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A Comida no Front - Alimentação na Primeira Guerra Mundial18/06/2014por Clifford Lipton




Britânicos
 
No início da guerra, os soldados Britânicos tinham uma ração de combate bastante interessante, cuja base era cerca de 300g de Carne e 250g de Vegetais por dia, o que pode ser considerado um luxo se compararmos com o que viria nos anos seguintes.
As encomendas vindas de casa vinham carregadas de chocolates, latas de sardinha e biscoitos doces e era, sem dúvida, um bálsamo nos corpos e mentes cansadas destes combatentes. Esta alegria, contudo era sazonal, no mínimo irregular, sem datas previstas. As opções cotidianas da tropa eram bastante limitadas.
 
O tamanho do exército Britânico e a grande eficiência dos bloqueios navais Alemães, com suas máquinas submarinas sem sombra de dúvida, aumentaram o impacto da não chegada de rações e outros produtos de uso das tropas estacionadas no continente.
Em 1916, a quantidade de carne que compunha a alimentação diária das tropas caiu para cerca de 190g de carne, e pior, pouco depois, a carne só chegaria a cada nove dias no front. A situação estava piorando rapidamente e a engenhosidade britânica dos “Tommies” foi colocada à prova: Vegetais e Legumes começaram a ser cultivados em trincheiras, onde havia algum espaço livre ainda. Não bastando esta saída, os soldados iniciaram uma temporada de caça e pesca enquanto não estavam travando batalhas. Isto também serviu de alguma forma, para distração durante períodos de estagnação nos embates. E no final, haveria um suplemento para as já magras rações britânicas.
 
No inverno de 1916 foi registrada uma grande escassez de farinha. Um substituto foi encontrado: Nabos (Folhas e Raízes) eram secos, moídos e usados como uma farinha na confecção de pães. O problema era que o sabor era horroroso e seu consumo induzia à diarreia das tropas. Nesta época, a comida “padrão” do soldado Britânico consistia em uma sopa de ervilhas com nacos de carne de cavalo. Os cozinheiros não tinham muitos recursos, e sempre faziam o melhor que podiam para conseguir vegetais frescos, mas infelizmente, estes se tornavam cada vez mais raros e capim, urtiga (!) e folhas eram usados com frequência para “melhorar” a “Soup Du jour”.
 
Cada batalhão tinha a sua disposição, duas panelas de tamanha industrial para preparação das refeições. O grande problema é que tudo era preparado nestas panelas, e com o tempo, e pouca possibilidade de limpeza, as refeições começaram a ter um sabor parecido. Imagine para um britânico tomar seu sagrado chá sabor carne de cavalo com sopa de ervilhas. Este era o padrão de qualidade que o front oferecia.
 
Não somente a preparação dos alimentos era problemática, mas também a logística para suprir estas linhas de combate era igualmente desafiadora. Quando conseguiam chegar ao front, pães e biscoitos tinha a consistência de tábuas de madeira. Novamente a engenhosidade britânica se colocou a prova, e os Tommies serravam estes pães e biscoitos, esfarelavam e adicionavam batatas, uvas passas e cebolas para “amaciar” a mistura. Esta mistura era então fervida em um saco de areia (similar aos peixes assados na folha de bananeira e areia) e então consumida pelas tropas, com toques de areia.
 
Os soldados e cozinheiros eram obrigados a carregar as sopas e cozidos pelas trincheiras em panelas, latas de gasolina, jarros e onde fosse possível. Quando chegavam à linha de frente, a comida ou estava gelada ou havia sido derramada por todo o caminho. Em um genuíno esforço de evitar este acontecimento desagradável, as cozinhas de campo foram realocadas para dentro da linha de defesa, mas nunca estava próximo o suficiente para a comida estar quente para as tropas. Alguns soldados tinham a sorte de conseguirem fogareiros nas cidades próximas, mas como qualquer combustível estava em racionamento e com demanda alta, estes fogareiros nunca foram uma grande vantagem no campo de batalha, pois eram pesados e precisavam ser carregados.
 
Uma refeição que foi usada no mesmo nível em que foi odiada foi uma sopa em conserva de nome Maconochie. Um caldo ralo, com nabos e cenouras. A Maconochie era tolerada pelos soldados famintos, e detestada por todas. Certa vez, um soldado resumiu em poucos termos, o tamanho do carinho por este caldo ralo: “Quente na Lata, comível. Fria, assassina”.
 
