ARTIGOS

A Primeira Guerra Registrada17/06/2014por August von Mackensen


Cerca de 6000 anos atrás as primeiras cidades-estado começaram a se desenvolver na região da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, atual Iraque. Com o seu crescimento foi natural o surgimento de conflitos entre essas cidades pelo controle de terras irrigáveis, disputas de fronteiras e pela necessidade de se obter matérias-primas básicas como madeira, metais como cobre e estanho e pedras. O constante ambiente de conflito gerou o desenvolvimento de técnicas e tecnologia militar muito adiantadas a qualquer outro lugar do mundo durante alguns séculos, assim como as primeiras muralhas e fortificações para defender os perímetros urbanos.

Embora não seja a primeira guerra da humanidade, a primeira guerra registrada e
documentada com larga quantidade de evidências ocorreu entre as cidades-estado de Lagash, cujos vestígios antigos foram descobertos no século XIX, e Umma em 2525 aC, distantes cerca de 30 km uma da outra. Por diversas gerações, Lagash e Umma disputaram a posse e usufruto agrícola da fértil região de Gu-edin. Como resultado de uma violação de um tratado de fronteiras por Umma, Lagash declarou-lhe guerra.

De acordo com as inscrições encontradas, Enakalli, o rei de Umma, foi instruído pelo seu deus titular para invadir a área conhecida como Gu-edin, um território irrigado e fértil. Os soldados de Umma removeram sua estela demarcadora de fronteira, a Estela de Mesalim, e devastaram as terras circundantes antes de invadirem de fato a planície de Lagash. Uma vez que o exército de Umma estava na planície, possivelmente muito próximo às muralhas de Lagash, as forças dessa cidade saíram para oferecer combate. Após a vitória, Eannatum, rei de Lagash, proclamou sua vitória tanto por discursos quanto pela feitura de estelas1 comemorativas, atribuindo a vitória a seu deus titular, Ningirsu, contra o deus titular de Umma, Shari. Após a batalha um tratado de paz foi estabelecido entre as duas cidades e Enakalli foi liberado para voltar a sua cidade após concordar em pagar um grande tributo a fim de cobrir as despesas do conflito. A Estela de Mesalim foi recolocada em seu local original e Gu-edin pode novamente ser utilizada para a agricultura. A importância dessa guerra para a historiografia militar repousa sobre a estela comemorativa que Eannatum, comandante de Lagash, mandou fazer para celebrar sua vitória. A Estela dos Abutres, encontrada em fragmentos e que faz parte de um monumento maior, ganhou esse nome
pela representação de numerosos abutres carregando as cabeças dos derrotados após a batalha e é a primeira representação pictorial de guerra do período sumério.

Essa primeira evidência histórica de organização de um exército, assim como o Estandarte de Ur, mostram lanceiros de Lagash usando capacetes de cobre, posicionados atrás de uma barreira de escudos de madeira e couro e vestindo pesadas “armaduras”, investindo contra os inimigos de Umma. A porção inferior da Estela dos Abutres mostra o rei Eannatum portando uma espada curvada como uma foice, porém afiada do lado externo, que se tornou a arma primária da infantaria entre os exércitos da região. As “armaduras” eram, provavelmente, feitas de camadas de fino couro com discos de metal abaulados e espinhos fixados no couro, proporcionando uma relativa proteção contra as armas da época, como pequenos machados de fio de cobre. O desenvolvimento seguinte foi justamente uma mudança nos desenhos dos machados, para que pudessem mais facilmente compensar esse tipo de proteção, tornando-se então uma das armas mais devastadoras da Antiguidade.

Os capacetes, exteriormente de cobre, tinham um “liner” de couro e forro interior, protegendo dos impactos diretos e de projéteis. Assim como essas foram as primeiras representações do uso de capacetes, foram também a primeira representação do uso militar da roda, que mostra Eannatum pilotando um carro de combate. A invenção dos carros de combate pelos sumérios está entre as maiores inovações militares da história, embora sejam uma adaptação dos carros de transporte utilizados cotidianamente. Apesar de pesados e um pouco difíceis de manobrar, esses veículos de quatro rodas puxados por asininos foram usados tanto na logística quanto nos combates, nas funções de simples atropelamento a plataforma para lanceiros e lançadores de projéteis.
 
Fontes:
FREEMAN, E.M.R. How War Was Waged. University of Manchester, Faculty of Arts.
HOLMES, P. How War Was Waged in Southern Mesopotamia.
POSTGATE, J.N. Early Mesopotamia. Routledge, London. 2004.
ROAF, M. Cultural Atlas of Mesopotamia. Andromeda, Oxfordshire, 2004.
ROUX, G. Ancient Iraq. Penguin Books, London. 1966.
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