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O Pacto Nazi-Soviético: Agosto de 193917/06/2014por Walter Dornberger  

ANTECEDENTES O equilíbrio de poder estabelecido ao final da Primeira Grande Guerra desmoronou gradualmente desde a crise da Abissínia de 1935. Em setembro de 1938, em Munique, o primeiro-ministro britânico Chamberlain e o Premier francês Daladier consentiram na divisão da Tchecoslováquia, com a anexação por Hitler do território dos Sudetos. Aos tchecos não foi dado nada além de uma promessa solene de que a integridade territorial do que restava de seu país seria respeitada. Chamberlain retornou a Londres proferindo a infeliz garantia de “paz em nosso tempo”, e a convicção de que o apaziguamento de Hitler fora conseguido. Isso era mais que uma convicção, uma esperança: na verdade, nem Inglaterra nem França estavam em posição militar para lutar ou forçar um acordo efetivo. A assinatura de acordos de não-agressão bilaterais entre Inglaterra, França, Itália e Alemanha reforçava as esperanças das potências ocidentais. O acordo de Munique sobreviveria por seis meses... A

DISSOLUÇÃO DA TCHECOSLOVÁQUIA - 
Em outubro e novembro daquele ano, o impotente governo tcheco em Praga foi obrigado a ceder Teschen à Polônia, entregar uma porção de território com cerca de um milhão de habitantes á Hungria e conceder autonomia às regiões da Eslováquia e Rutênia, renomeadas “Carpato-Ucrânia”. Mas as reivindicações mais graves vinham da Alemanha. Cerca de meio milhão de alemães viviam nas áreas tchecas da Boêmia e Moravia. Alegando maus-tratos e perseguições contra essa minoria por parte dos tchecos, Hitler intimou o governo de Praga a convidar o exército alemão para restabelecer a ordem. O presidente Hacha, sob a ameaça de um ataque aéreo à sua capital caso não cedesse à pressão alemã, consentiu. Em 15 de março de 1939, as tropas alemãs entraram em Praga. Boêmia e Moravia foram transformadas em protetorados alemães. A Eslováquia foi mantida como estado independente, sob a proteção germânica. A Rutênia foi cedida à Hungria. Em fins de março de 1939 o estado tcheco, cuja existência fora “garantida” em Munique, tinha deixado de existir. A

POSIÇÃO SOVIÉTICA
 - A dissolução da Tchecoslováquia sinalizava uma crescente instabilidade na Europa Oriental. No verão de 1939, havia uma divisão clara na Europa: de um lado a Alemanha, conduzindo uma agressiva política de expansão à leste; do outro, o bloco Anglo-Francês, prometendo assistência aos países ameaçados. A única nação cujas ações não poderiam ser previstas era a União Soviética. Em 1938 os soviéticos em conjunto com a França ofereceram à Tchecoslováquia a formação de uma aliança defensiva em caso de uma invasão alemã, mas o governo Hacha e seu Partido Agrário se opuseram à entrada de tropas soviéticas pelo medo de que o país se convertesse em outra Espanha, destroçada por uma guerra civil. Em setembro de 1938 a União Soviética fora ignorada nos acordos de Munique. As iniciativas soviéticas, levadas a cabo pelo Ministro do Exterior Maxim Litvinov, de formar um acordo de segurança coletivo sob a forma de um pacto antifascista, a chamada Frente Popular, haviam sido desprezadas em prol da política de apaziguamento anglo-francesa. A posição dúbia das nações ocidentais contra o fascismo na Guerra Civil Espanhola reforçava a desconfiança de Stalin. Por outro lado, havia sérias dúvidas da parte anglo-francesa quanto á capacidade militar soviética, grandemente comprometida pelos expurgos em massa do Exército Vermelho desde 1936.

