ARTIGOS

O Desenvolvimento da Artilharia na Idade Moderna17/06/2014por August von Mackensen
 
Resumo

O desenvolvimento técnico e tático da artilharia entre os séculos XIV e XVIII revolucionou os campos de batalha mundiais. O advento da pirobalística, compreendendo o lançamento de projetis com a força da explosão de pólvora, associada à mobilidade das bocas de fogo e à fixação de peças em navios, permitiu uma nova dinâmica na guerra na qual a artilharia deixou seu lugar estático para conquistar espaço como protagonista. Este artigo busca identificar os elementos da evolução e desenvolvimento da artilharia durante a Idade Moderna, de forma a compreender as diferenças técnicas e táticas entre o medievo e a contemporaneidade no que tange aos campos de batalha.
 
Introdução

            Desde o advento da guerra os homens buscam diferentes meios para ganharem vantagens nos campos de batalha. No princípio reinava a infantaria, o combate a pé, com armamentos rústicos e objetos de trabalho das pessoas que, pelos mais diversos motivos, entrassem em conflito. A domesticação do cavalo proporcionou a primeira grande diferenciação nos costumes da guerra, quando a cavalaria proporcionou maior agilidade e mobilidade aos exércitos e conduziu a uma suave diferenciação entre os papéis dos guerreiros montados e guerreiros a pé. O desenvolvimento das armas individuais conduziu naturalmente à criação de armas de maior porte, operadas por equipes de soldados: nascia a artilharia ainda na antiguidade. O lançamento de grandes projetis, sejam eles dardos ou pedras, evoluiu pelas tecnologias de retesamento direto de cordas, torção de cordas e engenhos de contrapeso, antes de atingir o estágio do emprego da pólvora. O presente artigo visa identificar as evoluções técnicas e táticas que o aprimoramento da artilharia impôs aos campos de batalha durante a Idade Moderna. Para compreender esse desenvolvimento como um todo, buscou-se traçar um breve perfil do que se entende por artilharia desde a antiguidade, no campo da neurobalística, até a era napoleônica, já com a pirobalística, por meio das características dos armamentos desenvolvidos e suas aplicações táticas.
Os primórdios
            A história da artilharia remonta à Antiguidade, iniciando pelo próprio nome. A palavra artilharia deriva da palavra latina “artillus”, que significa engenho, máquina. Os primeiros projetis, lançados inicialmente por arremesso, foram substituídos por engenhos mecânicos que utilizavam energia obtida pelo tensionamento de cordas e arcos, ou a rotação de cordas aproveitando a energia cinética do conjunto. Houve a primeira divisão, entre as armas do tipo individuais – como o arco-e-flecha e a funda – e as armas coletivas, que visavam atingir grupos de soldados e muralhas inimigas. Trata-se da neurobalística.
            Os primeiros engenhos gregos foram o gastraphetes e o oxibeles, datados de aproximadamente 400 a.C. O gastraphetes podia ser carregado por um soldado, e utilizava o método de retesar a corda do equipamento. O soldado deitava-se no chão, apoiava os pés no arco, e esticava a corda usando a força de todo o seu corpo para disparar seu tiro. Já o oxibeles dispunha de um mecanismo acionado por meio de alavancas para tensionar a corda. A criação do oxibeles conduziu ao desenvolvimento da tecnologia de obtenção de força por torção de cordas, gerando engenhos chamados katapeltes, que lançavam dardos, e o lithobolos, que lançavam pedras. (MAGALHÃES, 2006)
            O desenvolvimento técnico dos romanos, modificando a estrutura dos engenhos, permitiu que os disparos alcançassem uma distância útil de até 800 metros tanto pelas balistas quanto pelos scorpio, que lançavam pedras e dardos respectivamente. Outro dispositivo datado de cerca de 200 a.C., chamado onagro, tinha capacidade para disparar uma pedra de 80 quilos e necessitava de até oito homens na sua operação. Na China, também entre os séculos V a.C. e III a.C., foram desenvolvidos os trabucos – espécies de catapultas que utilizavam a força da gravidade e a ação de contrapesos em vez da torção de cordas, possibilitando o arremesso de projetis de até uma tonelada. (CAMPBELL, 2003)
            A artilharia durante boa parte da Idade Média não experimentou avanços significativos. De uma maneira geral, as máquinas de guerra mantiveram seus esquemas básicos de operação, sofrendo pequenas alterações e melhoramentos no que se refere à calibragem de alcance e altitude no lançamento dos disparos.
 