Claramente que deixar os Alemães saberem desta situação estava fora de questão. O Exército Britânico deveria ser reconhecido como contente, bem alimentado cuja moral era inabalável. Certo anúncio do comando Britânico ao público de que as tropas recebiam duas refeições quentes por dia, semeou a discórdia entre os soldados. Após este anúncio, o Exército recebeu cerca de 200.000 cartas exigindo que a verdade fosse divulgada.
 
Alemães
 
Podemos traçar um histórico das rações alemãs na Primeira Guerra Mundial até 1871, quando o Império foi efetivamente unido, após a vitória dos estados alemães sobre a França. As rações alemãs eram bastante simples e efetivas.
 
Para conhecer um pouco sobre as rações alemãs da Primeira Guerra, é preciso entender a origem do design das rações alemãs, que derivou diretamente da alimentação das tropas Prussianas no período imediatamente antes da Guerra Franco-Prussiana de 1870 a 1871, e ela consistia basicamente de fatias de bacon, feijões secos, pão, queijo, sal, açúcar e pequenas quantidades de café. Geralmente, estes itens tinham sua distribuição antes dos combates, onde as cozinhas não estavam ainda disponíveis. Um ração “portátil”, contudo, ainda não existia.
 
Com o aumento do poderio militar Prussiano, e uma crescente ameaça da França, os planejadores alemães entenderam que com o aumento da mobilidade, oferecida pelas ferrovias (as quais muito da estratégia militar alemã ficaria embasada), as tropas poderiam muito bem estar fora de seu raio operacional, contanto que estivessem supridas pelas linhas ferroviárias. Com este intuito, um grupo de pesquisa do Exército Prussiano iniciou uma busca por rações de emergência e/ou duráveis. Durante esta busca pela “ração ideal”, eles se depararam com uma patente de uma sopa desidratada de um dono de fábrica em Berlim. O item é chamado de Erbswurst, em uma tradução livre, “Salsicha de Ervilha”. O nome é bastante condizente com o produto, pois tem o formato de uma grande salsicha, embrulhada em papel, com Seis “pastilhas” de sopa desidratada de ervilha.
 
A composição é de ervilhas, especiarias, bacon e sal. Cada tablete ou pastilha rende 400 ml de uma sopa com sabor agradável, parecida com as caseiras. Juntamente com estes itens, as tropas recebiam também biscoitos, conhecidos como Hartkeks. Estes eram conhecidos por serem muito duros e quase serem impossíveis de serem comidos sem serem mergulhados em alguma sopa. Não existiam outras rações de emergência, apesar de algumas latas de carne em conserva ser mantidas como reserva em trens de retaguarda para serem usados em ocasiões especiais.
 
É interessante observar a dureza Prussiana em testar estas refeições: Um dos testes consistia em alimentar a tropa somente com Erbswurst e Pão durante seis semanas a fio.
 
Com base neste histórico, a ração padrão do Exercito Alemão permaneceu inalterada até cerca de 1888, quando algumas alterações foram incorporadas, já que o Império Alemão se espalhou pelo mundo, mudanças baseadas em ofertas locais foram incorporadas.
 
Eventualmente, a comissão responsável pela alimentação das tropas chegou a seguinte recomendação:
 
260g de Erbswurst
250g de Pão
150g de Bacon
25g de Café ou 3g de Chá
25g de Açúcar
25g de Sal
 
Para tropas estacionadas no Pacifico ou na Ásia, 125g de Batatas desidratadas eram incorporadas ao cardápio. Em regiões mais frias, chocolates ou Chocolate em Pó era parte, bem como um aumento na quantidade de açúcar.
 
Algumas balas de menta eram fornecidas também neste período. Algumas tropas estacionadas no Levante dos Boxers (ou Guerra dos Boxers) descobriram as balas de gengibre na China e incorporaram estas ao seu cardápio. As únicas tropas que não gostaram desta novidade foram às tropas da Bavária, que preferiram suas balas de Malte.