AS NEGOCIAÇÕES FRANÇA-INGLATERRA-URSS - As conversações entre as três nações visando à formação de uma aliança militar contra Hitler arrastaram-se sem resultados devido á mutua desconfiança entre as partes. Os soviéticos clamavam por garantias palpáveis de assistência militar em caso de agressão alemã, e exigiam o reconhecimento do direito soviético de intervir contra “mudanças políticas favoráveis á uma nação agressora” nos países ao longo da fronteira ocidental soviética. Embora nenhum desses países tenha solicitado, a URSS oferecia “garantias para a independência da Finlândia, Estônia, Letônia, Polônia, Romênia, Turquia e Grécia”. Britânicos e franceses temiam que isso fosse uma autorização velada para a intervenção soviética nos assuntos internos desses países, mesmo na ausência imediata de uma ameaça por parte da Alemanha. Com Hitler começando a fazer demandas por concessões territoriais da Polônia, a ameaça de guerra se intensificava. Mas apesar dos contatos diplomáticos entre as três nações terem começado em abril de 1939 as delegações militares ocidentais (enviadas de navio) só chegaram a Moscou em 11 de agosto. O ponto de atrito mais crítico das negociações foi a questão da Polônia, encurralada entre a Alemanha e a União Soviética: o governo polonês temia com motivos que a URSS tenta-se anexar as ex-províncias russas incorporadas á Polônia em 1920. A Ucrânia Ocidental e a Bielorrúsia Ocidental eram reclamadas pelo Kremlin com base na identidade étnica da população com as repúblicas soviéticas vizinhas. O governo de Varsóvia se recusava a permitir a instalação de bases militares soviéticas em tempos de paz, o que deixava o Exército Vermelho sem condições de reagir à uma invasão alemã antes que ela se concretizasse. Na terceira semana de agosto, as negociações chegaram a um impasse, com cada um dos lados desconfiando do outro, e com a forte suspeita por parte do Kremlin de que França e Inglaterra planejavam lançar a Rússia sozinha num conflito contra a Alemanha.

MUDANÇA DE RUMO - Já em seu discurso no 18º Congresso do Partido Comunista em 10 de março de 1939, Stalin havia denunciado os clamores ocidentais sobre a ação dos alemães na moribunda Tchecoslováquia como “provocações destinadas a levar a um conflito com a Alemanha sem razão plausível”. Declarando que os estados “não-agressivos” eram “inquestionavelmente mais fortes que os estados fascistas”, ele afirmou que a falha em resistir a Hitler era motivada não por fraqueza, mas pelo desejo de jogar nazistas contra soviéticos. Stalin clamou contra “fazedores de guerra acostumados a deixar que outros joguem as castanhas no fogo para eles.” Ele proclamou a intenção soviética de ficar fora da “nova guerra imperialista”, a qual “já está em seu segundo ano, como eu vejo”. O Dicionário Político Soviético de 1940 descreveu o discurso de Stalin como elevando “a questão das boas relações de vizinhança entre Alemanha e União Soviética”. “Essa declaração do Camarada Stalin,” prossegue o artigo, “foi propriamente compreendida na Alemanha.” É verdade que a declaração de Stalin encontrou ouvintes receptivos do lado alemão. Em 17 de abril de 1939 o embaixador soviético na Alemanha Merekalov contatou o Secretário de estado Ernst Weizsaecker e sinalizou o desejo soviético de boas relações com a Alemanha. Em 3 de maio de 1939, Stalin demite seu Ministro do Exterior Maxim Litvinov, advogado maior do conceito de “segurança coletiva” contra o fascismo. Em seu lugar, assume V.M. Molotov, um fiel seguidor de Stalin. A inesperada demissão de Litvinov pode ser explicada por suas origens judaicas, um complicador nas negociações com os nazistas.