A revolução

            A invenção da pólvora pelos chineses, assim como a consequente invenção do canhão, foram os marcos decisivos na evolução da Artilharia. O primeiro armamento utilizando a pólvora como propulsor era um tubo simples de bambu, remontando a 28 de janeiro de 1132, também na China. Os árabes trouxeram a tecnologia para o Ocidente, entrando a pólvora na Europa já no século XIII pela Península Ibérica, e o primeiro uso de bocas de fogo primitivas por europeus data de 1312 durante o cerco de Algeciras, pelas tropas do Rei Afonso XI de Castela. Também há registros dessa época na Inglaterra e na França: durante a Batalha de Crécy, de 1346, há relatos do uso de potes de ferro que disparavam bolas de pedra. Também é do século XIV o primeiro registro do uso de Artilharia de Costa na defesa de Lisboa. (KEEN, 1999)
            Os canhões dessa época podiam ser fabricados em bronze, sendo fundidas em uma única peça, ou em ferro, fabricadas como barris: juntavam-se lâminas de ferro em brasa, e em torno delas anéis de reforço e uma grossa peça de fundo, chamada culatra. A operação consistia em introduzir pólvora pela boca do canhão, comprimindo-a com um soquete, depois introduzir o projétil e comprimir todo o conjunto. Após isso, introduzia-se um pouco de pólvora por um pequeno orifício na culatra, chamado “ouvido”, que era acesa com uma mecha para disparar o armamento. Depois de cada disparo, era necessário introduzir uma bucha ou esponja úmida, a fim apagar qualquer vestígio de chama. Os canhões de ferro eram particularmente perigosos, pois se não fossem bem produzidos e manutenidos podiam explodir, ferindo ou matando suas guarnições. Não era raro que esse tipo de arma explodisse após três ou quatro disparos, tornando muitas vezes o seu uso mais perigoso para o próprio exército do que para o inimigo. Outro perigo era o violento recuo da arma por alguns metros, depois do que os soldados tinham que recolocar o canhão no lugar e repetir todo o procedimento de segurança, calibragem de mira e fogo. O alcance útil dessas armas era de até dois quilômetros. (WEIR, 2006)
            Os armamentos mais comuns em torno do século XV eram a bombarda, o falcão e o falconete. A bombarda consistia em um tubo metálico montado sobre um reparo de madeira, sendo a elevação do tubo controlada pela inserção de peças de madeira em formato de cunha sob a boca de fogo. O falconete era uma versão menor do falcão. Eram normalmente montados sobre um reparo metálico em formato de forquilha, e dispostos em belonaves e fortificações. Importante nesse momento o advento dos munhões, eixos que encaixavam-se no reparo para melhor regular o ângulo de elevação da arma. (HENRY, 2005)
 
