao Exército Imperial Alemão o papel de principal executor de tais metas. Além disso, o exército preservava a sua essência não só como principal força motriz da economia nacional, mas também como a personificação dos valores e da expressão nacionais. Contudo, apesar de conseguir índices produtivos expressivos, superando largamente os concorrentes continentais, o Império Alemão, desde seu nascimento, carregava um fardo pesadíssimo. A Alemanha, como estado unificado e soberano encravado entre o Memmel e o Maas, tornou-se grande e poderosa demais para a política européia que se pautava desde a queda de Bonaparte no poder multipolar. As primeiras medidas de contenção da Alemanha foram traçadas pela França, que imediatamente aproximou-se da Rússia, invertendo a mão da história, uma vez que desde os tempos do “milagre da Casa de Hohenzollern” Moscou se alinhava com os prussianos, buscando frustrar as ambições francesas e manter o equilíbrio multipolar europeu criado por Metternich.
 
 
Posteriormente, os francêses se aproximaram de seu inimigo secular, a Grã-Bretanha, que tinha fortes motivos para deter a Alemanha, uma vez que esta apresentava um desempenho econômico que superava o britânico. Com a ascensão de Guilherme II, a Marinha Imperial Alemã recebeu enormes subsídios, iniciando um amplo programa de expansão que a longo prazo ameaçava a hegemonia britânica no mar. Além disso, a ascensão do Conde Alfred von Schlieffen ao comando Estado Maior Geral, é um fator importantíssimo no estudo da evolução militar prussiano-alemã. Sabe-se que sob a tutela de von Moltke o Estado-Maior Geral deu muita importância ao departamento de estudos históricos, uma vez que Moltke tinha uma forte tendência a recorrer a textos históricos militares para substanciar sua estratégia. Schlieffen, como discípulo direto de von Moltke, seguiu piamente os ensinamentos de seu mestre.

Embora a Alemanha já estivesse comprometida diplomaticamente nos momentos finais da chefia de von Moltke - tendo a França finalmente rompido o isolamento idealizado por Bismarck aliando-se a Rússia - já havia claros sinais do descontentamento inglês com o crescimento do poderio e da importância alemã no jogo das nações européias. Isso colocava Berlim na difícil situação que era o pesadelo do Estado-Maior Alemão: o de poder ser atacada pelas fronteiras Leste e Oeste simultaneamente, obrigada a lutar uma guerra em duas frentes. E ainda que as arestas tenham sido aparadas com os austríacos - o que evitou o cerco total da Alemanha - a situação parecia-se sem dúvida com a que enfrentou Frederico, O Grande, na Guerra dos Sete Anos. Schlieffen buscou inspiração nas campanhas do Rei Guerreiro, adicionando às mesmas os postulados de Clausewitz e as impressões de Moltke a cerca da guerra total e da batalha decisiva.
 
Schlieffen definiu as prioridades da campanha: eliminar a França em uma investida furiosa, que culminaria em uma batalha de aniquilação, destruindo o Exército Francês com a consquente captura e ocupação de Paris. Assim sendo, a espada alemã (seu exército) estaria livre para se movimentar na direção Leste, por via férrea, a fim de enfrentar os russos que, segundo estudos do Estado-Maior Geral, demorariam mais tempo para mobilizar-se que os francêses. Tratava-se de um plano que em muito se assemelhava com a malfadada invasão da Boêmia por Frederico, O Grande. Entretanto, o ensaio de Schlieffen é uma pérola de raciocínio clausewitziano. Ele definia a França como principal componente da coligação inimiga, planejava, por meio de um amplo movimento de flanco, destruir seu exercito, capturar sua capital e, deste modo, eliminar o principal exército aliado dos russos. Todos os objetivos estabelecidos por Clausewitz como componentes do "centro de gravidade" inimigo foram contemplados. Schlieffen atribuía toda a responsabilidade do plano de campanha ao desfecho da batalha decisiva que se travaria em momentos distintos, mas fortemente vinculados.

