Por Hans Rudel*
“A batalha de Cassino foi a mais encarniçada, a mais horripilante e, num certo sentido, talvez a mais trágica etapa da guerra na Itália" Gal. Mark Clark
As características geográficas do solo italiano - um país longo, estreito e montanhoso – fazem com que, em batalha, o defensor invariavelmente leve grande vantagem.
No início de 1944 a situação não poderia ser diferente. As forças alemãs na Europa já estavam em franca retirada no fronte leste, enquanto o Exército Vermelho já atravessava a fronteira polonesa em direção ao solo germânico. Os aliados já haviam dominado a Sicília há vários meses (junho-1943), e até mesmo a Itália se voltava contra a antiga aliada.
A presença da Wehrmacht na península italiana, entretanto, ainda era alta, e continuaria a dar trabalho aos aliados até maio de 1945, poucos dias antes da rendição incondicional das forças alemãs.
A tomada de Monte Cassino foi, na verdade, composta de 3 fases (segundo os historiadores alemães), ou 4 batalhas distintas segundo historiadores americanos/britânicos. Foi, também, palco de um episódio que gerou grandes controvérsias dentro do alto comando aliado: a destruição do mosteiro de Monte Cassino, durante o bombardeio que precedeu o ataque.
A primeira fase (primeira e segunda batalhas de Monte Cassino) durou de 12 de janeiro a 18 de fevereiro de 1944. A segunda e terceira fases duraram de 15-23 de março e 11-19 de maio, respectivamente.
Os objetivos principais da operação eram dois: liberar a cabeça-de-ponte do Anzio, e abrir rapidamente uma passagem de Nápoles para Roma.
PRIMEIRA FASE
A 12 de janeiro de 1944 uma força de 255 bombardeiros aliados ruge sobre a região do Monte, despejando centenas de toneladas de explosivos sobre posições ocupadas por alemães. Apesar de as primeiras bombas caírem (sem causar baixas) sobre posições aliadas, esse ataque preliminar gozou de razoável precisão.
Após o bombardeio (e um pesado ataque de artilharia), a 2ª Div. De Infantaria Marroquina ataca ao norte da estrada Colli-Atina, e a 3ª Div. De Infantaria Argeliana avança contra Monte Casal, e termina por tomar Aquafondatta e Sant Elia. Os argelianos chegariam no dia 16, mas teriam sérias dificuldades no Monte San Croce. Em 15 de janeiro a 36ª Divisão de Infantaria (americana) capturava Monte Trocchio.
A segunda batalha confunde-se com a primeira, e tem início no dia 17 de janeiro. Chega a ser estranho que alguns historiadores separem essas duas batalhas, ao invés de tratá-las como um único evento, mas isso se explica no fato de que os objetivos aliados mudam sensivelmente. Agora era necessário capturar Minturno, para abrir o Vale Ausente.
A 22 de janeiro ocorria o desembarque em Anzio, comandado pelo General Lucas. A resposta germânica é imediata, com o envio do 1º Corpo de Pára-Quedistas (que, nessa época, já estavam sendo empregados como tropas de infantaria comum). No dia 25 tropas da Tunísia tomavam o Monte Belvedere, que seria perdido novamente para os alemães, reconquistado pelos argelianos e perdido e retomado diversas vezes nos dias que se seguiram.
Em 11 de fevereiro o general Keyes resolve reforçar o Segundo Corpo com a 4ª Divisão Indiana, e designa novo objetivos. A 34ª deve, agora, atacar o Monastério, enquanto a 36ª recebe a missão de capturar Massa Albaneta. O ataque foi cancelado devido às condições meteorológicas altamente desfavoráveis que, seguidas por uma pesada barragem de metralhadora alemã jogou os americanos para trás. A 4ª indiana pôde avançar após um novo bombardeio aliado, mas seguiu para o Monte Cavalry. No dia 16 um novo bombardeio é realizado, tendo como um de seus resultados a destruição do mosteiro.
A quarta divisão indiana, comandada pelo general Freyberg, avançou sobre o objetivo, mas de forma não muito organizada, e lutando contra um terreno desfavorável, piorado pelo bombardeio prévio. Por todos esse motivos as defesas alemãs repeliram todas as tentativas dos hindus de fazer o assalto. Apesar disso tudo, os aliados conquistaram uma vitória nessa primeira leva de ataques, ainda que fugaz. Uma das colinas próximas foi tomada pela 4ª indiana, mas perdida pouco tempo depois, devido à falta de reforços. O general Freyberg decide suspender a ofensiva, encerrando a segunda batalha de Monte Cassino.
SEGUNDA FASE
O objetivo aliado continuava sendo a conquista do terreno elevado ao redor de Monte Cassino, favorecendo um ataque em direção ao Noroeste (Roma).
Às 8:30 da manhã de 15 de março uma nova leva de bombardeiros aliados se aproximava de Cassino para despejar seu conteúdo mortal. O ataque aéreo perdurou pelas quatro horas seguintes, sem encontrar oposição aérea nem, tampouco, fogo anti-aéreo, mergulhando o povoado em uma nuvem negra de fumaça e pontilhando labaredas pelas construções. Mil trezentas e vinte e uma toneladas de bombas foram lançadas sobre o alvo.