Idade Moderna

            O próximo passo no desenvolvimento das bocas de fogo foi uma arma chamada colubrina, a primeira peça de artilharia de campanha propriamente dita. Tinha comprimento de cerca de 30 vezes o seu calibre e era montada sobre um reparo de madeira munido de duas grandes rodas, que lhe proporcionava elevada mobilidade. Novamente Portugal toma a vanguarda e instala em seus navios grande número de peças, desenvolvendo a artilharia naval e substituindo a clássica abordagem por duelos entre as belonaves. Também em função dos combates navais foi criado um novo modelo de munição composto por duas bolas de metal unidas por uma corrente. Após o disparo a velocidade do tiro e o efeito do atrito com o ar faziam com que o conjunto girasse, causando efeitos devastadores sobre as velas, mastros e conveses das embarcações inimigas. Tais desenvolvimentos, porém, implicavam em problemas logísticos graves, e Carlos V buscou padronizar sua artilharia entre sete modelos de calibre, cada modelo estabelecido pelo peso dos projetis. No início do século XVII, os calibres são divididos em falconetes, sacres, meias-colubrinas, colubrinas, meios-canhões e canhões. A terminologia “canhão” acabou generalizando-se para definir todos os termos anteriores, assim como o a expressão “peça de artilharia” ou simplesmente “peça” (KEEN, 1999). Ainda durante o século XVII surge um novo tipo de armamento: o morteiro. Esse tipo de armamento consiste em um canhão bem mais curto, projetado para atirar contra alvos abrigados. Enquanto um canhão dispara seus tiros em trajetórias aproximadamente retilíneas, com alta velocidade e vista direta para o alvo – tiro tenso – o morteiro dispara projetis em trajetória curva, mais alta e em menor velocidade, permitindo aos atiradores atingirem seus alvos atrás de uma colina, muralha ou elevação qualquer. Nesse momento a artilharia é ainda uma arma essencialmente de sítio e defesa, devido a sua escassa mobilidade. (WEIR, 2006)
            Entre os séculos XVII e XVIII surgem o armão de artilharia e a caronada. O armão era uma combinação de reparo de peça com caixa de munições, montado sobre rodas, permitindo-se atrelar a uma parelha de cavalos, resolvendo ou pelo menos amenizando o constante problema de mobilidade. A caronada era um pequeno reparo de madeira com rodas, que permitia o deslocamento das peças dentro dos navios. As caronadas eram muitas vezes munidas de argolas e anilhas para a fixação das peças durante os disparos, para que o recuo não fosse prejudicial à operação do armamento. (HENRY, 2005)
            A artilharia de campanha surge realmente no século XVIII, quando a combinação de mobilidade e poder de fogo tirou o caráter defensivo e possibilitou à artilharia um novo papel nos campos de batalha. Antes semi-estática e direcionada principalmente a muralhas, agora a artilharia ganha a tarefa de também disparar contra a infantaria e a cavalaria inimigas, e depois mesmo contra a artilharia inimiga em um tipo de operação chamado de contrabateria. Surge então o obus, armamento intermediário entre o canhão e o morteiro, que tem como característica o tiro curvo e grosso calibre, mas com inclinação do tubo menor que a do morteiro – até 45º – permitindo maior alcance. A artilharia de campanha na Europa organiza-se em companhias ou brigadas, compostas de normalmente cinco peças e um obuseiro, sendo as posições de tiro chamadas de baterias. O termo baterias, posteriormente, designou as próprias unidades elementares de artilharia. Era comum, na preparação das baterias, a disposição das peças sobre suportes de madeira, de modo que o recuo e impacto contra o solo não afundassem as rodas no solo irregular e prejudicasse a precisão dos tiros. (WEIR, 2006)
            Também no século XVIII ocorre o advento do raiamento interno dos tubos. As “almas raiadas” melhoraram significativamente a precisão dos tiros, por proporcionar um giro axial da munição disparada, mas diminuíram a vida útil das armas, ainda em sua imensa maioria fundidas em bronze. A solução foi fundir as peças em ferro e fundir um anel adicional de metal próximo à culatra duplicando a espessura na região mais crítica do armamento. Ainda assim, o alcance útil das maiores armas chegava a quatro quilômetros. Aliadas ao advento do raiamento dos tubos surgem as munições em formato cilindrocônico e as espoletas de contato. As munições com esse formato, similares aos projetis atuais, permitem um desempenho aerodinâmico melhor, e as espoletas de contato possibilitam operar com maior segurança munições explosivas como as de morteiro. (WISE, 1979)
            Quanto à tática, o deslocamento da artilharia para a linha de frente junto à cavalaria e infantaria alterou significativamente a dinâmica dos combates. Antes de a artilharia assumir essa posição, as infantarias inimigas ficavam frente a frente, em linha, e disparavam umas contra as outras de acordo com a velocidade que o armamento as permitisse. Se houvesse cavalaria em campo, esta assumia os flancos e empregava a mobilidade para desordenar as fileiras adversárias. Seguindo os exemplos da antiguidade, a infantaria atacada por cavalaria formava-se em “quadrado” a fim de proteger todos os seus integrantes e diminuir as perdas. Agora a artilharia seria disposta na primeira linha, para fustigar diretamente o inimigo antes do combate corpo-a-corpo. Cada disparo abria fendas nas formações inimigas e a manutenção da coesão e do moral das tropas ficava drasticamente prejudicada. O comandante de uma tropa atingida tinha em mãos o seguinte dilema: se dispusesse a infantaria em linha ofereceria um alvo demasiadamente fácil para os fogos inimigos, além de ficar imensamente mais vulnerável à cavalaria, porém se dispusesse em colunas diminuiria demais o seu próprio poder de fogo. A solução mais adotada era manter tropas divididas em quadrados, mas ainda assim os quadrados eram alvos interessantes para os fogos da artilharia. (WISE, 1979) Para a artilharia atacante, a primeira posição era à frente de todas as tropas para os primeiros disparos, depois as peças recuavam pelos espaços deixados por suas tropas e disparavam contra os inimigos por cima das tropas amigas. O gerenciamento de fogo, da logística, e da complexa interação entre a artilharia, cavalaria e infantaria formaram a base para a era napoleônica e os grandes conflitos dos séculos XIX e XX.
 
Conclusão

            A artilharia experimentou sua principal evolução entre o final do medievo e toda a Idade Moderna. A chegada da pólvora na Europa e sua inserção nos campos de batalha conduziram a uma grande reorganização das tropas que se enfrentavam a cada disputa armada. Até então a cavalaria era a principal força em armas, tendo seu grande momento de glória entre os séculos IX e XIV e sendo responsável por uma cultura cavalheiresca que permeia a sociedade ocidental até os dias de hoje. Porém a artilharia, associada à infantaria e cavalaria, permitiu o sucesso de Napoleão Bonaparte, na virada para a Modernidade, em suas campanhas. A partir de então, raros são os exércitos que se aventuram em conflitos sem o apoio dos fogos densos e poderosos de sua artilharia.
 
Referências
CAMPBELL, Duncan B. Greek and Roman Artillery 399BC-AD363.  1 ed. London: Osprey Publishing, 2003.
HENRY, Chris. English Civil War Artillery 1642-51. 1ed. London: Osprey Publishing, 2005.
KEEN, Maurice. Medieval Warfare, a History. 1ed. New York: Oxford University Press, 1999.
MAGALHÃES, João Batista. Estudo histórico sobre a guerra antiga: antes das armas de fogo.2 ed. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora,  2006.
WEIR, William.50 Batalhas Que Mudaram o Mundo: Os Conflitos Que Mais Influenciaram o Curso da História. 3 ed. São Paulo: M. Books, 2006.
WISE, Terence. Artillery Equipments of the Napoleonic Wars. 1 ed. London: Osprey Publishing, 1979.
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