Contrariamente ao que muitos pensam, Schlieffen estava cônscio das recentes revoluções pelas quais passavam as forças armadas, sobretudo no que dizia respeito a expansão da capacidade industrial. Para ele, os novos exércitos superariam a marca de “um milhão”, algo impensável até então e, desta forma, a manobra estaria seriamente limitada por linhas contínuas e extensas de homens entrincheirados, suportados por fogo automático de metralhadoras. Sua solução, em termos práticos, era bastante simples: reunir tantos homens quanto possível e agir de forma concentrada e escalonada no tempo e locais corretos. O que era somente uma inovação até então, o conceito do “centro de gravidade” (Schwerpunkt), foi alçado ao nível operacional. Sob esse raciocínio, foi elaborado um inédito plano de batalha, que levava em conta as novas necessidades alemãs de defesa em múltiplos fronts, sobretudo após estabilização da aliança franco-russa.  

Em linhas gerais, o Plano Schlieffen era assustadoramente simples: atrair o inimigo para a ala esquerda, reunindo todas as forças à direita, para quando apresentar-se o momento, atacar com toda força, num movimento fluído em forma de foice, cortando a retaguarda inimiga, e finalmente o esmagando contra a própria ala esquerda. Schlieffen tinha uma forte atração pelas campanhas fredericianas, e estas lhes serviram de inspiração não só na concepção de seu plano geral mas no próprio ato de execução. O Plano Schlieffen nada mais era do que a Batalha de Leuthen (1757), de Frederico, em uma escala gigantescamente maior. Se os franceses tivessem idéia do que Schlieffen preparava, teriam revisto Leuteh e sabido o que os esperava. Naquela batalha, Frederico alinhou 167 canhões e 36 mil prussianos contra 210 canhões e 80 mil austríacos. Com uma finta iludiu o inimigo, impondo uma derrota ao adversário a custa de 1.141 mortos contra 3 mil austríacos.
 
“Reforcem a direita” - Schlieffen concentrou sete exércitos contra os francêses: o 1º, 2º, 3º, 4º e 5º ao Norte de Metz e os 6º e 7º ao Sul. Os primeiros compreenderiam 35 divisões de infantaria, cinco corpos de exército, sete divisões de cavalaria e fortes efetivos de tropas da Guarda Territorial e de Reserva. As duas formações ao Sul contariam com cinco corpos de exército e três divisões de cavalaria. Uma vez que os francêses fossem decisivamente atraídos para a centro-esquerda alemã, dois corpos seriam enviados para a ala direita, fazendo com que a proporção de tropas chegasse a 91% na ala direita e 9% na esquerda, o que obrigaria a enfraquecida esquerda a recuar, potencializando assim a ação da direita, pois a cada passo dado pelos francêses dentro da Alsácia e Lorena, mais improvável seria que conseguissem escapar quando o grosso do Exercito Alemão viesse pela ala direita e retaguarda. No Leste, Schlieffen planejou manter o 8º Exército na Prússia Oriental, observando os russos.

Obviamente que não havia espaço para tal manobra dentro do território francês então fortemente fortificado, principalmente na região dos Voges.  Os alemães, portanto, buscaram uma resposta assimétrica como solução do problema, rompendo a neutralidade dos países da Benelux para atingir o coração da França. A concepção geral exigia que a ala direita convergisse principalmente pela Bélgica, Luxemburgo e Holanda, permitindo assim ao "último soldado da ala direita roçar sua manga no Canal da Mancha", gerando o espaço necessário para que a ala direita circundasse o grosso do Exército Francês e marchasse contra Paris pelo Leste. O Plano Schlieffen não foi apenas a obra da vida de um dos mais competentes comandantes que o Estado-Maior Geral já teve, era uma somatória de todas as experiências adquiridas pelo Exército Alemão ao longo de 200 anos.
 
O plano continha:
1. A seleção dos "Schwerpunkts" (ou centros de gravidade), visando à destruição do Exército Francês e a captura de Paris (de acordo com a doutrina da Schwerpunktlinie, isto é, o caminho mais curto para a conquista da capital inimiga a partir de sua própria base de operações).
2. A movimentação por linhas internas reeditando a campanha vitoriosa de Frederico II, com ataques sucessivos aos inimigos da Alemanha antes que estes pudessem constituir uma frente única.
3. A guerra de movimentos, visando à aniquilação rápida e completa do exército inimigo conhecida como Vernichtungsgedanke.
4. E finalmente a "batalha decisiva" travada em vantagem, através do cerco e da aniquilação, o Kesselschlacht.
Tamanho foi o engajamento e entrega de Schlieffen que em seu leito de morte, seu ordenança descreveu que suas ultimas palavras foram  “.. reforcem a direita".
 