Franceses
 
Desde o primeiro dia de hostilidades, o Ministério da Guerra Francês tomou uma decisão surpreendente: a França alimentaria suas tropas, as de seus aliados e as de suas colônias dependendo unicamente de uma rede de fornecedores estrangeiros, limitando o uso de produção local e, para piorar, suas colônias estavam enviando bem menos alimentos do que tropas famintas para o conflito.
Inicialmente, as forças armadas francesas estavam preparadas para lutar, defender e alimentar uma companhia ou batalhão. Isto significava que os soldados que eram da infantaria também eram cozinheiros, marceneiros, ferreiros, balconistas e demais funções “burocráticas”, com folgas esparsas entre os não especialistas. Na guarnição ou em manobras, isto funcionava satisfatoriamente. Após um dia de “trabalho”, o cozinheiro iria montar a cozinha de campanha, preparar uma decente refeição e todos estariam felizes.
Em situações emergenciais, as tropas carregavam uma ração de emergência, mas ninguém precisou fazer uso destas, exceto em lendas contadas pelos Legionários, sobre os lugares remotos onde estiveram.
Acrescente a esta equação cerca de 2,8 milhões de soldados alemães (700.000 regulares e mais 2,1 milhões de reservistas convocados) com o desejo claro de almoçar em Paris.
E não mais que de repente, as cozinhas da companhia ficaram impossíveis de serem montadas, especialmente em locais bastante disputados entre as duas forças, especialmente quando ficar em qualquer outro lugar que fora de sua trincheira tinha grande possibilidade de morte.
Ao mesmo tempo, as provisões do tempo de paz, que eram maiores do que as que existiam em toda a Europa na época, tiveram de ser divididas por cinco, com as Forças Armadas francesas saltando de 823.000 soldados para mais de 3.720.000 no início da guerra. Isto sem contar as Forças Expedicionárias britânicas, tropas das colônias, elementos do Exército belga e demais voluntários estrangeiros.
Enquanto as linhas de frente ainda eram, de alguma forma, flexíveis, as cozinhas de campanha estavam se tornando uma possibilidade cada vez menos prática naqueles lugares. No momento em que o front entre o Canal e fronteira suíça “travou”, as cozinhas se tornaram impossíveis de serem utilizadas.
Muitas tropas recebiam rações frescas, mas, em pouco tempo, as trincheiras estavam abarrotadas de combatentes e não de comensais e cozinheiros e então os alimentos começaram a se tornar escassos.
Escassos, para a França, significava pães frescos, vinho e embutidos como salsichas. Rações em lata eram limitadas, devido à queda no fornecimento. Comida quente era um luxo que só existia caso algum pelotão conseguisse montar uma cozinha ANTES que os seus suprimentos estragassem. Ainda assim, o melhor que as tropas conseguiam nesta situação era qualquer tipo de ensopado ou cozido. Normalmente, só tinham tempo para uma xícara de café.
Não existia uma ingestão calórica recomendada por dia, muito menos qualquer tipo de dieta funcional ou feita para combate, especificamente até 1915, quando mentes brilhantes no Ministério da Guerra francês finalmente olharam esta questão com outros olhos. Afinal de contas, até então, a correria era para tapar os buracos existentes nas linhas de frente, reagindo a cada avanço Alemão e clamando por mais aliados para o esforço de guerra.
De certa forma, isto também colaborou para um novo conceito de cozinhas de campanha, onde a preparação era feita bem atrás das linhas de frente e, em teoria, os alimentos seriam entregues nas trincheiras em grandes mochilas desenhadas especificamente para o transporte de alimentos.
Por volta de 1915, 3 tipos principais de ração existiam para o soldado francês (aqui não considerando a comida dos oficiais, muito melhor provisionados):
1º) Ração Padrão: Consistia em 14 dias de carnes, vegetais, sobremesas, pães, bem como outras iguarias assadas. Vinho estava incluído. Este era o cardápio de guarnição e era muito bem feito. Isso se deve ao fato de existir uma melhor estrutura para a preparação dos alimentos, pois as cozinhas estavam montadas próximas dos trilhos de trem e de outras instalações, como postos médicos, locais de descanso de tropas e de treinamento. Devido ao tempo prolongado nas trincheiras, um “passeio” pela cozinha da companhia era muito valorizado pelos soldados cansados do combate.
2º) Ração de Campo: Era, em teoria, basicamente um cardápio resumido e minimizado da Ração Padrão. As cozinhas, menores e instaladas em campos adjacentes aos campos de batalha, produziam alimentação pouco palatável e certamente nada nutricional que era então levada com mochilas até a linha de frente. O “carregador de sopa” era considerado um trabalho muito mais perigoso do que um membro da infantaria comum, pois geralmente atravessava bem na linha planejada de tiro de artilharia do inimigo.
A comida que conseguia chegar até o front estava gelada e de qualidade bastante questionável e muitas vezes temperada com terra, pois os pães eram carregados sem qualquer tipo de embrulho e o café, transportado em “canecões” abertos.
O cardápio consistia em carnes assadas em chama aberta, peixe salgado (e geralmente muito salgado), patês feitos com sobras de todo o tipo de carne possível, banha de porco, vegetais, arroz e feijão. Muitas vezes, todos os itens citados eram cozidos juntos.
O ponto positivo era de que, juntamente com esta ração, era servido o “pinard”, o vinho de segunda qualidade padrão das Forças francesas. Algumas tropas britânicas que tiveram a sorte de provar deste tiveram o bom humor de criar um termo usado até os dias de hoje, para qualquer vinho barato, o chamado “Plonk”.
3º) Ração de Reserva: Esta era a ração padronizada do Exercito Francês e de suas colônias de 1915 em diante. Devemos mencionar que, apesar da qualidade muitas vezes ser péssima, nunca houve qualquer tipo de falta desta ração ou de quaisquer componentes dela. Isto se deve em parte a uma surpreendente eficiência logística francesa e em parte pela longa duração dos alimentos sem que se estragassem. Apesar do sabor ruim, as tropas sempre puderam contar com esta ração em momentos de necessidade. Em contraste a esta “bonança”, as tropas britânicas frequentemente ficavam sem suas rações de emergência, por desencontro de informações ou interrupção na cadeia de suprimentos. Ponto para a França.
Claro que, como em qualquer exército, o francês também conseguia suprimentos por outros meios que não os oficiais.
Primeiro, sempre havia os “presentes” vindos de casa, fossem de amigos ou familiares ou ainda escolas e clubes. Iguarias como café de verdade, enlatados de boa qualidade, peixes e tabaco eram muito valorizadas.
Segundo, as tropas compravam comida a cada oportunidade que surgia, pelo medo da ruptura na cadeia de suprimentos. Geralmente a traseira dos caminhões era usada como mercado de barganha.
Terceiro, os soldados se utilizavam dos suprimentos que eram “liberados” do inimigo. De forma bastante notável, o Exército francês tinha um índice muito baixo de crimes contra civis, pois as tropas estavam lutando em solo pátrio, protegendo a população da ameaça alemã, e, sendo assim, os civis sempre dividiam o que possuíam com as tropas de seu Exército.
Claro que a disciplina draconiana e o terror inspirado pela simples menção das palavras “Corte Marcial” tinham sua parcela nisso. As tropas eram vigiadas com extremo rigor e quaisquer atos subversivos ou que pudessem abalar o moral podiam ser punidos com uma viagem expressa para o pelotão de fuzilamento daqueles que se aventuravam a servir como exemplo.
 