O LADO ALEMÃO - No exército alemão, sempre preocupado com o perigo de uma guerra em duas frentes, sempre houve uma escola, seguidora do pensamento do General von Seeckt, que favorecia uma colaboração ativa com a Rússia. No Ministério do Exterior alemão, igualmente, uma política de amizade com a Rússia tinha seguidores desde 1918, expressa pelo Tratado de Rapallo de 1922, quando os dois países formaram uma frente unida contra os vencedores da Primeira Guerra. Para aqueles que se preocupavam com os problemas econômicos do Plano Quadrienal, a possibilidade de receber recursos russos em matérias-primas parecia uma benção. Finalmente, o argumento de maior peso no julgamento de Hitler: era o meio mais seguro de isolar a Polônia, evitando a intervenção das potências ocidentais e mantendo o conflito localizado. Como resultado do Tratado de Versalhes, a Prússia Oriental havia sido dada á Polônia em 1919, garantindo o acesso da nova nação ao mar. O “corredor polonês” era na verdade um território de maioria alemã, e sua recuperação uma das metas principais de Hitler. Depois da traição alemã ao acordo de Munique Chamberlain havia abandonado a política de apaziguamento e em março de 1939 França e Inglaterra garantiram á Polônia que lutariam para proteger a independência do país. Por outro lado, a Polônia recusou as investidas alemãs no sentido de uma aliança contra a URSS. Hitler planejava barganhar Dantzig e o corredor polonês em troca de ganhos territoriais na Ucrânia numa aliança contra os russos. Em 2 de abril de 1939, Hitler solicitou a seus generais que fizessem planos para a ocupação da Polônia. O ataque estava planejado para fins de agosto. Pelo fim de julho, os nazistas concluíram que um acordo com os soviéticos era necessário e logo para que os planos de guerra pudessem ser implementados com segurança. Em 14 de agosto de 1939 o Ministro do Exterior alemão, Joachim von Ribbentrop, instrui o embaixador alemão em Moscou, Schulenburg, a dizer a Molotov que “diferenças ideológicas não excluem cooperação amistosa; que todas as questões relativas aos Bálcãs e aos estados do Báltico podem ser negociadas; que as democracias ocidentais são inimigas naturais tanto da Alemanha quanto da URSS; que com a proximidade da guerra, o esclarecimento imediato das relações entre os dois países é desejável; e que Ribbentrop está preparado para ir a Moscou negociar”. Em 19 de agosto o acordo comercial Germano-soviético é assinado e Molotov apresenta um rascunho do pacto. No dia seguinte, Hitler telegrafa a Stalin pedindo que receba Ribbentrop em Moscou entre 22 e 23 daquele mês. Ao receber a resposta positiva de Stalin, o Fuehrer soca a parede e grita: “eu tenho o mundo no meu bolso!” Em 23 de agosto, após negociarem alguns detalhes finais, Molotov e Ribbentrop assinam o pacto de não-agressão germano-soviético. O caminho da guerra estava aberto.

PROTOCOLO SECRETO - O texto divulgado ao público do Pacto é simplesmente o de um acordo de não-agressão e neutralidade, remetendo ao precedente do Pacto Germano-Soviético de 1926 (Tratado de Berlim). Ambos os países concordavam em não atacar um ao outro. As disputas entre os dois países seriam negociadas amistosamente. Negociado para durar dez anos, seria rompido por Hitler em menos de dois. O significado prático dos termos do Pacto é de que se a Alemanha atacasse a Polônia, a União Soviética não interviria. Assim como, se a Alemanha fosse à guerra contra Inglaterra e França, os soviéticos permaneceriam neutros, não abrindo uma segunda frente contra a Alemanha. Em adição ao texto público do Pacto, Ribbentrop e Molotov adicionaram um protocolo secreto, um adendo cuja existência os soviéticos negariam até 1989. Tratava-se na prática da divisão da Europa Oriental. Pela garantia de neutralidade numa guerra futura, a Alemanha cedia aos soviéticos sem questionamento os Estados do Báltico (Estônia, Letônia e Lituânia). A Bessarábia era dada à Rússia. A Polônia também seria dividida em dois ao longo da linha dos rios Narew, Vistula e San. Esta passaria a ser a fronteira entre as esferas de influência alemã e soviética. Os novos territórios dariam á União Soviética um amortecedor territorial para garantir a segurança em caso de invasão pelo Oeste. Ela iria necessitar desse “travesseiro” em 1941.