A falha decisiva na execução do Plano Schlieffen pelo General Helmuth Johann Ludwig von Moltke- sobrinho do herói das guerras de unificação -  culminou com a estabilização do Front Ocidental sem de fato ter se chegado aos objetivos primários alemães: destruição do Exército Francês e ocupação de Paris. Uma vez o jogo relativamente empatado entre a Tríplice Entente e as Potências Centrais, as forças beligerantes procuravam meios de obter vantagem e se impor ao inimigo. Os Aliados da Tríplice Entente encetaram campanhas indiretas contra o Império Otomano e o Império Austro-Húngaro. Os alemães buscaram reviver “a batalha decisiva” em varias oportunidades, sobretudo em Verdun, sob comando de Falkenhayn. O plano geral também era simplista e consistia em promover a maior concentração de artilharia da guerra, sobre um objetivo que os francêses não pudessem abandonar.
 
Os alemães tencionavam atrair os francêses para uma batalha de atrito em torno da antiga fortaleza de Verdun, que tinha forte valor sentimental para os francêses. Buscavam, novamente, dar sobrevida ao raciocínio de Schlieffen/Clausewitz, segundo o qual o principal exército inimigo devia ser vencido para que fosse possível vencer a guerra. Falkenhayn assinalara a França como centro de gravidade da coalizão inimiga, e seu exercito como centro de gravidade da própria França. A BatDec se daria pelo controle da fortaleza de Verdun.  Durante exaustivos e terríveis (quase) dez meses de 1916 - 21 de fevereiro à 18 de dezembro, alemães e franceses sangraram abundantemente numa das mais horrendas campanhas de todas as guerras. Novamente, os alemães encontraram problemas durante a campanha. As ofensivas aliadas no Somme e o adiamento da Ofensiva Brusilov, no Leste, forçaram os alemães a desistir da manutenção da “máquina de moer carne” do Front Ocidental que consumiu as vidas de 542 mil francêses e 434 mil alemães.
 
Embora Verdun não tenha sido a única tentativa alemã de resolver a guerra numa decisiva batalha, ela é, com toda a certeza, a mais emblemática. Após o que historiadores como Denizot e Doughty consideraram como uma “vitória tática dos francêses”, Falkenhayn foi alijado do comando do Estado Maior Geral, cedendo o lugar à vitoriosa dupla Hindenburg-Ludendorff que haviam imposto derrotas clássicas aos exércitos russos em Tannenberg e Lagos Masuariano. Assim, a chamada corrente “lestense” ou “orientalista” tomou as rédeas das operações e, a partir de então, tirar a Rússia da guerra passou a ser a prioridade das ações alemãs. Graças a uma somatória de fatores - militares mas principalmente geográficos - havia uma concordância geral de que isto não poderia ser alcançado com uma única grande operação, mas varias operações menores, cujo exemplo maior foi a levada a termo pelo General von Hutier, do 8º Exército, rumo a Leningrado.
 
Entre guerras - Desta forma, por motivos geográficos (amplos espaços a serem percorridos), ineficiência das comunicações (de ordem técnica e pessoal) e falência do alto comando na gestão de grandes operações, foi impossível ao Exército Imperial Alemão a conclusão de suas grandes manobras ao longo da Primeira Guerra Mundial. Na verdade, quando Schlieffen morreu em 1913, morreu a contundência, violência e massificação da ala direita tão caramente esposada pelo marechal. Seu sucessor, Moltke, embora fosse um oficial competente, devia suas credenciais mais ao patronímico que exibia do que propriamente ao talento que profissional. Com efeito, tão logo assumiu o Estado-Maior Geral, incapaz de “segurar as rédeas cerzidas por Schlieffen”, desfigurou o plano original, reforçando a esquerda, praticamente parendo-a, em termos de equipamento e homens, à direita. A descaracterização total do plano original se deu quando Moltke estabeleceu um papel ofensivo para a esquerda. Assim sendo, o “ato final” das campanhas não foi alcançado. A Alemanha falhara na busca pela “batalha decisiva”.  
 
