Por Kiril Meretskov*
Continuando a série Artilharia, vamos ver aqui mais algumas armas das incontáveis que foram criadas para o serviço dos artilheiros. Seria impossível citar aqui todos os tipos e variações de armas que compõem a Artilharia, pois o texto seria enorme, mas vamos prosseguindo em nossa ultima parte.
A Munição. Há quem defenda que o canhão não é mais que um meio de entrega ou transporte, e que a verdadeira arma é o projétil disparado por ele. Há dois tipos de projéteis. O sólido e a granada explosiva. O primeiro é sólido, maciço, rígido e depende do seu impacto para causar dano ao alvo. A granada é oca, contendo algum alto explosivo ou outra substância que produza o efeito tático desejado, por exemplo, produtos químicos que provocam fumaça, luminosos, gás, etc. Todo canhão foi originalmente projetado para atirarem granadas. Todo projeto inicial do canhão começa com elas, seu alcance e capacidade de destruição.
A granada básica aparenta ser um problema simples, sendo apenas um corpo de aço de tamanho adequado, cheio de explosivo e dotado de uma espoleta. Mas há complicações ocultas. O dispositivo tem de ser disparado de um canhão, o que representa uma aceleração de pelo menos 50 mil “g”, sendo assim precisa ser forte o bastante para não sofrer esmagamento, o explosivo tem que resistir a aceleração sem explodir, mas com sensibilidade necessária para detonar eficientemente no alvo e romper o projétil em grande número de fragmentos. Não esquecendo que tem que ser barata, de fabricação simples e passível de armazenagem durante muitos anos, sem perigo de deterioração. Um erro comum é dizer que quem esta perto de uma detonação de granada de alto explosivo é ferida por “shrapnel”. Isso não é verdade, pois “shrapnel” é um tipo especifico de granada, não é de alto explosivo, é oca e contem grande quantidade de balins (esferas) debaixo de uma carga de pólvora. A espoleta de tempo é armada para detonar em um determinado ponto no ar. É o mesmo efeito de uma espingarda de caça.
As espoletas são complexas, mas podemos considerá-las apenas como um dispositivo que assegura o funcionamento correto da granada. A maioria das granadas de alto explosivo é dotada de espoleta de impacto “percussão”, e quando a granada atinge o alvo, uma agulha penetra uma cápsula ou detonador, fazendo explodir o conteúdo. Há casos em que é conveniente fazer a granada explodir no ar, como no caso das antiaéreas, onde é fácil um tiro a uma distancia letal, mas pouco provável um tiro direto. Durante a Segunda Guerra, desenvolveu-se um tipo de espoleta de aproximação que “sente” a aproximação do alvo. Normalmente são operadas por radio ou por sensores fotoelétricos.
A granada é impelida até o alvo pela explosão, dentro da câmara do canhão, da cápsula ou da carga propelente. Em armas leves a carga fica dentro de cápsulas de metal. Já em armas pesadas usam-se cargas ensacadas, nas quais a pólvora sem fumaça, em um saco de tecido de seda. A linha divisória normal entre estojo e ensacadas é no calibre de 127 mm.
As bazucas, os Panzerfaust e o Piat utilizavam-se de projéteis de carga oca. O projétil de carga oca contem uma carga de alto explosivo com uma camisa de cobre perfilado na parte frontal e um “pára-brisa” aerodinâmico para dar-lhe a forma balística necessária. Quando a espoleta da base funciona, ao atingir o alvo, a camisa de cobre é deformada, para formar da carga um jato poderoso que penetra a blindagem do alvo e lança um fluxo de chamas e gás quente dentro do tanque.
O tanque. Quando este fez sua estréia no campo de batalha em 1916, trouxe consigo um certo ar de invencibilidade que durante algum tempo teve o dom de afastar qualquer atitude de defesa diante dele. Houve exceções, como a famosa resistência de um solitário oficial alemão, em Flesquières, que, disparando um canhão de campanha com munição comum, causou uma verdadeira devastação entre os tanques ingleses. No período entre guerras surgiu o pequeno canhão de 20 mm Becker, que foi o primeiro semi-automático. A filosofia antitanque na década de 30 era dotar a infantaria de um pequeno canhão de fácil manejo. A campanha da França salientou as deficiências dos canhões pequenos contra os tanques mais modernos, seu sucesso era apenas parcial e dependia de elevada coragem e sangue frio por parte dos artilheiros, pois eles precisavam de muita calma para esperar até que os tanques se aproximassem o suficiente antes de atirar e acertar em cheio com o primeiro tiro.