Austro-Húngaros
 
O exército do imperador Franz Josef da Áustria consistia em nada menos que 11 grupos étnicos diferentes e era um verdadeiro desafio alimentá-los satisfatoriamente.
Basicamente, existiam três tipos de rações para este exército. Sendo eles: “Volle Portion” (ou Porção Completa), o “Normalportion” (Porção Normal) e a “Reserveportion” (Porção de Reserva).
O “Volle Portion” era a porção mais comum, caso não houvesse qualquer tipo de racionamento ou falta de determinado alimento e se as tropas estivessem em local seguro ou posição estática e consistia basicamente em:
2 Latas de café torrado e moído (Kaffeekonserve) de 46 gramas cada;
400 g de carne
140 g de vegetais
700 g de pão ou
400 g de “Zwieback”, não os mesmos utilizados pela Alemanha na 2ª Guerra Mundial, mas um termo genérico para “Biscoito Militar Redondo”.
30 g de sal
0,5 g de pimenta ou páprica
20 g de banha
1 g de ervas desidratadas
5 g de cebola ou alho
20 ml de vinagre
36 g de tabaco (os oficiais recebiam também 5 charutos ou 25 cigarros)
500 ml de vinho
 
O “Normalportion” era bastante similar ao “Volle Portion”, mas geralmente mais limitada. A preparação era mais rápida, pois deveria ser feita durante alguns intervalos de movimentação de tropas. Continha 40 g menos vegetais e metade do tabaco, sem cebolas, vinagre e vinho.
 
O “Reserveportion” era basicamente feita de enlatados:
2 latas de café torrado e moído (Kaffeekonserve) de 46 gramas cada;
1 lata de carne (bovina ou suína) em molho, que variava entre 200 e 400 g.
400 g de “Zwieback”
18 g de tabaco
30 g de sal

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