 A idéia de que o Exército Alemão esteve estagnado durante os anos 20 é totalmente equivocada. Sob o comando do General Hans von Seeckt , a “Reichswehr”, como foi denominada a força de defesa alemã após a extinção da monarquia, já emergira sob forte doutrinação ofensiva. Contudo, o fantasma da Primeira Grande Guerra ainda assolava o corpo de oficiais e medidas drásticas foram tomadas no sentido de corrigir as falhas, sobretudo na revaliação do pensamento hierarquizado. Sob Seeckt, a iniciativa seria fortemente reforçada no pensamento dos oficiais. Tornara-se imperiosa a necessidade de a Alemanha, em caso de guerra, levá-la de forma rápida e letal ao coração do esforço inimigo, impedindo uma repetição da agonia das trincheiras. Restrito a um exército de 100 mil homens, Seeckt talvez fosse incapaz de travar uma guerra contra as potências militares do pós-guerra. Entretanto, doutrinariamente foi tão influente para o pensamento alemão da II Guerra Mundial, quanto Schlieffen foi em relação à I Guerra.
 
Havia um forte clima progressista dentro do seleto grupo de oficiais mantidos após a redução drástica dos quadros do pós-guerra. Também existia crença geral no corpo de que a paz de Versalhes não duraria muito tempo. Com a ascensão de Hitler, em 1933, e a morte de Hindenburg em 1934 (o que investiu Hitler dos poderes de Chanceler e Presidente, criando a nova denominação de “Führer”) um forte impulso militarista foi dado. Embora os bens de consumo tenham sido priorizados durante o I Plano Quadrienal, a remilitarização da Renânia e a re-incorporação do alistamento compulsório, levaram o novo Reich a arcar com o pesado ônus do rearmamento em grande escala. Durante o II Plano Quadrienal, comandado por Hermann Göring, foi dado forte impulso à industria pesada e de armamentos, visando a incorporação da massa de recrutas absorvidos compulsoriamente das forças irregulares (sobretudo das SASturmabteilung).
 
Sob a política hitlerista, que se baseava principalmente na dissuasão política-militar isto é, na capacidade de atingir os seus fins (revisão do Tratado de Versalhes, anexação do considerado “espaço vital alemão” a Leste e consolidação da hegemonia alemã sobre o continente europeu) através da ameaça constante de mais uma guerra mundial, a nova Wehrmacht nascia com um pesado fardo: atingir os níveis de adestramento do antigo Exército Imperial. E isto não poderia ser feito sem uma base sólida de instrutores, em sua grande maioria, selecionados entre os mais promissores oficiais da I Guerra Mundial e treinados sob os rigorosos padrões de von Seeckt. Esta nata militar a muito debatia quais seriam as ferramentas de que deveria dispor a Alemanha no caso de outra guerra continental. As conclusões foram taxativas. O país deveria evitar a luta em duas frentes e principalmente evitar que o próximo conflito fosse uma guerra de recursos materiais (Materialschlacht) com frentes estáticas, onde o poderio industrial, não o adestramento militar superior, decidiria o vencedor. Diante uma situação dessa natureza, a Alemanha muito provavelmente se veria isolada por um bloqueio marítimo e teria pouquíssimas chances de vencer. Assim, uma prioridade das Wehrmacht e do próprio Hitler, seria evitar tanto quanto possível os sofrimentos da guerra de trincheiras (Stellungskrieg). 
 
Foi ao abrigo deste leque de restrições, que a doutrina operacional das Wehrmacht foi formada. Tal doutrina girava em torno de uma vitória rápida e de menor ônus econômico, por meio da aplicação efetiva dos ensinamentos comprovadamente eficazes dos grandes capitães prussianos de outrora. Dentre as inovações introduzidas pelo novo corpo de oficiais, uma modificaria radicalmente  as operações militares vindouras: as Divisões Panzer e o conceito de “guerra das máquinas” ou “Panzerwaffe”. Criados pelo General Heinz Guderian tais conceitos incrementaram a velocidade e a violência das concentrações de fogo, um grande incentivo para a vitoriosa escola da guerra de manobras prussiana. Ao longo da II Guerra Mundial várias batalhas confrontaram o Exército Alemão e seus antagonistas, colocando a prova toda a inventividade do seu novo corpo de oficiais que, com suas táticas ousadas e técnicas aprimoradas, buscava mais uma vez confirmar a supremacia das armas alemãs na Europa, reivindicando o papel de potência negado à Alemanha 20 anos antes.
 