Mesmo tendo sofrido esse intenso bombardeio, e o pesado fogo de artilharia que se seguiu (cerca de 200 mil disparos), o espírito de luta dos alemães ainda não estava completamente destruído, e os pequenos focos de resistência espalhados pelos escombros deram trabalho às forças aliadas. Após três dias de duras lutas, a 6ª Brigada de Infantaria Neozelandesa havia tomado cerca de 75% da cidade, mas isso não tornava a luta mais fácil, e parecia nem mesmo torná-la mais próxima. A semana seguinte seguiu sem progressos, apesar do combate constante e determinado dos aliados.
Finalmente, no dia 22, os neozelandeses e indianos lançaram uma série de ataques contra a elevação, mas foram continuamente frustrados pela 1ª Divisão de pára-quedistas, que se recusava a perder um palmo sequer de terreno. No dia 23 o General Alexander ordenou que o ataque cessasse, encerrando a terceira batalha de Monte Cassino.
Após esse eventos as tropas aliadas passaram a respeitar mais a tenacidade dos pára-quedistas alemães, que se mostraram a principal força de defesa da elevação. Puderam, também, notar que pesadas barragens de artilharia ou bombardeios não poderiam trazer a vitória naquele terreno. As táticas precisariam ser revistas para que pudessem ter sucesso na empreitada.
TERCEIRA FASE
Na terceira fase da "campanha" para tomar Monte Cassino os aliados acumularam vinte e uma divisões e onze brigadas, contra quatorze divisões e três brigadas do lado alemão.
Às 23:00 do dia 11 de maio cerca de duas mil bocas de fogo começam a disparar, à partir de Aquanfondata. Quarenta e cinco minutos depois as tropas britânicas, baseadas em Rapido, avançam, seguidas pelo 2º Corpo Polonês. Ao primeiro raiar do dia 12 uma esquadrilha de caças-bombardeiros derramam alto-explosivo sobre o quartel-general do 10º exército alemão, deixando-o enterrado sob o tapete de bombas. O Corpo Polonês capturaria o Monte Cavalry horas mais tarde, sendo que os alemães enviaram reforços, em uma tentativa de retomá-lo. Os quatro primeiros contra-ataques fracassam, embora o quinto tenha sido um sucesso.
Os marroquinos seguem na batalha, tomando diversas posições alemãs, uma por uma, incluindo os Montes Girofano, Feuci e Maio. Em conjunto com os Argelianos, conseguem tomar Monte Ceschito.
As tropas aliadas, nitidamente mais eficientes que nas batalhas anteriores, tomam, nos dias que se seguem: Pignataro, Pontecorvo, Monte Petrella e Monte Rivole. Embora Cassino ainda esteja sob domínio germânico, o ganho de terreno aliado salta aos olhos. Formia foi mantida sob domínio alemão a muito custo, contra a 88ª Divisão americana.
Em 17 de maio os marroquinos seguem capturando os Montes Faggeto e Calvo, além de Serra do Lago. Nesse dia também foram capturados: Ausonia, Esperia, Monte d'Oro e Piumarola, abrindo caminho até Cassino. Para evitar cerco e captura, é ordenado que os pára-quedistas que defendem Cassino se retirem para as montanhas. O Monte, que havia sido alvo de ataques constantes nos quatro meses anteriores, foi tomado por tropas polonesas, após horas de encarniçada batalha. Encerrava-se a quarta batalha de monte Cassino.
Palavra de um escritor britânico que combateu em Cassino como oficial de infantaria: "Em Cassino, o bombardeio era o único meio possível de infringir um dano real às fortificações, excepcionalmente poderosas, erigidas pelos alemães no povoado. Porém, somente um batalhão de infantaria foi lançado ao ataque, ao se encerrar o bombardeio, nessa primeira e vital jornada. Além disso, quando os tanques de apoio não puderam avançar, ao se verem detidos pelos escombros, enviou-se como reforço uma só companhia de infantaria. Este foi o erro fundamental na condução da batalha durante a primeira jornada. O terreno que poderia ter sido conquistado imediatamente, depois do bombardeio, teve que ser disputado penosamente, mais tarde, metro o metro, depois que os alemães se recuperaram... A outra lição foi que tropas de primeira classe não podem ser vencidas unicamente mediante uma mera chuva de bombas. Os aviões não podem ganhar sozinhos uma batalha terrestre. São os soldados que, em última instância, decidem a luta".
A queda de Cassino e desmembramento da linha Gustav, todavia, não foram suficientes para quebrar totalmente a vontade germânica. Apenas 10 quilômetros mais a oeste foi formada uma nova linha defensiva, batizada "Adolf Hitler", com extensos campos de minas e muitos ninhos de metralhadora, formando uma defesa formidável.
Referências:
http://www.battleofmontecassino.com/
http://geocities.yahoo.com.br/segundaguemundial/batalhas/montecassino.htm
http://adluna.sites.uol.com.br/400/465.htm