DISCURSO DE STALIN AO POLITBURO EM 19 DE AGOSTO DE 1939 - “A questão da guerra e paz entrou numa fase crítica para nós. Se nós concluirmos um pacto de mútua assistência com França e Grã-Bretanha, a Alemanha recuará da Polônia e buscará um modus vivendi com as Potências Ocidentais. A guerra seria evitada, mas os eventos posteriores poderiam se revelar perigosos para a URSS. Se nós aceitarmos a proposta alemã e concluirmos um pacto de não-agressão, eles poderão é claro invadir a Polônia, e a intervenção da França e Inglaterra será então inevitável. A Europa Ocidental será sujeita a sérios conflitos e desordens. Neste caso nós teremos uma grande oportunidade de permanecer fora do conflito, e poderemos planejar o tempo oportuno de entrar na guerra. A experiência dos últimos 20 anos mostrou que em tempos de paz o movimento comunista nunca é forte o suficiente para que o Partido Bolchevique tome o poder. A ditadura do Partido só se torna possível como resultado de uma guerra de porte.” Nossa escolha é clara. Nós devemos aceitar a proposta alemã e polidamente enviar a missão Anglo-Francesa de volta. Nossa vantagem imediata será a tomada da Polônia, incluindo a Galícia Ucraniana. A Alemanha nos garante total liberdade de ação no Báltico e reconhece nossa reivindicação na Bessarábia. Ela está preparada para concordar com nossos interesses na Romênia, Bulgária e Hungria. A Iugoslávia permanece uma questão aberta. Ao mesmo tempo, devemos olhar para a situação que se seguirá às possíveis conquistas alemãs. Nesse caso, devemos desistir da sovietização da Alemanha e do estabelecimento de um governo comunista lá. Não devemos esquecer que a sovietização só pode ocorrer em meio à grave crise, o que poderia encurtar a guerra. Inglaterra e França são fortes o suficiente para tomar Berlim e destruir uma Alemanha soviética. Nós estaríamos incapazes de ajudar nossos camaradas bolcheviques alemães.” Desse modo, devemos manter a Alemanha capaz de conduzir a guerra no futuro, com o objetivo de que a Inglaterra e França não possam vir a ameaçar uma Alemanha soviética. Mantendo a neutralidade e esperando pelo tempo certo, a URSS deve presentemente fornecer a Alemanha com matérias-primas e bens de consumo. Sem, no entanto, enfraquecer nossa economia ou o poder de nosso exército. Ao mesmo tempo, devemos conduzir ativa propaganda comunista no bloco Anglo-francês, especialmente na França. Devemos estar prontos para o tempo em que, naquele país, o Partido deva abandonar os meios legais de ação e se tornar clandestino. Sabemos que seu trabalho irá demandar grandes sacrifícios, mas confiamos em nossos camaradas franceses. A primeira tarefa deve ser desmoralizar o exército e a polícia. Se esse trabalho preparatório for feito adequadamente, o perigo para a Alemanha soviética será minimizado. Isso irá também contribuir para a sovietização da França.” Para a realização desses planos é essencial que a guerra se prolongue o máximo possível, e todas as forças na Europa Ocidental e Bálcãs, com as quais estamos envolvidos, devem ser direcionadas para essa meta. Consideremos agora uma segunda possibilidade, uma vitória da Alemanha. Pensam alguns que isso nos colocaria em sério risco. Há alguma verdade nisso, mas é um engano considerar o perigo tão grande ou tão próximo como proposto. Se a Alemanha se sair vitoriosa, deixará a guerra tão enfraquecida que levaria no mínimo dez anos para que pudesse iniciar uma guerra contra a URSS. Teria de cuidar dos territórios ocupados na França e Inglaterra e recuperar seu próprio país. Obviamente essa Alemanha estaria ocupada demais para se voltar contra nós. Em uma França ocupada o Partido Comunista seria muito forte. A revolução comunista poderia eclodir, e nós poderíamos explorar a situação para ir a auxílio da França e fazê-la nossa aliada.” E claro, todas as nações que caírem sob a proteção de uma Alemanha vitoriosa poderiam se tornar nossas aliadas. Isso apresentar-nos-ia um campo fértil para a difusão da revolução mundial. Camaradas! É do interesse da URSS, a pátria dos trabalhadores, que haja guerra entre o Reich alemão e o bloco capitalista Anglo-francês. Tudo deve ser feito para que ela se arraste tanto quanto possível, com o objetivo de enfraquecer ambos os lados. Por esta razão, é imperativo que concordemos em concluir o pacto proposto pela Alemanha, e então trabalhar no sentido de que essa guerra, a ser declarada a qualquer momento, se prolongue pelo máximo de tempo. Nós precisamos fortalecer o trabalho de propaganda nos países beligerantes, com o objetivo de estarmos preparados quando a guerra terminar.”