O ano de 1940 encontrou a Europa envolta em uma complexa situação política, delineada pela esmagadora vitória alemã sobre a Polônia, em 1939, numa campanha relâmpago de 17 dias, que deixou os Estados-Maiores ocidentais estupefatos. Após submeter Varsóvia, a Alemanha deslocou uma enorme quantidade de divisões para a “Linha Siegfried” (conjunto de defesas na fronteira ocidental da Alemanha) fazendo frente aos exércitos aliados posicionados “ombro-a-ombro” atrás da “Linha Maginot”. A Itália, os Bálcans e a URSS permaneciam neutros. Hitler, então há sete anos no poder, já havia revogado todos os termos do Tratado de Versalhes, e sua pretensa última reivindicação - “o corredor polonês”, um território do antigo Estado da Prússia Ocidental, tomado à Berlim por força do Tratado de Versalhes, e que separava a Prússia Oriental do resto da Alemanha - arrastara, um ano antes, o Império Britânico e a França para a guerra.
 
Sitzkrieg - Apesar de haver um evidente equilíbrio de forças, os Aliados apostavam no que Rene de Chambrun - capitão do Exército Francês, emissário de Paul Reynaud nos EUA - descreveu como “guerra em câmera lenta”, na qual estipulavam metas baseadas em anos de produção de material bélico, soterrando a Alemanha com maior número de aviões, canhões, blindados etc., para somente a partir de tal superioridade dar inicio a ofensiva. Alguns otimistas acreditavam que seria possível romper a Linha Siegfried em 1942 e enquanto tal data não chegava a aposta dos Aliados repousava sobre a capacidade das defesas estáticas francêsas resistirem a qualquer ataque que os alemães pudessem mobilizar. E a partir daí, com bloqueio naval e os quase inesgotáveis recursos naturais do Império Britânico, fazer mais uma vez a balança dos materiais pender contra os alemães. Um erro fatal.
 
Um erro que se evidencia primeiramente porque o pacto de não agressão germâno-soviético, bem como as anexações do pré-guerra e os excelentes contatos diplomáticos da Alemanha com os países escandinavos (notadamente com a Suécia, de relações seculares com a Alemanha) blindaram a economia alemã contra os efeitos de um bloqueio naval. Além disso, os Aliados estavam totalmente equivocados quanto à natureza dos meios de que utilizaria a Alemanha no ataque ao Oeste. Ao invés de formações compactas de homens e baionetas apoiados por fogo maciço de artilharia, vencendo o inimigo pelo atrito e o peso dos números, o que o Exército Alemão apresentou foi uma elite militar altamente capacitada para a guerra de manobra (as divisões Panzer e Panzergrenadier), apoiadas pela tradicional massa de conscritos, que preconizava destruir seus inimigos pelo fogo.
 
O plano alemão, desenvolvido pelo general e futuro Marechal Erich von Manstein, contrastava com o antigo plano de von Schlieffen, embora lhe roçasse os contornos. Ele previa um ataque simulado à esquerda aliada, por meio da invasão do Benelux. Tal manobra evocava o antigo plano do Exército Imperial, e no raciocínio - correto - de Manstein, atrairia o grosso das reservas móveis aliadas para o emaranhado de canais e diques de Bélgica e Holanda, onde estariam irremediavelmente engajados e sem oportunidade de se movimentar. Num segundo e instantâneo momento, a elite alemã, constituída pelo Corpo Panzer do General Kleist, deveria romper o centro francês diretamente pela floresta das Ardenas, visando o isolamento das tropas móveis aliadas, movidas às pressas para a esquerda com intuito de conter a manobra simulada alemã pelo Benelux. E a partir daí correr na maior velocidade possível para o Canal da Mancha, na intenção de isolar e destruir os exércitos aliados numa batalha de aniquilação, o famoso Kesselschlacht.  Somente após a destruição dos exércitos móveis, os alemães rumariam para Paris e contra a retaguarda da Linha Maginot.
 