Mas a batalha no terreno dos antitanque é um vaivém continuo, hoje o tanque reina com supremacia absoluta, amanhã o desenhista aparece com um canhão melhor e no dia seguinte, surge um tanque mais bem blindado, e assim por diante. Para superar os tanques, os projetistas de canhões precisavam fazer canhões mais pesados, disparando projéteis mais pesados a velocidades cad vez maiores e com uma munição que aumentasse a durabilidade do canhão.
Os canhões antitanque autopropulsados começaram a imperar perto do final da guerra. Principalmente pela facilidade de acompanhar os blindados, aos quais dava apoio. Outro motivo é que para se ter um canhão com capacidade de destruição dos pesados blindados, era impossível movê-los com força humana. Os americanos foram os que mais se interessaram por esse tipo de canhão. Um dos paises que mais se destacaram em canhões autopropulsados foram os Estados Unidos, um de seus melhores exemplares foi o M12, que era composto por um chassi de tanque M3 ou M4 modificado e um canhão antigo de 155 mm, em um habitáculo para os artilheiros aberto. Foi usado na conquista de Colônia. Um exemplo alemão que teve sucesso foi o Hummel, que era baseado no chassi do Panzer IV, seu problema foi não ter sido fabricado em quantidade suficiente, tendo seu batismo de fogo na Batalha de Kursk.
O Deserto. A guerra no deserto era “o paraíso do tático e o inferno do intendente”. É uma frase adequada, porem não exprime tudo. Embora os táticos desfrutassem de amplos espaços e o intendente sofresse com as longas linhas de suprimento, a guerra no deserto trouxe vários aprendizados até então ignorados. Um problema era comum a todos, a área, penetrava em tudo, danificando e fazendo com que a vida útil das peças diminuísse. Uma outra característica marcante eram as tênues linhas, às vezes pequenas unidades blindadas apareciam pela retaguarda atacando e devastando as unidades de artilharia. Com isso surgiu a necessidade de posicionar os canhões onde pudessem ser defendidos pela infantaria. Um momento culminante na guerra do deserto e para a Artilharia foi à barragem de 23 de outubro de 1942, quando o 8º Exército Inglês iniciou sua ofensiva. Foram usados 456 canhões na área do XXX Corpo.
Na floresta. No meio das arvores não da para puxar os canhões, não havia lugar para artilharia cerrada, muitas vezes nem se tinha espaço para desenvolver uma bateria corretamente. Não havia praticamente a possibilidade de localização por luz ou sonora, os observadores não conseguiam ver nada e o som era abafado. Por causa da vegetação fechada, a observação aérea também era dificultada. Diante de tudo isso o esforço da artilharia foi meritório. O exército japonês foi o que menos recorreu à artilharia. A principal característica dos nipônicos era a meticulosidade com que os artilheiros camuflavam seus canhões. Abrigos subterrâneos, bunkers, cavernas, uso de arbustos somado à camuflagem artificial, tudo isto contribuía para tornar o canhão japonês praticamente invisível até o momento em que atirava. E a menos que estivesse olhando para ele naquele momento, era possível que nem assim o descobrisse.
Com a escassez de canhões e munição, os japoneses recorriam a algumas artimanhas engenhosas para tentar impedir que os soldados aliados os descobrissem. Uma técnica observada era disparar fogo de enquadramento de um alvo com muita lentidão, às vezes demorando 15 minutos entre os disparos e, além disso, fazendo os tiros de dois canhões diferentes. Este tipo de disparo, entremeado de fogo ocasional de morteiro e rajadas de metralhadoras, ás vezes é irreconhecível como fogo de enquadramento ou localização, sendo simplesmente considerado como hostilização, porque não se distinguia qualquer padrão. Mas, se os artilheiros forem pacientes, podem conseguir um resultado seguro, que mais tarde representará uma rajada repentina bem contra o alvo e sem qualquer aviso prévio, no momento em que o ataque se inicia.
Outro truque também por eles muito empregado era disparar algumas granadas no momento exato em que os canhões aliados estavam atirando, sincronizando e apontando os disparos de modo a acertarem as linhas de infantaria aliadas no instante em que algumas granadas aliadas estivessem passando acima delas. Isto quase sempre provocava um grito da infantaria “Os desgraçados dos artilheiros estão atirando muito perto!”, bem como causavam baixas que de tal modo prejudicavam as relações dos integrantes das duas armas, que os pobres artilheiros às vezes eram proibidos de atirar perto das suas próprias tropas. Felizmente a artimanha acabou descoberta, mas, mesmo assim, demorou muito para que este truque deixasse de dar resultados.