CONSUMAÇÃO E CONSIDERAÇÕES - Nas primeiras horas de 1 de setembro de 1939, o poderio militar da Alemanha nazista foi lançado contra a Polônia. Enquanto as divisões Panzer atravessavam a fronteira, a Luftwaffe iniciava sua chuva de devastação sobre Varsóvia e outras cidades polonesas. Em 3 de setembro, Inglaterra e França declaravam guerra á Alemanha, iniciando a maior de todas as guerras da História. Em 17 de setembro, o Exército Vermelho soviético invadia a Polônia pelo leste e contatava as forças alemãs na cidade de Brest-Litovsk. Os soviéticos logo consolidaram sua “esfera de influência”. A Finlândia foi atacada em 30 de novembro e forçada a ceder o Istmo da Carélia e outros territórios. As repúblicas bálticas da Estônia, Letônia e Lituânia foram anexadas como repúblicas soviéticas em agosto de 1940. A Polônia cessava de existir como nação independente. Teria a guerra realmente se iniciado naquele setembro nas planícies da Polônia? E teria sido de fato a Alemanha de Hitler a causadora do conflito? Stalin não nutria a menor dúvida de que com o pacto Hitler eliminava o risco de uma guerra em duas frentes, e se lançaria à luta. Mas ele não tinha nenhum escrúpulo sobre isso. Stalin estava convencido que a guerra era inevitável. Sem o acordo com Hitler, o conflito eclodiria mais cedo ou mais tarde, sob condições muito mais desfavoráveis para a Rússia. Os ganhos da União Soviética com o Pacto foram, basicamente: moral, território e tempo. Dos três, o mais real foi o ganho moral. A atitude de Stalin diante de Hitler deixou claro ao povo russo que tudo havia sido feito para evitar a guerra. É uma característica peculiar da história militar russa que o soldado russo, ao contrário do alemão, exibe suas melhores qualidades de luta em defesa do território pátrio. A convicção de que a luta era pela sobrevivência nacional fez surgir na Rússia soviética toda uma geração de notáveis combatentes. O valor estratégico dos ganhos territoriais é mais ambíguo. Dias após a invasão de 1941 a URSS perdera seus postos avançados na Polônia Oriental e nos Estados Bálticos. O processo de ocupação desses territórios foi trabalhoso e impiedoso, envolvendo a submissão de inúmeras pequenas minorias nacionais e a deportação de elementos “não confiáveis” para os gulags do interior da Rússia. Assim, qualquer vantagem estratégica desses territórios se perde diante do desgaste político e moral envolvendo sua aquisição e da facilidade com que caíram diante do inimigo. O ganho em tempo é ainda mais questionável. É verdade que Stalin usou os vinte e dois meses ganhos lançando um intensivo programa de desenvolvimento da industria russa de armamento e de preparação do Exército Vermelho para a utilização dos mais recentes avanços militares. Mas Hitler não descansou nesse ínterim. Tendo eliminado o risco de guerra em duas frentes, ele conduziu a subjugação de quase toda a Europa e pode então usar os recursos econômicos e a força de trabalho de uma dúzia de países em favor da máquina de guerra germânica. Até mesmo o acordo comercial entre Rússia e Alemanha funcionou ambiguamente: se de um lado forneceu aos soviéticos maquinaria e meios de produção para alimentar sua indústria bélica, pelo outro sustentou a Alemanha na fase crítica do bloqueio naval inglês com alimentos e matérias-primas. E a crescente dependência da economia alemã das importações russas acabou sendo um motivo a mais na deflagração da Operação Barbarrosa. E por último, não é verdade que Stalin explorou totalmente os dois anos de trégua com a Alemanha. Esperando até o último momento evitar a guerra, ele ignorou todos os avisos sobre a iminência do ataque alemão e não mobilizou a força necessária que poderia ter impedido as vitórias iniciais retumbantes da Wehrmacht.
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