Em resumo, o plano de Manstein, assim como o de Schlieffen, seguia a trilha de Clausewitz, embora as ambições do general de Hitler fossem mais realistas. Compreendia:
1. O reconhecimento de que o Exército Francês era principal força aliada (o Schwerpunkt da aliança franco-britânica e da própria França) sem o qual as ambições anglo-francêsas de contenção da Alemanha seriam fortemente comprometidas.
2. Através de uma série de dissimulações e da  manobra pelo países da Benelux, criar uma brecha, isto é, mover para a esquerda dos aliados todas as reservas alemãs, enquanto reuniam as suas próprias no centro, visando a ruptura e o envolvimento da ala esquerda aliada. Em suma, objetivavam o Schwerpunkt do Exército Francês (o 2º e 9º Exércitos nas Ardenas). Os alemães, portanto, buscavam o estabelecimento da Venichtungsgedanke, ou guerra de manobras.
3. A destruição da ala esquerda aliada delimitava o flagrante contraste entre Schlieffen e Manstein. Schlieffen vislumbrara conquistar Paris e destruir os exércitos aliados num único movimento fluído pela direita. Contudo, durante a execução de seu plano, ficou evidente a dificuldade de cumprir o apertado cronograma necessário para o tamanho da tarefa. Ciente disso, Manstein dividia seu plano em fases, facilitando assim a sua execução. Com notável sutileza, ele atrairia os aliados para a esquerda, romperia seu centro e os isolaria em busca da completa aniquilação. Só a partir daí os exércitos alemães rumariam para o Sul, visando prioritariamente o isolamento do segundo grande corpo de exércitos aliados na linha Maginot. Depois e apenas depois, Paris.
4. Oferecer um fato consumado a Grã-Bretanha e França, a partir da ocupação de Paris, chegando à vitória total da Alemanha no front ocidental.
 
Quando a Casa dos Hohenzollern reinava sobre a Prússia e posteriormente Alemanha, os reis reservavam para si próprios a designação dos objetivos nacionais. Entretanto, desde os tempos de Frederico II havia um consenso a cerca da condução da guerra. Embora os reis escolhessem quais seriam os próximos objetivos do Estado, um corpo altamente profissionalizado de oficiais deveria criar os meios para a obtenção destes objetivos. Com o fim da monarquia e a ascensão da república, o exército não enfrentou a necessidade da obediência civil devido ao posicionamento apolítico de Seeckt que colocou a Reichswehr num estamento acima da disputa partidária - à época intestina, fratricida, luta de ruptura que ameaçava a própria existência do Estado alemão. Seeckt “salvou” o exército, colocando-o acima da própria república. Portanto, excluída a figura monárquica, o exército mantinha laços de vassalagem apenas para com ele próprio.
 
Com a eleição de Hitler, o exército se deparou com um claro dilema: obedecer ou não a uma liderança civil constituída e eleita pelo povo alemão. As primeiras diretivas de Hitler no sentido de estabelecer a Alemanha como potência mundial, agradaram profundamente a casta militar alemã. A remilitarização da Renânia, a anexação sem luta da Áustria e Tchecoslováquia e a conquista retumbante da Polônia caíram no gosto dos oficiais, então um corpo que readquirira seu orgulho e status social. Metido em suas novas botas militares, Hitler palmilhou gradativamente uma posição eminente na estrutura militar alemã na II Guerra Mundial, ao ponto de reservar para si - a designação dos objetivos nacionais - um direito que outrora pertencera a reis. Entretanto, o fulminante sucesso inicial da campanha de 1940, o rompimento do centro francês e a segunda corrida para o canal iniciada, deixava cada vez mais claro que a manobra pretendida por Manstein teria êxito, tendo os exércitos aliados se retirado em massa para o porto de Dunkerque. E foi aí que Hitler colocou em si próprio as galonas de general.
 
A falência da guerra - Faltava apenas o ato final, isto é, o Corpo Panzer de Guderian ocupar o porto de Dunkerque e iniciar o estrangulamento dos exércitos aliados. Mas Hitler interveio e proibiu a progressão de Guderian impedindo que este coroasse o plano brilhante de Manstein. As razões apontadas para tal decisão são controversas. Para alguns, o contra-ataque aliado em Arras, repelido por Rommel, assustara Hitler. A tese de alguns historiadores de que Hitler não queria comprometer suas tropas panzers num terreno pouco propício ao combate blindado também não se sustenta. É preciso ressaltar ainda que Hitler fora o principal padrinho das forças blindadas alemãs em seu estagio embrionário, no inicio dos anos 30 e seria ilógico, mesmo para uma mente pouco lógica como a de Hitler, não esmagar os britânicos com seus tanques, comprovando a visão que tinha acerca da importância dos blindados e sua utilização. Portanto, é improvável que diante da descrição de Guderian de estar vendo as tropas Aliadas se retirando a olho nu, que Hitler desse a ordem de alto por razões puramente militares no sentido de temer uma arremetida pelo Sul.
 
Deixar os Aliados escaparem por entre os dedos também está relacionado às teorias raciais de Hitler, que já a algum tempo estavam extrapolando a esfera “civil” para entrar na militar. Ilustrativo dessa virada foi o advento da Rassenkampf, a guerra de raças, que seria implacavelmente imposta no Leste. Hitler nutria grande admiração pelo Impéro Britânico e seu papel “civilizador” em locais remotos da África e da Ásia. Assim, fosse por motivos bélicos ou políticos inconclusivos, ou por influência de teorias raciais contraditórias, a intromissão de Hitler no momento decisivo da II Guerra Mundial foi profundamente danosa para a Alemanha. Graças às suas intervenções - que se prolongaram por todo o conflito, com consequências desastrosas em boa parte das vezes - Hitler conseguiu o que o maior exército do mundo na época (o francês) e a maior potência econômica (Grã-Bretanha) não conseguiram: deteve a arremetida dos Panzers e tornou manco o plano de Manstein.
 
Em retrospectiva, não se tinha, à época, idéia da catástrofe que representou o “alto” diante de Dunkerque. A rápida conquista do resto da França, como previra Manstein, deu aos alemães a ilusória idéia de invencibilidade de seu exército, que se consolidou com as vitórias iniciais na África, Bálcans e na Rússia. Com o tempo, a parada dos Panzers à vista do inimigo se retirando se revelou taticamente improcedente e estrategicamente devastadora para as pretensões alemãs, uma vez que a BEF - British Expeditionary Force que conseguiu escapar para a ilha, voltou ao continente quatro anos depois, grandemente reforçada por forças americanas e aliadas e, desta vez, não para defender a França, mas para derrotar a Alemanha. A lembrança amarga da interferência de Hitler permaneceu intacta na memória de todos os oficiais envolvidos pelo resto da guerra. Se é verdade que ele teve lampejos de grande imaginação tática - como o apoio ao Plano Sedan e o ataque a Eben Emael - na maioria das vezes, por pura obtusidade e orgulho, se aferrou a posições insustentáveis táticas e operacionais, selando a completa destruição do estado alemão em 1945.
 
Considerações finais - O que se conclui é que quando adequadamente gerenciada por capitães que compreendiam o conceito, a aplicação da “batalha decisiva” como ferramenta prática e não apenas como um ponto ilustrativo que designaria “a grande batalha” simbolizando um simples entrevero dentro do quadro geral de operações, mesmo que configurada como um turnpoint, a batalha decisiva representava um poderoso pilar no sistema militar prussiano-alemão, tendo ao longo de dois séculos desenvolvido novas técnicas com intuito de melhor empregá-la ou adequá-la aos recentes avanços tecnológicos e científicos. Também se conclui que a interferência de fatores alheios aos previstos como as  comunicações dificultosas, a inaptidão do alto comando e a interferências de não profissionais num sistema tão rígido que prevê toda a decisão da campanha num único grande enfrentamento, apresentam resultados temerosos. Assim, o que se depreende é que em campanhas cujas proporções numéricas foram quase sempre desfavoráveis aos alemães, a concepção e condução de uma batalha decisiva representou sua única chance real de vitoria.
 
 
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